MÁRMORES DE ELGIN
O estado de ruína do Parthenon não se ficou a dever em exclusivo à fricção do tempo.
Foi preciso chegar a 1687 para que uma bala de canhão oriunda de um navio veneziano da armada de Morosini acertasse em cheio no edifício, então reduzido à pouco nobre condição de paiol de munições turco. A explosão escaqueirou o Parthenon, mas não impediu que os turcos continuassem a usar a Acrópole como fortaleza militar por mais de um século. Eles nunca se mostraram muito dados à apreciação de tais monumentos: outra vítima célebre, o pequeno templo de Nike Athena, foi ali destruída para dar mais espaço à artilharia otomana…
O objectivo inicial de Thomas Bruce, sétimo conde de Elgin, era modesto: copiar, com moldes de gesso, algumas esculturas, para decorar a mansão que oferecera à sua mulher como prenda de casamento. Para tal, teve de subornar várias autoridades turcas; mesmo assim, a sua equipa trabalhava sujeita a inúmeras restrições: por exemplo, não podiam usar andaimes, pois isso poderia permitir que os europeus espreitassem para dentro das residências de muçulmanos.
A páginas tantas, Elgin resolveu mudar os seus planos e dedicar-se antes a “salvar” os frisos. Aproveitando a sua condição de embaixador e a crescente influência britânica na zona, fruto das vitórias de Nelson, pediu e obteve autorização para levar para o Reino Unido “algumas” peças. Esta palavra ainda hoje é alvo de controvérsia, pois o original turco da autorização concedida a Elgin está perdido há muito, restando apenas uma tradução italiana que usa a palavra “qualche”, que tanto pode significar “umas poucas” ou “quaisquer”. O bom embaixador decidiu-se alegremente pela segunda hipótese, lançando sobre o Parthenon uma equipa de 300 homens que se dedicou, durante um ano, a retirar, nem sempre com muito cuidado, os mármores (56 peças e 19 estátuas) que actualmente se encontram no British Museum e a deixar na estrutura remanescente os feios buracos que ainda hoje tanto irritam os gregos. Os denodados operários até terão serrado algumas esculturas, para facilitar o seu transporte.
Segundo alguns, o poeta inglês Lord Byron terá sido a primeira voz culta e desinteressada que denunciou o saque do Parthenon. Byron não foi, de forma alguma, o primeiro a criticar Elgin, embora tenham ficado célebres versos seus directamente apontados ao antigo embaixador britânico em Constantinopla:
“Cold as the crags upon his native coast/ His mind as barren and his heart as hard”.
Desde o início, os aristocratas londrinos, apesar do seu hábito de recolher souvenirs clássicos onde quer que fossem, tiveram a impressão que Elgin havia ido longe demais. O ataque, tão feroz que até incluiu dúvidas sobre a autoria grega das esculturas, foi liderado por Richard Payne Knight, figura destacada da Society of Dilettanti, uma espécie de grémio de ditadores do gosto artístico inglês da época.
Os mármores ficaram durante anos (mal) guardados num barracão erigido em Park Lane, onde eram visitados apenas por artistas e connoisseurs ilustres. O pintor suíço Fuseli terá mesmo saído da sua primeira visita berrando algo como “De Greeks were godes! De Greeks were godes!”
Sir Edward Dodwell, um turista britânico que visitou o local na altura, não foi meigo ao criticar a operação de “resgate” no seu livro “A Classical and Topographical Tour through Greece”:
“Everything relative to this catastrophe was conducted with an eager spirit of insensate outrage, and an ardour of insensate rapacity, in opposition not only to every feeling of taste but to every sentiment of justice and humanity.”
Mas é de notar que noutras passagens deste livro é descrita a destruição com que os turcos continuavam a massacrar a Acrópole, já depois de terminada a “exportação” dos mármores.
O resto da história correu mal a Elgin: foi preso pelos franceses, abandonado pela mulher e aldrabado pelo governo inglês, que acabou - depois de muita discussão que até meteu um comité - por adquirir os mármores por 35 mil libras, uma soma inferior ao que o ex-embaixador havia gasto.
Desde que a ex-atriz grega Melina Mercouri assumiu o Ministério da Cultura da Grécia (de 1981-9), ela tentou recuperar os chamados “Mármores de Elgin”, sem sucesso porém. Naquela época os parlamentares ingleses não se comoveram com os rogos que Melina lhes fez, alegando que a transladação dos mármores para a Grã-Bretanha fora legal. Os gregos, por seu lado, replicaram que a Grécia naquela época era uma terra ocupada - tanto é que Lord Byron morreu em 1824 numa das ilhas gregas, lutando pela liberdade da Grécia -, e que, portanto, não podiam aceitar que seu património cultural fosse vendido pelo invasor, ou por um funcionário qualquer que actuasse em nome dele.
Os ingleses continuam indisponíveis para devolver os mármores aos seus legítimos donos, como se viu pelos escassos resultados das recentes iniciativas gregas, que tinham por objectivo colocá-los na Acrópole a tempo dos Jogos Olímpicos.