Filho
de Jacques Debret, funcionário do parlamento francês
e estudioso de história natural e arte, e irmão
de François Debret (nascido em 1777), arquiteto,
membro do Instituto de França. Era parente (primo)
de Jacques-Louis David (1748-1825), líder da escola
neoclássica francesa. Estudou no Lycée Louis-le-Grand.
Foi aluno da Escola de Belas Artes de Paris, na classe
de Jacques-Louis David. Também chegaria, como seu
irmão François, ao Instituto de França.
Obteve em 1791 o segundo prêmio de Roma, com a tela
Régulus voltando a Cartago.
A
Revolução Francesa necessitava de engenheiros
que entendessem de fortificações; foram,
então, escolhidos alguns dos alunos mais brilhantes
para o curso de Engenharia. Debret foi um dos escolhidos,
tendo estudado engenharia por cinco anos. Contudo, apesar
da carreira de engenheiro, Debret voltaria à pintura.
Expôs no salon de 1798 um quadro com figuras de
tamanho natural – Le général méssénien
Aristomène delivré par une jeune fille,
com o qual ganhou um segundo prêmio. Expõe
em 1804, no salon, o quadro O médico Esístrato
descobrindo a causa da moléstia do jovem Antíoco.
Em
1805 muda a temática de suas pinturas, expondo
- novamente no salon - Napoleão presta homenagem
à coragem infeliz, que recebeu menção
honrosa do Instituto de França. Debret finalmente
encontrara-se com o que seria o tema principal de suas
obras enquanto na França: Napoleão. Expôs
no salon em 1808 o quadro Napoleão em Tilsitt condecorando
com a Legião de Honra um soldado russo. Em 1810,
um novo “tributo” à Napoleão
fora criado – Napoleão falando às
tropas; seguido por A primeira distribuição
de cruzes da Legião de Honra na Igreja dos Inválidos,
de 1812. Não por acaso, Napoleão era um
verdadeiro mecenas para artistas como Debret e David,
apoiando – inclusive financiando – a disseminação
da arte neoclássica.
A
vinda para o Brasil: a missão francesa de 1816
A
derrota de Napoleão, em 1815, foi um golpe duro
aos artistas neoclássicos, que perderam o principal
pilar que sustentava – financeira e ideologicamente
- a arte neoclássica. Isto, somado com a perda
do filho único, de apenas dezenove anos, abalara
muito Debret. No mesmo período, ele e o arquiteto
Grandjean de Montigny foram convidados à participar
da missão de artistas franceses que rumava para
a Rússia a pedido do Czar Alexandre I da Rússia.
Mas, paralelamente, se aprontava em Paris a missão
ao Brasil, por solicitação de Dom João
VI. Debret - assim como Grandjean de Montigny - escolheu
o Brasil. Embarcou no Havre a 22 de janeiro de 1816. Calpe,
o veleiro norte-americano que trazia a Missão,
aportou em território brasileiro em 26 de março
de 1816. A missão foi planejada pelo Conde da Barca,
que escrevera ao Marquês de Marialva, embaixador
de Portugal em Paris, pedindo-lhe que cuidasse da vinda
de uma missão artística, missão que,
entre outros objetivos, idealizaria e organizaria a criação
de uma Academia de Belas Artes.
Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil
Em
Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, Debret
revela sua profunda relação pessoal e emocional
com o Brasil, adquirida nos 15 anos em que viveu no país.
Em 1831 o pintor volta à França alegando
problemas de saúde. Diferente do que Debret alegara,
acredita-se em outras duas hipóteses para a sua
volta: Debret talvez queria voltar para reencontrar-se
com seus familiares, além de organizar o primeiro
volume de Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil.
Já outra hipótese sugere que, como em 1831
Debret já contava com 63 anos, e a obra seria uma
espécie de "trabalho para aposentadoria",
visto que a produção desse tipo de obra
(almanaques de viajantes - livros com textos acompanhando
imagens) fazia bastante sucesso no início do séc.
XIX - quando Debret partiu para o Brasil - e poderia render
a Debret uma boa aposentadoria (o que de qualquer forma
não foi o que acabou acontecendo: quando da volta
de Debret à França, esse tipo de publicação
já não fazia o mesmo sucesso que anteriormente,
tendo a Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil
causado pouco impacto na França).
Debret
tenta mostrar aos leitores - em especial os europeus -
um panorama que extrapolasse a simples visão de
um país exótico e interessante apenas do
ponto de vista da história natural. Mais do que
isso, ele tentou criar uma obra histórica; tentou
mostrar com minuciosos detalhes e cuidados a formação
- especialmente no sentido cultural - do povo e da nação
brasileira; procurou resgatar particularidades do país
e do povo brasileiro, na tentativa de representar e preservar
o passado do povo, não se limitando apenas a questões
políticas, mas também a religião,
cultura e costumes dos homens no Brasil. Por estas razões,
a obra de Debret é considerada atualmente como
uma grande contribuição para o Brasil, e
é freqüentemente analisada por historiadores
como uma representação (um tanto quanto
realista, apesar de não ser perfeita) do cotidiano
e sociedade do Brasil – em especial, da vida no
Rio de Janeiro – de meados do século XIX.
Publicada
em Paris, entre 1834 e 1839, sob o título Voyage
Pittoresque et Historique au Brésil, ou séjour
d´un artiste française au Brésil,
depuis 1816 jusqu´en en 1831 inclusivement, a obra
é composta de 153 pranchas, acompanhadas de textos
que elucidam cada retrato. Tal estilo de obra (textos
descritivos acompanhando as imagens) não era muito
comum entre os artistas que vinham ao Brasil para retratar
o país, o que aumenta ainda mais o destaque e importância
de Debret: a obra não é considerada tão
importante apenas por aspectos artísticos, mas
justamente pela combinação de interesse
em retratar o cotidiano, com a presença de textos
descrevendo as litografias. Preocupando-se com o sentido
dos textos, Debret os compara com as ilustrações
contidas em seus trabalhos, e é por isso que o
aspecto historiográfico é colocado em primeiro
plano em relação ao aspecto propriamente
artístico.
O
próprio título da obra de Debret apresenta
este certo compromisso que ele tentou adquirir nas representações
e descrições do Brasil. O uso da palavra
“pitoresca” no titulo Viagem Pitoresca a Histórica
ao Brasil denota uma certa precisão, habilidade
e talento; características que buscou em suas representações.
Viagem Pitoresca a Histórica ao Brasil pode ser
considerada uma obra em estilo europeu, feita para europeus,
visto que o estilo de livro (almanaque) fazia um certo
sucesso na Europa na época.
O
livro é dividido em 3 tomos: O primeiro é
de 1834, e estão representados índios, aspectos
da mata brasileira e da vegetação nativa
em geral. O segundo tomo é de 1835, e concentra-se
na representação dos escravos negros, no
pequeno trabalho urbano, nos trabalhadores e nas práticas
agrícolas da época. Já o tomo terceiro,
de 1839, trata-se de cenas do cotidiano, das manifestações
culturais, como as festas e as tradições
populares.
Neoclassicismo,
Romantismo e a obra de Debret
Apesar
de ser um artista de formação neoclássica
– seu tutor foi o mestre do neoclassicismo, Jacques-Louis
David – Debret (ao menos ao se analisar sua produção
em Viagem Pitoresca a Histórica ao Brasil), em
alguns aspectos, pode ser considerado um artista de transição
entre o neoclassicismo e o romantismo.
As
representações dos índios –
totalmente idealizados; fortes, com traços bem
definidos e em cenas heróicas – são
aspectos claros do neoclassicismo. Contudo, ao se analisar
os textos que acompanham as imagens, são notados
aspectos não neoclássicos, mas românticos.
O romantismo tem como características a oposição
ao racionalismo e ao rigor neoclássico. Caracteriza-se
por defender a liberdade de criação e privilegiar
a emoção. As obras românticas valorizam
o individualismo, o sofrimento amoroso, a religiosidade
cristã, a natureza, os temas nacionais e o passado.
Além disso, uma característica essencial
do romantismo – que o diferencia do neoclassicismo
-, característica esta, notada nos textos de Debret,
é a relação que o artista estabelece
com as cenas que representa: o neoclássico é
apenas um espelho do que observa, tentando fazer uma representação
exata, daquilo que vê. já o romântico,
tenta "jogar uma luz" no que observa –
o romântico faz uma interpretação
daquilo que observa, e é justamente isto que Debret
faz nos textos que acompanham as aquarelas: interpretações.
Nas aquarelas, Debret era o “espelho” do que
observava: este é o Debret com princípios
neoclássicos. Nos textos, ele jogava uma luz e
interpretava o que via: este é o Debret com princípios
românticos.
Debret,
Diderot e o Iluminismo
Na
obra Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, pode
ser observada uma forte influência do iluminismo
francês, principalmente da Enciclopédia de
Denis Diderot, pois Debret não se prende apenas
à representação de batalhas, cenas
importantes e feitos grandiosos do país. Debret,
como já dito anteriormente, representa cenas e
características do cotidiano e da sociedade brasileira,
como casas, ocas de índios, rostos de pessoas (para
tentar mostrar as características do povo brasileiro).
Ele procura representar o caráter do povo; seus
costumes, festas populares (e da corte), relações
de trabalho e utensílios e ferramentas utilizadas
pelo povo. Essa proposta de certa forma enciclopédica,
de conseguir acumular em livros o máximo de informação
e conhecimento acerca de determinado assunto, faz parte
dos ideais de diversos iluministas da França do
final do século XVIII e início do século
XIX – entre eles, o caso mais famoso talvez seja
o de Diderot e sua Enciclopédia (l'Encyclopédie,
no original), obra que com certeza inspirou Debret acerca
de suas representações do Brasil em Viagem
Pitoresca e Histórica ao Brasil.
Debret:
plagiador?
No
tomo I de Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil,
dentre as inúmeras representações
de indígenas. Algumas chamam a atenção:
eles são representados com pintura corporais muito
semelhantes (para não dizer idênticas) às
de uma imagem de índios de uma tribo de índios
norte-americanos, presente em uma publicação
sob o título de Voyages and travels en various
parts of the world: during the years 1803, 1804, 1805,
1806, and 1807, feita décadas antes de Viagem Pitoresca
e Histórica ao Brasil, pelo naturalista da antiga
Prússia, Georg Heinrich von Langsdorff.
A
semelhança da pintura de Debret, intitulada Dança
de Selvagens da Missão de São José,
com a de Langsdorff, intitulada Uma Dança Indígena
na Missão de São José em Nova Califórnia
é tal que chega a levantar a dúvida entre
alguns historiadores: Debret realmente viajou pelo Brasil,
como é comumente afirmado, ou teria permanecido
apenas nas imediações da cidade de Rio de
Janeiro? alguns pesquisadores afirmam que tal hipótese
seria verdadeira, e as representações de
índios feitas por Debret – como supostamente
a citada neste caso comparado com Langsdorff – seriam
cópias de representações de outros
europeus que participaram de expedições
naturalistas. Para reforçar ainda mais esta hipótese,
deve-se levar em consideração que muitos
utensílios e ferramentas representadas por Debret,
já se encontravam em museus de História
Natural da época; locais que ele poderia ter visitado
sem problema algum.