Márcia
XEstudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque
Lage, Rio de Janeiro, no início dos anos 1980,
tendo adotado o "X" ao seu nome após
o desentendimento com a estilista carioca Márcia
Pinheiro, já que a artista havia desfilado com
"não roupas", uma capa preta e uma outra
transparente e sem nada por baixo. Seu companheiro de
geração, Ricardo Basbaum resume o acontecimento:
A
partícula-X foi adicionada ao nome de Márcia
Pinheiro em conseqüência da performance Cellofane
Motel Suite, apresentada em parceria com o polipoeta Alex
Hamburger na Feira Internacional do Livro do Rio de Janeiro,
naquele momento (1985) montada no Shoppping Fashion Mall,
no bairro de São Conrado. Márcia vestia
e demonstrava uma dupla camada de Não-Roupas, construídas
a partir de sacos plásticos: uma não-roupa
preta, sobre uma não-roupa transparente. Enquanto
lia um poema (de sua autoria), Alex (vestido como homem-sanduíche)
ia cortando a primeira camada de não-roupa (preta),
revelando aos poucos a segunda camada (transparente):
uma não-roupa que cobria mas não ocultava
o corpo de Márcia, visível sob o plástico,
em sua nudez performática. A presença de
tal performance não autorizada num templo comercial
da literatura (por mais culta que fosse a postura ultra-informada
da dupla performática de vanguarda, ali não
haveria espaço para eles) acabou por despertar
a fúria do serviço de segurança do
evento, culminando com um revólver apontado para
a artista quase nua e seu partner, o poeta experimental;
no dia seguinte, o acontecimento foi registrado nas páginas
dos jornais, como mais uma daquelas efemérides
exóticas que divertem leitores cansados. Acontece
que a estilista homônima Márcia Pinheiro
não gostou de ver um nome como o seu envolvido
em fato tão escandaloso e tratou de enviar nota
às colunas sociais, em que dizia: "Enquanto
eu visto as pessoas, esta outra [notem o tom de desprezo
blasé com que a socialite refere-se à artista
avançada, afinada com seu tempo] tira a roupa".
Claro: para evitar ter sua imagem associada à da
famosa estilista, Márcia então realiza a
operação de anexar um “x” ao
nome, acoplando-se definitivamente à partícula
indicadora de movimentação contínua,
sempre atenta a alguma coisa não feita, a mais
uma coisa para se fazer. (artigo retirado da revista Concinittas,
do Instituto de Artes da Universidade Estadual do Rio
de Janeiro (UERJ)
Utilizando objetos eróticos, brinquedos infantis
e objetos religiosos, suas performances e instalações
são marcadas pela relação sexo/infância,
em que objetos pornográficos são transformados
em brinquedos infantis e estes em objetos eróticos.
O movimento em suas peças evidencia a percepção
do objeto como um corpo vivo. Sua perspectiva é
subjetiva, o que confere a sua obra um caráter
quase autobiográfico.
Márcia X destacou-se nos últimos 20 anos
como uma grande batalhadora pela arte contemporânea
experimental no país, utilizando-se com freqüência
da performance como meio de expressão.
Em abril de 2006, sua obra "Desenhando com terços"
(apresentada pela primeira vez em 2000) foi retirada da
exposição "Erótica - Os sentidos
da arte", promovida pelo Centro Cultural Banco do
Brasil, após denúncia de um empresário,
por entender que a obra ofende o catolicismo. O grupo
Opus Christi pressiona o Banco para que mantenha a exclusão
da obra, que foi selecionada por Tadeu Chiarelli, do próximo
destino da exposição em Brasília.
O próprio Ministro da Cultura, Gilberto Gil, condenou
o ato de censura. Finalmente, a direção
do Banco decidiu que a exposição não
seguiria para Brasília por apresentar ameaças
à marca e aos negócios.