Ligado
ao neoclassicismo brasileiro, ocorrido na segunda metade
do século XIX, Victor Meirelles ganhou notoriedade
a partir da década de 1870, ao lado de Pedro Américo
e Almeida Júnior.
Primeiros momentos
A
vocação de Victor Meirelles para o desenho
e pintura foi estimulada pelo engenheiro argentino Marciano
Moreno, na época exilado político no Brasil.
Aos 14 anos, produziu seu primeiro trabalho conhecido,
uma paisagem da Ilha de Santa Catarina. Procurado por
Jerônimo Coelho, Conselheiro do Império,
Victor Meirelles produziu uma aquarela retratando sua
cidade. Levada para o Rio de Janeiro, a obra entusiasmou
o diretor da Academia Imperial de Belas Artes, Félix
Taunay. Ficava clara sua habilidade para valorizar os
detalhes triviais de uma cidade, fato que seria confirmado
décadas mais tarde. A Academia resolveu custear
os estudos do jovem artista, que seguiu para o Rio de
Janeiro em 1847, antes de completar 15 anos de idade,
onde permaneceu até 1852. Foram dois anos estudando
desenho e três anos voltados à pintura histórica.
Em 1852, venceu o Prêmio de Viagem à Europa,
com a pintura São João Batista no Cárcere.
Estudos
na Europa
Aos
21 anos incompletos, Victor Meirelles desembarcou em Havre,
em junho de 1853. Passou brevemente por Paris e o maior
tempo de sua estada em Roma e Florença. Em Roma,
estudou com Tommaso Minardi e Nicolau Cansonni, da Acamia
São Lucas, destacando-se como paisagista e retratista.
Por sua dedicação e prestação
de contas à Academia Imperial, teve seu estágio
na Europa renovado por três vezes. Em 1856, seguiu
para Milão e posteriormente para Paris, onde permaneceu
até 1860. Neste período, aperfeiçoou
sua pintura com Leon Gogniet e Paul Delaroche, da École
des Beaux Arts, onde absorveu os traços romântico-acadêmicos
de sua fase histórica. Trocou correspondências
com Manuel de Araújo Porto-Alegre, diretor da Academia
Imperial e seu mentor intelectual. Foi dele a sugestão
para a sua primeira grande pintura, Primeira Missa no
Brasil, obra que lhe tomou dois anos de trabalho.
Primeira Missa no Brasil
Em 1861, a Primeira Missa no Brasil foi aceita com referências
pelo júri do Salão de Paris, fato inédito
para um artista brasileiro até então. A
riqueza de detalhes da pintura de grandes dimensões,
representando múltiplas expressões e situações,
eternizaram a versão histórica oficial do
Descobrimento do Brasil como um ato heróico e pacífico,
celebrado em ecumenismo por colonizadores e indígenas.
Se, por um lado, a pintura lhe rendeu homenagens, também
originou as primeiras críticas, justamente pelo
que seria "um excesso de imaginação".
Esta
obra ilustrou muitos livros de estudos de história
do ensino fundamental no Brasil na década de 1960.
Retorno
ao Brasil
Aos
29 anos, Victor Meirelles retornou ao Brasil e foi condecorado,
por D. Pedro II, com o Grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo
e Imperial Ordem da Rosa. Após passar alguns meses
com sua mãe (seu pai falecera em 1854), em Desterro,
retornou ao Rio de Janeiro, sendo nomeado Professor Honorário
da Academia Imperial. No ano seguinte, assume a cátedra
de Pintura Histórica. Em 1868, recebe a encomenda
para pintar dois quadros históricos, Combate Naval
do Riachuelo e Passagem de Humaitá, episódios
ligados à Guerra do Paraguai. Para isso, passa
vários meses embarcado em navios da guerra, preparando
estudos e esboços para as pinturas que faria no
Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, em 1875, produz inúmeras
pinturas por encomenda da família imperial brasileira,
dentre elas o Casamento da Princesa Isabel e os retratos
de Dom Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina.
Victor
Meirelles e Pedro Américo
A Batalha de Guararapes, com seus quase 45 metros quadrados,
foi exposta em 1879, na Academia Imperial, ao lado da
Batalha do Avaí, de Pedro Américo, outro
reconhecido artista de temas históricos. A exposição
originou uma das mais acirradas polêmicas da história
da arte brasileira. Enquanto uns reconheciam as habilidades
dos pintores, outros os acusavam de plágio, apontando
inúmeros detalhes que "justificavam suas críticas".
A polêmica foi tão marcante que, em poucos
meses, tomou os jornais e revistas.
Panoramas
Em 1885, Victor Meirelles iniciou a execução
do Panorama do Rio de Janeiro, uma vista circular tomada
a partir do morro do Santo Antônio. Para isso, contou
com a ajuda do belga Henri Langerock. Em 1888, a pintura
foi exposta em Bruxelas, fazendo uso de um cilindro giratório
que permitia aos espectadores contemplar as vistas em
360 graus. Em 1889, a obra foi exposta na Exposição
Universal de Paris e, posteriormente, no Rio de Janeiro.
No Brasil, Victor Meirelles produziu outras pinturas nessa
linha, como o Panorama da Entrada da Esquadra Legal -
Revolta da Armada e o Panorama do Descobrimento do Brasil.
Esquecimento
e morte
Em
1889, com a Proclamação da República,
veio a perseguição política aos artistas
oficiais da Monarquia e a demissão precoce da Escola
Nacional de Belas Artes, que substituiu a Academia Imperial.
Victor Meirelles, aos 57 anos, foi afastado com o pretexto
de já possuir idade avançada. Em 1893, o
artista tentou fundar sua própria escola, não
obtendo sucesso. Sem recursos, o artista instalou o Panorama
do Rio de Janeiro num barraco, onde cobrava um mil réis
por visitante. Parte desses recursos foi usada para sua
sobrevivência e a outra parte foi revertida, por
decisão do próprio artista, para a Santa
Casa de Misericórdia. O júbilo e o reconhecimento
do artista se transformaram em miséria. Muitas
obras se perderam por ignorância das autoridades
da época, que não souberam distinguir a
ideologia política da arte em sua essência.
O artista finalmente desiste de produzir e segue sua vida
doente e abandonado. Na manhã de um domingo de
carnaval, em 22 de fevereiro de 1903, Victor Meirelles
não resiste e morre, aos 70 anos, na casa simples
onde vivia. Nada mudaria a animação dos
foliões na capital da República, nem mesmo
a morte de um dos maiores pintores da história
brasileira.