HOMERO

Homero foi o primeiro grande poeta grego que teria vivido há cerca de 3500 anos, consagrou o género épico com as suas grandiosas obras: A Ilíada e a Odisséia. Nada se sabe seguramente da sua existência; mas a crítica moderna inclina-se a crer que ele terá vivido no século VIII a.C., embora sem poder indicar onde nasceu nem confirmar a sua pobreza, cegueira e afã de viajante, caracteres que tradicionalmente lhe têm sido atribuídos. A opinião predominante ao longo dos séculos afirma a unidade das duas obras épicas, embora admita que talvez tenham sido elaboradas através de um fundo original primitivo. No século XVIII foi levantada pela primeira vez pelos eruditos a questão homérica, contrapondo à opinião tradicional a negação da existência de Homero e a afirmação de que as duas epopéias não passam de conglomerados de composições anteriores. A questão ainda não se pode considerar totalmente resolvida.

Questão Homérica

A pessoa de Homero está para sempre imersa nas trevas impenetráveis da lenda. Ignoramos quando viveu; não sabemos que terra privilegiada lhe ouviu os primeiros vagidos (…) Venerandas tradições representavam-no como um velho cantor, pobre e cego que, peregrinando de terra em terra, recompensava a quem o agasalhava com a declamação de seus poemas”. (Augusto Magne)

As considerações em epígrafe, do filólogo e lingüista Augusto Magne (França 1877 - Brasil 1966 ), condensam o que há de brando e de consenso a respeito do vate. Entretanto, desde a Antiguidade, principalmente a partir dos Gramáticos Alexandrinos, período em que provavelmente os textos homéricos ganharam a forma na qual os conhecemos até hoje, várias teses se têm formulado e defendido, discutindo desde a abrangência da obra de Homero, até a existência mesma do poeta.

Entre os Gramáticos Alexandrinos, Zenão e Helânico consideravam improvável a Ilíada e a Odisséia haverem sido compostas por um único autor, já que a Odisséia lhes parecia um ou dois séculos posterior à Ilíada. Foram então alcunhados Kho-rizontes – separatistas, por insularem a Ilíada e a Odisséia.

Aristarco, contemporâneo de Zenão e Helânico, não acreditava nesta separação, mas supunha que aos poemas iniciais fora acrescido outros poemas independentes. No caso da Ilíada estariam entre os possíveis acréscimos: o duelo entre Menelau e Páris, a gesta de Diomedes, o duelo de Heitor e Ajax, a embaixada a Aquiles, o relato da ira de Meleagro, a descrição da confecção do escudo de Aquiles etc. sendo que estes poemas autônomos teriam sido concatenados a uma Ilíada original, Proto-Ilíada, esta atribuída a Homero.

A nova teoria, dos acréscimos posteriores, teve amplo respaldo. Tinham-se basicamente três teorias: a primeira que Homero era autor dos dois poemas, a segunda que só da Ilíada, a terceira que dos dois poemas, mas em dimensões menores. Unanimidade nunca houve sobre o assunto, nem entre os alexandrinos tampouco entre aqueles que o sucederam. Com doutos estudos filológicos e não menos fábulas, sentenciaram-se veredictos pela Antiguidade. Provavelmente, na Idade Média e no Renascimento também, mas esse processo é, quase sempre, circular e infrutuoso.

No século XVIII surgem três importantes publicações: uma de François H. d’Aubignac25, outra de Gian Battista Vico30 e outra de Friedrich August Wolf35. Todas, aliando razões históricas, filológicas ou estéticas; idênticas ou não, trazem uma tese nova e controvertida: Homero jamais teria existido, seria seu nome somente uma alegoria. Traziam como outra hipótese, que Homero houvesse sido apenas um compilador das rapsódias tomadas aos aedos e até mesmo ao próprio povo do período heróico grego. Estes últimos argumentos foram gratíssimos aos românticos; já que consideravam que uma verdadeira epopéia deveria emergir espontaneamente de um povo. Talvez por esse motivo obtiveram respaldo tão amplo.

Durante o século XIX e primeira metade do XX, afervorou-se a discussão. Foi quando se publicaram desde compêndios a volumosas edições com teses para tratar da questão. Intelectuais digladiavam-se formando dois grupos opostos: um defendia a autoria única, outro a compilação.

Recentemente têm-se arrefecido a discussão, voltando lumes apenas às questões lingüísticas. Mesmo porque em antiguidade tão remota pouca certeza há. Conjecturas muitas.

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