Questão
Homérica
A pessoa de Homero está para sempre imersa nas
trevas impenetráveis da lenda. Ignoramos quando
viveu; não sabemos que terra privilegiada lhe ouviu
os primeiros vagidos (...) Venerandas tradições
representavam-no como um velho cantor, pobre e cego que,
peregrinando de terra em terra, recompensava a quem o
agasalhava com a declamação de seus poemas”.
(Augusto Magne)
As
considerações em epígrafe, do filólogo
e lingüista Augusto Magne (França 1877 - Brasil
1966 ), condensam o que há de brando e de consenso
a respeito do vate. Entretanto, desde a Antiguidade, principalmente
a partir dos Gramáticos Alexandrinos, período
em que provavelmente os textos homéricos ganharam
a forma na qual os conhecemos até hoje, várias
teses se têm formulado e defendido, discutindo desde
a abrangência da obra de Homero, até a existência
mesma do poeta.
Entre
os Gramáticos Alexandrinos, Zenão e Helânico
consideravam improvável a Ilíada e a Odisséia
haverem sido compostas por um único autor, já
que a Odisséia lhes parecia um ou dois séculos
posterior à Ilíada. Foram então alcunhados
Kho-rizontes – separatistas, por insularem a Ilíada
e a Odisséia.
Aristarco,
contemporâneo de Zenão e Helânico,
não acreditava nesta separação, mas
supunha que aos poemas iniciais fora acrescido outros
poemas independentes. No caso da Ilíada estariam
entre os possíveis acréscimos: o duelo entre
Menelau e Páris, a gesta de Diomedes, o duelo de
Heitor e Ajax, a embaixada a Aquiles, o relato da ira
de Meleagro, a descrição da confecção
do escudo de Aquiles etc. sendo que estes poemas autônomos
teriam sido concatenados a uma Ilíada original,
Proto-Ilíada, esta atribuída a Homero.
A
nova teoria, dos acréscimos posteriores, teve amplo
respaldo. Tinham-se basicamente três teorias: a
primeira que Homero era autor dos dois poemas, a segunda
que só da Ilíada, a terceira que dos dois
poemas, mas em dimensões menores. Unanimidade nunca
houve sobre o assunto, nem entre os alexandrinos tampouco
entre aqueles que o sucederam. Com doutos estudos filológicos
e não menos fábulas, sentenciaram-se veredictos
pela Antiguidade. Provavelmente, na Idade Média
e no Renascimento também, mas esse processo é,
quase sempre, circular e infrutuoso.
No
século XVIII surgem três importantes publicações:
uma de François H. d'Aubignac25, outra de Gian
Battista Vico30 e outra de Friedrich August Wolf35. Todas,
aliando razões históricas, filológicas
ou estéticas; idênticas ou não, trazem
uma tese nova e controvertida: Homero jamais teria existido,
seria seu nome somente uma alegoria. Traziam como outra
hipótese, que Homero houvesse sido apenas um compilador
das rapsódias tomadas aos aedos e até mesmo
ao próprio povo do período heróico
grego. Estes últimos argumentos foram gratíssimos
aos românticos; já que consideravam que uma
verdadeira epopéia deveria emergir espontaneamente
de um povo. Talvez por esse motivo obtiveram respaldo
tão amplo.
Durante
o século XIX e primeira metade do XX, afervorou-se
a discussão. Foi quando se publicaram desde compêndios
a volumosas edições com teses para tratar
da questão. Intelectuais digladiavam-se formando
dois grupos opostos: um defendia a autoria única,
outro a compilação.
Recentemente
têm-se arrefecido a discussão, voltando lumes
apenas às questões lingüísticas.
Mesmo porque em antiguidade tão remota pouca certeza
há. Conjecturas muitas.