Burgúndios
("os Montanheses"), são um antigo povo
de origem escandinava. No Baixo Império Romano, instalaram-se
na Gália e na Germânia na qualidade de federados.
Tendo procurado se estender na Bélgica, foram abatidos
por Aécio em 436 e transferidos para Savóia.
De lá, eles se espalharam nas bacias do Saône
e do Ródano. Foram submetidos pelos francos em 532
e seu território foi reunido à Nêustria.
Deram seu nome à Borgonha.
Origens tribais
A
tradição burgúndia da origem escandinava
encontra suporte na evidência dos topônimos
e na arqueologia (Stjerna) e muitos consideram essa tradição
como correta. Possivelmente por que a Escandinávia
estava além do horizonte das antigas fontes romanas,
incluindo Tácito (que menciona apenas uma das tribos
escandinavas, os suiones), els não sabiam de onde
os burgúndios vinham, e as primeiras referências
romanas os localiza a leste do Reno (inter alia, Ammiano
Marcellino, XVIII, 2, 15). Fontes romanas antigas indicam
que eles eram simplesmente outra tribo germânica oriental.
Aproximadamente
em 300, a população de Bornholm (a ilha dos
burgúndios]] desapareceu abundantemente da ilha.
Muitos cemitérios pararam de ser usados, e naqueles
que ainda eram usados havia poucos sepultamentos (Stjerna,
in Nerman 1925:176).
No
ano de 369, o imperador Valentiniano I alistou para ajudá-lo
na sua guerra contra as tribos germânicas, os alamanos
(Ammianus, XXVIII, 5, 8-15). Nessa época, os burgúndios
possivelmente vivendo da bacia do Vístula, de acordo
com o historiador dos godos da metade do século VI,
Jordanes. Algum tempo após a guerra contra os alamanos,
os burgúndios foram derrotados em batalha por Fastida,
rei dos gépidos, sendo subjugados, quase aniquilados.
Aproximadamente
quatro décadas depois, os burgúndios reapareceram.
Seguindo a retirada das tropas do general romano Stilicho
para atacar Alarico I o visigodo em 406-408, as tribos do
norte cruzaram o Reno e entraram no Império Romano
na Völkerwanderung, ou migrações germânicas.
Entre elas estavam os alanos, vândalos, suevos e possivelemnte
os burgúndios. Os burgúndios migraram para
oeste e se estabeleceram no vale do Reno.
HAvia,
ao que parece naquela época um relacionamento amigável
entre os hunos e os burgúndios. Era um costume huno
entre as mulheres ter seu crânio alongado artificialmente
por um amarrador apertado na cabeça quando a criança
ainda era um bebê. Túmulos germânicos
são às vezes encontrados com ornamentos hunos
e também com crânios de mulheres alongados;
a oeste do Reno apenas sepulturas burgúndias contém
um grande número desses crânios (Werner, 1953).
Religião
Em
algum lugar no leste europeu os burgúndios se converteram
ao arianismo, o que passou a ser uma fonte de suspeita e
desconfiança entre os burgúndios e o Império
Romano Ocidental católico. As discórdias eram
acalmadas por volta de 500, porém, Gundobad, um dos
últimos reis burgúndios, manteve uma amizade
pessoal próxima com Ávito, o bispo católico
de Viena. Além disso, o filho e sucessor de Gundobad,
Sigismundo, era católico, e há evidências
que muitos dos burgúndios tenham se convertido na
mesma época, incluindo várias mulheres membros
da família governante.
Antiga
relação com os romanos
Inicialmente,
os burgúndios parecem ter tido um relacionamento
tempestuoso com os romanos. Eles eram usados pelo império
para se defender de outras tribos, mas também penetravam
nas regiões fronteiriças e expandiam sua influência
quando possível.
Os
reinos burgúndios
O
primeiro reino
Em
411, o rei burgúndio Gundahar (ou Gunther ou Gundicar)
instalou um imperador fantoche no Império Romano,
Jovino, em cooperação com Goar, rei dos alanos.
Com a autoridade do imperador gaulês que ele controlava,
Gundahar se estabeleceu na margem (romana) esquerda do Reno,
entre os rios Lauter e Nahe, apoderando-se de Worms, Speier
e Estrasburgo. Aparentemente como parte de uma trégua,
o imperador Honório mais tarde concedeu a eles as
terras. (Prosper, a. 386)
Apesar
do seu novo estatus de foederati, as incursões burgúndias
na Gallia Belgica se tornaram intoleráveis e foram
brutalmente encerradas em 436, quando o general romano Aécio
convocou mercenários hunos que subjugaram o reino
do Reno (que tinha sua capital no antigo assentamento celta
romano de Borbetomagus/Worms) em 437. Gundahar foi morto
em combate, de acordo com o que foi relatado pela maioria
das tribos burgúndias. (Prosper; Chronica Gallica
452; Hydatius; Sidônio Apolinário)
A
destruição de Worms e do reino burgúndio
pelos hunos se tornou o assunto de lendas heróicas
que foram mais tarde incorporadas no Nibelungenlied.
O
segundo reino
Por
razões não citadas nas fontes, aos burgúndios
foi concedido o status de foederati uma segunda vez, e em
443 eles foram reassentados por Aécio na região
de Sapaudia (Chronica Gaellica 452). Apesar de a Sapaudia
não corresponder a qualquer região atual,
os burgúndios provavelmente viveram próximos
a Lugdenensis, a atual Lyon (Wood 1994, Gregory II, 9).
Um novo rei, Gundioc ou Gunderico, presumivelmente um filho
de Gundahar, parece ter reinado a partir da morte de seu
pai (Drew, p. 1). Ao todo, oito reis burgúndios da
casa de Gundahar governaram até o reino ser invadido
pelos francos em 534.
Como
aliados de Roma nas suas últimas décadas,
os burgúndios lutaram ao lado de Aécio e de
uma confederação de visigodos e outras tribos
na derrota final de Átila na Batalha de Chalons em
451. A aliança entre os burgúndios e os visigodos
parece ter sido forte, com Gundioc e seu irmão Chilperic
I acompanhando Teodorico II à península Ibérica
para atacar os suevos em 455. (Jordanes, Getica, 231)
Aspirações
ao império
Também
em 455, uma referência ambígua infidoque tibi
Burdundio ductu (Sidônio Apolinário in Panegyr.
Avit. 442) envolve um desconhecido líder traidor
burgúndio no assassinato do imperador Petrônio
Máximo no caos que precedeu o saque de Roma pelos
vândalos. O aristocrata Ricimer também foi
acusado; esse evento marca o primeiro indício de
ligação entre os burgúndios e Ricimer,
que era provavelmente cunhado de Gundioc e tio de Gundobad.
(John Malalas, 374)
Os
burgúndios, aparentemente confiantes no seu poder
crescente, negociaram em 456 uma expansão territorial
e um arranjo de divisão de forças com os senadores
romanos locais. (MArius of Avenches)
Em
457, Ricimer causou auqeda de outro imperador, Ávito,
conduzindo Majoriano ao trono. O novo imperador mostrou
ser imprestável para Ricimer e para os burgúndios.
Um ano após a sua ascensão, Majoriano expulsou
os burgúndios das terras que eles haviam adquirido
dois anos antes. Após mostrar leves sinais de independência,
ele foi assassinado por Ricimer em 461.
Dez
anos depois, em 472, Ricimer - que agora era genro do imperador
romano ocidental Antêmio - estava conspirando com
Gundobad para matar seu sogro; Gundobad decapitou o imperador
(aparentemente pessoalmente) (Chronica Gallica 511; João
de Antióquia, fr. 209; Jordanes, Getica, 239). Ricimer
então indicou [[Anício Olíbrio|Olíbrio);
ambos morreram, surpreendentemente de causas naturais, em
poucos meses. Gundobad parece então ter sucedido
seu tio como aristocrata e fazedor de reis, e elevou Glicério
ao trono. (Marius de Avenches; João de Antióquia,
fr. 209)
Em
474, a influência burgúndia sobre o império
parece ter terminado. Glicério foi deposto em favor
de Júlio Nepos, e Gundobad retornoua à Borgonha,
presumivelmente na morte de seu pai Gundioc. Nessa época
ou um pouco depois, o reino burgúndio foi dividido
entre Gundobad e seus irmãos, Godigisel, Chilperic
II e Gundomar I. (Gregório, II, 28)
Consolidação
do reino
De
acordo com Gregório de Tours, os anos seguintes ao
retorno de Gundobad à Borgonha viram uma sangrenta
consolidação de poder. Gregório declara
que Gundobad assassinou seu irmão Chilperic, afogou
sua esposa e exilou suas filhas (uma das quais se tornou
a esposa de Clóvis I o franco, e foi responsável
pelo que dizem pela sua conversão) (Gregory, II,
28). Isso é contestado, por exemplo por Bury, que
aponta problemas na cronologia de Gregório para os
eventos.
Por
volta de 500, Gundobad e Clóvis I entraram em guerra,
e Gundobad parece ter sido traído por seu irmão
Godegisel, que se uniu aos francos; juntas as forças
de Godegisel e Clóvis I "esmagaram o exército
de Gundobad" (Marius a. 500; Gregory, II, 32). Gundobad
esteve temporariamente escondido em Avignon, mas foi capaz
de reagrupar seu exército e saquear Viena, onde Godigisel
e muitos de seus seguidores foram executados. A partir daí,
Gundobad parece ter sido o único rei da Borgonha.
Isso implicaria que seu irmão Gundomar já
estava morto, apesar de não haver nenhuma menção
a isso nas fontes da época.
Ou
Gundobad e Clóvis I se reconciliaram e esqueceram
suas diferenças, ou Gundobad foi forçado a
algum tipo de vassalagem após a vitória anterior
de Clóvis I, com o rei burgúndio ajudando
os francos em 507 na vitória contra Alarico II, rei
dos visigodos.
Durante
a revolta, em algum momento entre 483 e 501, Gundobad começou
a apresentar a Lex Gundobada, lançando aproximadamente
a primeira metade dela, que foi extraída da Lex Visigothorum.
Após consolidar o poder, entre 501 e sua morte em
516, Gundobad apresentou a segunda metade de suas leis,
que eram originalmente burgúndias.
Queda
do segundo reino
Os
burgúndios havia estendido seu poder sobre todo o
sudeste da Gália, ou seja, o norte da Itália,
o oeste da Suiça, e o sudeste da França. Em
493, Clóvis I, rei dos francos, casou-se com a princesa
burgúndia Clotilda, filha de Chilperic.
Após
iniciamente se aliar a Clóvis I contra os visigodos
no começo do século VI, os burgúndios
foram finalmente conquistados pelos francos em 534. O reino
burgúndio passou a fazer parte dos reinos merovíngios,
e os burgúndios foram amplamente absorvidos por eles.
As
leis burgúndias
Os
burgíndios deixaram três códigos legais,
que estão entre os mais antigos das tribos germânicas.
O
Liber Consitutionum sive Lex Gundobada (O Livro da Constituição
Segundo a Lei de Gundobad), também conhecida como
Lex Burgundionum, ou mais simplesmente Lex Gundobada ou
ainda Liber, foi lançado em várias partes
entre 483 e 516, principalmente por Gundobad, mas também
por seu filho, Sigismund. Era um registro das elis costumeiras
e típicas de muitos códigos de leis germânicos
desse período. Particularmente, o Liber copiou o
Lex Visigothorum e influenciou o posterior Lex Ribuaria.
O Liber é uma das fontes primárias da vida
burgúndia daquela época, e também da
história de seus reis.
Como
muitas das tribos germânicas, as tradições
legais burgúndias permitiam a aplicação
de leis distintas para etnias diferentes. Dessa forma, em
adição à Lex Gundobada, Gundobad também
lançou (ou codificou) um conjunto de leis para os
assuntos romanos do reino burgúndio, a Lex Romana
Burgundionum (A Lei Romana dos Burgúndios).
Somando-se
aos dois códigos acima, o filho de Gundobad, Sigismund,
publicou depois o Prima Constitutio.
Origem
do nome
O
nome dos burgúndios era antes ligado à região
da moderna França que ainda mantém seu nome.
Entre os séculos VI e XX, contudo, as fronteiras
e as conexões políticas da região mudaram
com freqüência; nenhuma dessas mudanças
teve algo a ver com os burgúndios originais. O nome
burgúndios refere-se aos habitantes do território
da Borgonha. Os descendentes dos burgúndios hoje
são encontrados inicialmente entre os fraco-falantes
da Suiça e nas regiões fronteiriças
da França.