O
clero era, na Idade Média, todo
o extracto social associado ao culto religioso, nomeadamente
o cristão.
Porém,
já na sociedade visigótica tinha o clero desempenhado
um papel de relevância. O seu prestígio manteve-se
junto das populações cristãs peninsulares,
durante a dominação muçulmana, e fortalecer-se-ia
no período da Reconquista cristã, tornando-se
o principal patrocinador deste movimento.
Às
razões que constituem os fundamentos da Cristandade
acrescem as da peculiaridade ibérica, onde as lutas
contra os infiéis inflamavam a fé cristã,
determinando o zelo das crenças profundas. E não
apenas pela missão religiosa, como pela cultura das
letras, a que muitos dos seus membros se dedicavam, o clero
exerceu preponderância social e política, desempenhando
os eclesiásticos cargos importantes junto dos reis.
Até
meados do século XIV, o clero, manteve essa situação
de privilégio, devendo-se ao aparecimento dos legistas
a concorrência que veio a sofrer nessa época.
Ao clero coube, também, o desempenho de um significativo
papel, quer no povoamento, quer no arroteamento de terrenos
de cultura, e desenvolvimento das instituições
de beneficiência e caridade. Também a instrução
e artes ficaram a dever muito à Igreja desta época.
Face
a esta situação de privilégio, teve
o clero muitos conflitos com a realeza.
Em
Portugal
Além
do clero secular, distribuído em Portugal pelas dioceses
de Braga, Porto, Lamego, Viseu, Coimbra, Lisboa e Évora
e, posteriormente, alargado à Guarda e Silves, as
ordens monásticas e as ordens militares contribuíram
também para a apreciável obra da Igreja nos
tempos da primeira dinastia de Portugal.
Os
conventos mais importantes foram, desde o século
XII, o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (dos Cónegos
Regrantes de Santo Agostinho) e o de Alcobaça (dos
Cistercienses).
Também
o mosteiro do Lorvão, fundado no século VI,
seria, no século XII, onde o ofício das letras
mereceria aos frades beneditinos um grande empenho, bem
patente nos códices que se guardam no Arquivo da
Torre do Tombo: — o Livro das Aves, de 1183, e o Apocalipse
do Lorvão, de 1189.
Quanto
às ordens militares, parece ter sido a dos Templários
a mais antiga (século XII), embora outras se tenha
também estabelecido em Portugal, como a dos Hospitalários,
a de Santiago da Espada e a de Calatrava.
Desta
última, nasceu a Ordem de Avis, que tão relevantes
serviços iria a prestar ao país.
Entretanto,
como à volta dos castelos se instalavam agricultores,
confiados na protecção dos cavaleiros das
ordens, estes viriam aumentar os seus rendimentos. Assim,
o clero secular, aliado às ordens monásticas
e religiosas, dispunha de valiosos bens.
Quer
os monarcas, quer os nobres faziam doações
de terras a estas instituições religiosas.
Os soberanos levavam a sua generosidadde ao ponto de reunciarem
aos direitos reais (coutos) sobre as terras que doavam aos
mosteiros e igrejas.
Isentos
de encargos fiscais, os bens de raiz adquiridos pela Igreja
prejudicavam, assim, o erário régio, o que
fará com que sejam decretadas «leis contra
a amortização» tendentes a evitar um
crescimento desses bens. Quando o testamento, que já
existira no Império Romano, foi introduzido na Idade
Média, cedo se revestirá da forma de legado
pio. Assim, feito a favor da Igreja, permitirá a
dilatação da propriedade eclesiástica,
mercê da aquisição dos chamados bens
de mão-de-obra, em que converterá grande parte
do território nacional que, deste modo, ficava sujeito
à autoridade dos prelados, mosteiros e mestres das
ordens militares ou bispos. Desde as «leis de desamortização»,
promulgadas por D. Afonso II (121-1223) até à
lei de D. Dinis, de 1286, que estabelecia o prazo de um
ano para que fossem vendidas a particulares as propriedades
adquiridas pelas ordens religiosas após a subida
deste monarca ao trono de Portugal, é percorrido
um longo caminho que, afinal, irá revelando um engraquecimento
progressivo do poder do clero, sobretudo a partir do século
XIV.