Segundo
a historiografia húngara, a história
da Hungria estende-se desde a travessia
dos Cárpatos pelas tribos magiares até o
tempo presente, com um capítulo prévio que
procura explicar as origens tribais nas planícies
da Eurásia.
Origens do Estado húngaro
Conforme
o ponto-de-vista mais aceito, no século IX os magiares
(conhecidos como húngaros na maioria das línguas
ocidentais) eram um povo nômade com origem nas planícies
euro-asiáticas, em local difícil de precisar.
Formavam uma confederação de sete tribos
magiares e três tribos cabares aliadas; o nome Hungria/húngaros
provavelmente procede do termo turco Onogur, que significa
“Dez Flechas”, indicando força militar
unificada no simbolismo nômade. Em 896, fixaram-se
temporariamente na bacia do alto rio Tissa e, por volta
de 911, em torno do lago Balaton. Mais tarde, viriam a
ocupar parcialmente o que é hoje o leste da Áustria
e o sul da Eslováquia. Após sua derrota
na batalha de Lechfeld em 955, fixaram-se definitivamente
na bacia dos Cárpatos.
Segundo
relatos posteriores redigidos por ordem dos Árpádes,
foi o chefe tribal magiar de nome Árpád
quem liderava as tribos húngaras na conquista da
bacia dos Cárpatos, no século IX. Governante
tribal do que é hoje o oeste da Hungria mas também
o suserano nominal das sete tribos magiares, O príncipe
Géza, da Casa de Árpád, empreendeu
um plano de integração da Hungria à
Europa cristã (ocidental), adotando um modelo ocidental
de Estado. Indicou como seu sucessor o seu filho Vajk
(mais tarde conhecido como Estêvão).
O
Reino da Hungria
A
Idade Média (1000 -- 1526)
A
Hungria foi estabelecida como um reino cristão
sob o reinado de Estêvão I, coroado rei em
dezembro de 1000 d.C. (ou janeiro de 1001). Estevão
era o filho do príncipe Géza e descendia,
portanto, de Árpád. Em 1006, Estevão
já havia firmado o seu controle do reino, eliminando
os rivais que haviam tentado apoiar as tradições
pagãs ou buscar uma aliança com o Império
Bizantino. Deu início, então, a extensas
reformas para converter a Hungria num estado feudal europeu,
inclusive com conversões forçadas ao Cristianismo.
O
resultado foi um reino forte que suportou os ataques de
reis e imperadores germânicos, a passagem de exércitos
cruzados e tentativas de invasão por tribos nômades.
Estevão submeteu Estados eslavos menores, ao sul,
inclusive a recém-formada Croácia e outros
territórios no que é hoje o centro e o leste
da Eslováquia. Alguns nômades foram assimilados
à população húngara, bem como
colonos alemães, convidados a instalar-se na Transilvânia
e no norte do reino, especialmente após 1242.
A
invasão mongol de 1241 e 1242 foi um golpe severo
para a Hungria. Em seguida à destruição
do exército húngaro na batalha de Muhi e
a fuga do Rei Bela IV, o país foi devastado e um
terço da população pereceu. Somente
cidades e mosteiros fortificados lograram repelir o assalto.
Após o refluxo dos mongóis, o Rei Bela ordenou
a construção de castelos de fronteira (végvár),
os quais se revelaram particularmente importantes durante
o avanço do Império Otomano, do século
XIV em diante. O custo de erigir aquela linha de defesa
terminou por fortalecer os senhores feudais em detrimento
do governo central, este já enfraquecido pela promulgação
da Aranybulla ("bula de ouro", versão
local da Magna Carta, 1222). Colonos estrangeiros foram
convidados a repovoar as áreas do reino atingidas
pela invasão mongol.
Os
descendentes de Árpád governaram o país
até 1301; os reis posteriores foram, em sua grande
maioria, estrangeiros. Sob alguns destes, o Reino da Hungria
alcançou a sua maior extensão territorial,
embora a influência dos grandes senhores feudais
fosse, no máximo, controlada, mas não suprimida.
Tornaram-se mais freqüentes os confrontos com os
turcos otomanos, que cresciam em poder militar.
O
segundo rei húngaro da linhagem angevina (originalmente
francesa), Luís I o Grande (Nagy Lajos em húngaro,
reg. 1342-1382), incluiu no seu reino territórios
do Mar Negro ao Mar Adriático e ocupou temporariamente
as Duas Sicílias. Com a morte de Casimiro III o
Grande, em 1370, tornou-se também rei da Polônia,
devido à aliança entre este e o Rei Carlos
I da Hungria, pai de Luís.
Subiu
ao trono em seguida Sigismundo, da Casa de Luxemburgo,
que se tornou Sacro Imperador em 1433. Seu reinado foi
marcado por perdas territoriais no sul (para a Sérvia,
por exemplo); pela derrota de 1396 em Nicópolis
na cruzada contra os otomanos; as disputas com senhores
feudais, a rebelião hussita na Boêmia (que
também estava sob seu governo) e uma grande rebelião
camponesa na Transilvânia.
O
último rei forte foi Matias Corvino. Filho do senhor
feudal João Hunyadi, que chefiou as tropas húngaras
no cerco de Nándorfehérvár (Belgrado),
Matias herdou a visão de seu pai no sentido de
constituir um império suficientemente poderoso
na Europa Central de maneira a fazer frente aos otomanos.
Com isso, expandiu as fronteiras da Hungria para o sul
e o noroeste e promoveu importantes reformas internas.
Após
a morte de Matias, porém, o fraco Rei Vladislau
II da linhagem polaco-lituana dos Jagelões não
conseguiu evitar que o poder efetivo passasse às
mãos da nobreza, apesar de governar, em tese, todas
as áreas conquistadas por Matias, com exceção
da Áustria. Em 1514, teve início a rebelião
camponesa de György Dózsa, na Grande Planície
(Alföld) e na Transilvânia, esmagada impiedosamente
pela nobreza. Com o progressivo enfraquecimento do poder
central, a Hungria viu-se incapaz de resistir às
investidas do Império Otomano – em 1521,
Nándorfehérvár caiu e, em 1526, o
exército húngaro foi aniquilado na batalha
de Mohács.
O
início dos tempos modernos (1526 - 1728)
Com
base em acordos pré-existentes, a Casa de Habsburgo
recebeu em 1526 a coroa da Hungria, que manteria até
o término da Primeira Guerra Mundial, em 1918.
Em
1526, após 150 anos de conflito no sul, os turcos
finalmente lograram conquistar a Hungria, com exceção
do norte e da Transilvânia, transformada porém
em satélite do Império Otomano. A expansão
turca para o norte continuou até 1556. Com a queda
de Buda para os otomanos, a Hungria viu-se dividida em
três partes. As atuais Eslováquia, Transdanúbia
ocidental, Burgenland, Croácia ocidental e parte
do nordeste húngaro tornaram-se parte do Império
Habsburgo com o nome de Hungria Real. A Transilvânia,
por sua vez, passou a ser um Estado independente, mas
vassalo dos turcos. A parte central da Hungria (o que
é hoje a República da Hungria), inclusive
a capital, Buda, foi transformada numa província
do Império Otomano. Devido ao constante estado
de guerra, uma área considerável da Hungria
otomana foi devastada e despovoada. Como a Contra-Reforma
dos Habsburgos não podia atingir as partes otomana
e transilvana da Hungria, grande parte da população
destas tornou-se calvinista. Em 1686, as forças
cristãs, chefiadas pela Áustria, retomaram
Buda e, nos anos seguintes, o resto da Hungria, exceto
a região em torno de Temesvár (Timisoara
em romeno). O tratado de Karlowitz oficializou em 1699
a reconquista austríaca. Em 1718, não restavam
mais tropas otomanas no Reino da Hungria.
Pressburg
(Pozsony em húngaro; hoje Bratislava, na Eslováquia)
tornou-se a capital do que restou do Reino da Hungria
durante a ocupação otomana e também
nos anos seguintes à reconquista (1536-1784); foi
também o local da coroação dos reis
húngaros (1563-1830) e a sede da Dieta da Hungria
(1536-1848). Trnava (Nagyszombat em húngaro) passou
a ser o centro religioso em 1541.
No
período de 1604 e 1711, ocorreu uma série
de rebeliões contra os Habsburgos (i.e., anti-austríacas)
e anti-católicas (exigindo direitos iguais para
todas as denominações cristãs) no
território do Reino da Hungria (mais precisamente,
no que viria a ser a Eslováquia), organizadas a
partir da Transilvânia. A última delas foi
chefiada por Francisco II Rákóczi (II. Ferenc
Rákóczi em húngaro), quem o povo
escolheu como o futuro rei da Hungria. Quando a revolta
foi esmagada pelos austríacos em 1711, Rákóczi
estava na Polônia. Refugiou-se na França
e na Turquia, vindo a falecer em 1735, em Rodosto (hoje
Tekirdag). Com o objetivo de tornar impossível
a continuação da resistência armada,
os austríacos demoliram alguns castelos, inclusive
os végvár.
O
século XVIII (1718 - 1780)
O
período foi caracterizado pela reconstrução
da Hungria. Os Habsburgos providenciaram a re-colonização
das áreas devastadas com imigrantes das atuais
Áustria e Alemanha, das regiões norte e
leste do país (atuais Eslováquia e Romênia)
e da Sérvia.
O
Iluminismo (1780 - 1848)
Sob
a influência das idéias da Revolução
Francesa e em reação às tentativas
de germanização de José II (reg.
1780-1790), um movimento nacionalista surgiu entre os
magiares e, também, entre as outras nacionalidades
não-magiares do Reino da Hungria.
O
imperador viu-se forçado a convocar a Dieta nos
anos 1820, após um longo período em que
esta não se reuniu (especialmente durante as guerras
napoleônicas), o que levou a uma fase de reformas.
O progresso foi lento, porém, pois a nobreza insistia
em manter seus privilégios, como a imunidade fiscal,
prerrogativas eleitorais exclusivas etc. Assim sendo,
os resultados da reforma foram, em sua maioria, de caráter
nacional, como a adoção do húngaro
como língua oficial do país, em lugar do
latim. As outras nacionalidades do reino protestaram contra
estas medidas.
As
primeiras contagens populacionais no Reino da Hungria
(inclusive a Croácia e a Transilvânia) realizaram-se
no final do século XVIII. Segundo estimativas,
uma parcela entre 29% e 42% da população
constituía-se de magiares. A primeira pesquisa
detalhada em 1836-40 registrou uma proporção
de 36-37% de magiares (ou 48% excluindo-se a Croácia).
O censo de 1850-51 registrou uma proporção
de 45,5% no território do Reino da Hungria e as
seguintes percentagens para as demais nacionalidades (este
resultado foi criticado como tendencioso em favor das
nacionalidades magiar e alemã):
* eslovacos, 18,6%
* alemães, 11,8%
* romenos, 10,1%
* sérvios e croatas, 5,6%
* ucranianos e rutenos, 4,8%
* outros, 3,7%
A
recusa dos imperadores Habsburgos e do Chanceler Metternich
em implementar as reformas pedidas pelos magiares causou
uma revolução nacional.
A
Revolução de 1848 (1848 - 1849)
A
revolução teve início em 15 de março
de 1848, com manifestações em massa contra
o governador imperial nas cidades de Peste e Buda, seguidas
de insurreições por todo o reino que permitiram
aos chefes húngaros do movimento declarar a autonomia
da Hungria dentro do Império Habsburgo, sob o comando
do Governador Lajos Kossuth e do Primeiro-Ministro Lajos
Batthyány. Seguiu-se uma guerra civil na qual os
magiares viram-se forçados a combater o exército
austríaco e também as outras nacionalidades,
sérvios, croatas, eslovacos, romenos e alemães
da Transilvânia, que não estavam dispostas
a aceitar a ascendência magiar.
Ao
ter que lidar também com uma revolta em Viena,
a Áustria inicialmente aceitou a autonomia da Hungria.
Entretanto, após a supressão da revolta
austríaca e a súbita ao trono imperial de
Francisco José no lugar de seu irmão Ferdinando
I (este, retardado mental), a Áustria rejeitou
o pleito húngaro de autonomia, o que provocou a
guerra civil. As forças húngaras (Honvédség)
derrotaram o exército imperial em Pákozd
(setembro de 1848) e Isaszeg (abril de 1849) e declararam
a independência da Hungria em abril de 1849. Devido
às vitórias do movimento magiar, Francisco
José apelou para o Czar Nicolau I, que ordenou
a invasão da Hungria por tropas russas. O comandante
do exército austríaco e futuro governador
imperial da Hungria, Julius Freiherr von Haynau, determinou
a execução de 13 chefes do exército
húngaro em Arad e do Primeiro-Ministro Batthyány
em Peste. Lajos Kossuth exilou-se, primeiro nos EUA, depois
em Istambul e em Turim. Reconhecendo o maior erro da revolução
– o confronto com as minorias étnicas –
Kossuth passou a pregar a noção de uma confederação
multi-étnica.
Após
a revolução (1850 - 1867)
Com
o encerramento da guerra de 1848-49, o país adotou
a postura de “resistência passiva”.
O Arquiduque Albrecht von Habsburg foi nomeado governador
do Reino da Hungria. O período ficou marcado pelo
processo de germanização.
A
Áustria-Hungria
(1867-1918)
Confrontado
com o aumento da resistência no Reino da Hungria,
o surgimento do nacionalismo romântico entre as
diversas etnias e a hostilidade da Prússia (1866),
o governo austríaco e Francisco José concluíram
que necessitavam desesperadamente de paz interna. Com
isso, celebrou-se o Compromisso de 1867 (Ausgleich em
alemão) entre a Áustria e a Hungria, transformando
o Império Habsburgo na Monarquia Dual da Áustria-Hungria
(ou Império Austro-Húngaro). Ambos os países
mantiveram governos separados, sujeitos ao mesmo monarca,
mas tinham em comum a política externa, a economia
e as forças armadas, administradas por Viena. O
governo húngaro passou a ser um parceiro de mesmo
nível na administração do império.
A Constituição húngara de 1848 foi
restaurada e Francisco José, coroado rei da Hungria,
em Buda.
A
Croácia – um antigo território autônomo
do reino da Hungria – também recebeu uma
medida de liberdade com o Compromisso húngaro-croata
de 1868. O governo húngaro logrou influenciar a
política do império de modo a negar às
demais nacionalidades (eslovacos, tchecos, romenos etc.)
o acesso ao poder. O Conde Gyula Andrássy foi o
primeiro chefe de governo da Hungria.
Os
problemas com as minorias continuaram a aumentar, por
conta da inexistência de uma política húngara
a respeito. Embora a proporção de magiares
no Reino da Hungria tivesse crescido desde o século
XVIII (de 29-35% em 1780 para 51% em 1900), o fato era
que 49% da população era de não-magiares:
romenos (16,6%), eslovacos (11,9%), alemães (11,9%),
croatas e sérvios (3,7%), rutenos e ucranianos
(2,5%). Havia também um número considerável
de judeus (não contados oficialmente desde 1850)
e de ciganos no reino.
Os
Vermelhos e os Brancos (1918-1919)
Em
1918, como resultado da derrota na Primeira Guerra Mundial,
a Monarquia Austro-Húngara desmoronou. Em 31 de
outubro de 1918, Mihály Károlyi subiu ao
poder como primeiro-ministro. O novo governo declarou
a Hungria uma república independente em novembro.
Em 22 de novembro, o Conselho Central Romeno da Transilvânia
anunciou haver assumido o controle daquela região;
em 1º de dezembro, a assembléia de Alba Iulia
(Gyulafehérvár em húngaro) proclamou
a união da Transilvânia ao Reino da Romênia.
Por
volta de fevereiro de 1919, o governo havia perdido todo
o apoio popular, ao fracassar nos planos doméstico
e militar. Károlyi renunciou em 21 de março,
quando o representante militar da Entente exigiu da Hungria
mais concessões territoriais. Sucedeu-o o Partido
Comunista Húngaro, chefiado por Béla Kun,
que proclamou a República Soviética da Hungria.
Os
comunistas – os “Vermelhos” –
assumiram o poder devido, em grande medida, ao fato de
se constituírem no único grupo com uma força
militar organizada. Prometeram ao povo igualdade e justiça
social e que a Hungria recuperaria o território
que havia perdido (possivelmente com o auxílio
do Exército Vermelho soviético). De início,
o novo regime logrou obter sucessos militares consideráveis:
o Exército Vermelho Húngaro expulsou as
forças tchecoslovacas de territórios disputados,
proclamou uma efêmera República Soviética
Eslovaca e preparou-se para enfrentar o exército
romeno na Transilvânia. No campo doméstico,
o governo comunista nacionalizou empresas industriais
e comerciais e socializou instituições habitacionais,
de transporte, bancárias, médicas, culturais
e todas as propriedades fundiárias com mais de
400.000 metros quadrados.
Entretanto,
o apoio popular aos comunistas durou pouco. Em resposta
a uma tentativa de golpe, o regime tomou uma série
de medidas de repressão (o chamado “terror
vermelho”), inclusive a execução sem
julgamento de 590 pessoas, que lhe subtraíram o
apoio do povo. A reforma agrária tomou as terras
da nobreza mas não chegou a distribuí-las
efetivamente entre os camponeses. O Exército Vermelho
Húngaro terminou por recuar sob pressão
da Entente. Confrontados com a reação popular
e com o avanço das forças romenas, Kun e
seus camaradas fugiram para a Áustria; Budapeste
foi ocupada em 6 de agosto de 1919.
Chefiados
por István Bethlen (um aristocrata transilvano)
e Miklós Horthy (ex-comandante da marinha austro-húngara),
assumiram então o poder os “Brancos”,
contra-revolucionários conservadores que se haviam
organizado em Viena e estabelecido um governo paralelo
em Szeged. Seguiu-se um “terror branco” devido
ao arbítrio de forças semi-regulares e que
levou à morte sem julgamento diversos comunistas
e esquerdistas. Os judeus foram perseguidos por brancos
radicais, acusados de serem responsáveis por todos
os problemas da Hungria. O país foi devastado pelo
exército romeno, que se retirava. Em 16 de novembro,
o exército de Horthy avançou sobre Budapeste,
depois de obter o consentimento da Romênia. Seu
governo gradualmente restabeleceu a ordem e a segurança
e pôs fim ao terror, mas milhares de simpatizantes
dos comunistas foram presos.
A
Regência (1920-1944)
Em
janeiro de 1920, homens e mulheres húngaros foram
às urnas na primeira eleição com
voto secreto na história do país. A eleição
não foi completamente livre porque a esquerda a
boicotou ou foi dela excluída. Elegeu-se uma ampla
maioria de direita para uma assembléia unicameral.
Em março, o Parlamento anulou o Compromisso de
1867 e restaurou a monarquia, mas postergou a eleição
de um rei até que a ordem fosse restaurada. Miklós
Horthy foi eleito regente, com poderes para nomear o primeiro-ministro,
vetar leis, convocar e dissolver o Parlamento e comandar
as forças armadas.
Com
a assinatura do Tratado de Trianon, em 4 de junho de 1920,
a Hungria ratificou o seu próprio desmembramento.
As disposições do acordo, que viriam a gerar
controvérsias freqüentes entre a Hungria e
seus vizinhos, exigiam que o país entregasse dois-terços
de seu território de antes da guerra. Cerca de
10 milhões de húngaros étnicos viram-se
excluídos da sua pátria. As novas fronteiras
separaram a base industrial húngara dos fornecedores
de matérias primas e de seus mercados para produtos
agrícolas e manufaturados. A Hungria perdeu 84%
das suas reservas de madeira, 43% de sua terra arável,
83% das reservas de minério de ferro. Como a maior
parte da indústria húngara estava concentrada
nas cercanias de Budapeste, o país logrou manter
51% de sua população industrial, 56% da
indústria, 82% da indústria pesada e 70%
dos bancos.
O
governo de Pál Teleki, primeiro-ministro indicado
por Horthy, renunciou após o Imperador Carlos IV
fracassar na sua tentativa de retomar o trono da Hungria,
em 1921. Os partidos políticos dividiram-se entre
os que apoiavam uma restauração habsburga
e os que preferiam eleger um rei húngaro. István
Bethlen, parlamentar sem filiação política
naquele momento, criou o Partido da Unidade e foi nomeado
primeiro-ministro.
Bethlen
dominou a política húngara de 1921 a 1931,
garantindo lealdades políticas por meio do uso
da máquina do Estado em favor de seus asseclas
e da manipulação das eleições
em áreas rurais. Logrou restaurar a ordem no país,
oferecendo empregos públicos aos contra-revolucionários
radicais. Em 1921, legalizou as atividades dos Sociais
Democratas e dos sindicatos, exigindo em troca o compromisso
de que não entrariam em greve nem cooptariam os
camponeses. Sob Bethlen, a Hungria aderiu à Liga
das Nações em 1922. A revisão do
Tratado de Trianon passou a ser a prioridade política
no país, usada pelo primeiro-ministro, inclusive,
para esquivar-se de críticas aos seus programas
econômicos, políticos e sociais.
Com
a queda no padrão de vida causada pela Depressão,
o eleitorado passou a tender para a extrema-direita. Em
1932, Horthy indicou Gyula Gömbös para primeiro-ministro,
o que aproximou a Hungria da Alemanha e levou a uma política
de magiarização do que restava das etnias
não-magiares no país. Gömbös concluiu
um acordo comercial com a Alemanha que permitiu ao país
sair da recessão mas tornou-o dependente dos mercados
e das matérias primas alemães.
A
Segunda Guerra Mundial
Hitler
lançou mão de promessas de ganhos territoriais,
pressão econômica e ameaças de intervenção
militar para obrigar os húngaros a apoiar suas
políticas, inclusive as referentes aos judeus,
o que encorajou os anti-semitas na Hungria. A Cruz de
Flechas, o partido fascista mais importante no país,
foi fundada em 1935. O sucessor de Gömbös, Kálmán
Darányi, procurou apaziguar os anti-semitas e os
nazistas ao aprovar a Primeira Lei Judaica, que limitava
a 20% a participação dos judeus em certos
negócios e profissões; a lei não
era forte o suficiente para os radicais anti-semitas.
Horthy indicou, então, o anti-nazista Béla
Imrédy como primeiro-ministro, quem proscreveu
todos os partidos fascistas e preparou o projeto da Segunda
Lei Judaica, ainda mais dura que a primeira e que foi
aprovada por seu sucessor, novamente Pál Teleki.
O
primeiro Laudo Arbitral de Viena, de 1938, devolveu à
Hungria partes da Tchecoslováquia (Eslováquia
e Rutênia dos Cárpatos) de população
predominantemente húngara. Em março de 1939,
a Hungria ocupou o restante da Rutênia, área
sem população de origem magiar, e tentou
conquistar o restante da Eslováquia. O segundo
laudo arbitral de Viena devolveu à Hungria o norte
da Transilvânia em setembro de 1940; ocorreram atrocidades
dos dois lados durante este período de transição.
Ao dividir a Transilvânia entre a Hungria e a Romênia,
Hitler logrou manipular e controlar ambos os países,
seus futuros aliados. Em 20 de novembro de 1940, sob pressão
da Alemanha, a Hungria aderiu ao Pacto Tripartite e, em
dezembro, concluiu um efêmero “Tratado de
Eterna Amizade” com a Iugoslávia. Alguns
meses mais tarde, Hitler pediu o apoio húngaro
à sua invasão da Iugoslávia, em troca
de ganhos territoriais. Incapaz de impedir a participação
da Hungria na guerra do lado da Alemanha, Teleki cometeu
suicídio. O radical de direita László
Bárdossy sucedeu-o no cargo de primeiro-ministro
e, em abril de 1941, após o ataque alemão,
Horthy mandou que suas tropas ocupassem os territórios
anteriormente húngaros na Iugoslávia. A
Hungria viria a anexar partes da Voivodina, da Croácia
e da Eslovênia.
De
início, a Hungria não participou da invasão
da União Soviética em 22 de junho de 1941.
Entretanto, muitos oficiais húngaros defendiam
a participação do país, de modo a
que Hitler não favorecesse a Romênia na questão
da Transilvânia. A Hungria entrou na guerra no final
de junho. Por volta de dezembro, a esperança de
uma vitória rápida sobre os soviéticos
já desvanecera; em 1942, as forças húngaras
já chegavam a 150.000 homens. Preocupado com a
crescente dependência húngara da Alemanha,
Horthy demitiu Bárdossy e nomeou Miklós
Kállay, que continuou a política de apoiar
a Alemanha contra a União Soviética mas
iniciou negociações com os Aliados. O exército
húngaro sofreu perdas terríveis quando os
soviéticos romperam as suas linhas no rio Don,
em seguida à batalha de Stalingrado, em janeiro
de 1943. Ciente da duplicidade de Kállay, e temeroso
de que a Hungria concluísse uma paz em separado
com os Aliados, Hitler ordenou a ocupação
do país em março de 1944. Döme Sztójay
tornou-se primeiro-ministro, tutelado por um governador
militar nazista, Edmund Vessenmeyer. Horthy foi aprisionado
num castelo.
Em
julho de 1941, o governo Bárdossy deportou da Hungria
40.000 judeus. Seis meses depois, tropas húngaras,
em represália contra atividades de resistência,
executaram 3.000 reféns sérvios e judeus,
próximo a Novi Sad, na Voivodina. Como forma de
agradar a Alemanha, Bárdossy aprovou a Terceira
Lei Judaica, que proibia o casamento e relações
sexuais com judeus. Estes sofreram perseguições
econômicas e políticas durante a administração
Kállay, mas o governo protegeu-os da solução
final. Após a ocupação da Hungria
pelos nazistas, começaram as deportações
de judeus para campos de concentração na
Polônia, supervisionadas pelo coronel SS Adolf Eichmann.
Em maio e junho de 1944, a polícia húngara
deportou cerca de 440.000 judeus em mais de 145 trens,
a maioria para Auschwitz. No total, mais de 533.000 judeus
da Hungria foram mortos durante o Holocausto, bem como
dezenas de milhares de ciganos.
Em
agosto de 1944, Horthy demitiu Sztójay e nomeou
o general Géza Lakatos. Em setembro, as forças
soviéticas cruzaram a fronteira e, em 15 de agosto,
Horthy anunciou a assinatura de um armistício com
a União Soviética. O exército ignorou
as suas ordens e os alemães o forçaram a
denunciar o armistício, demitir Lakatos e indicar
o chefe da Cruz de Flechas, Ferenc Szálasi, para
o cargo de primeiro-ministro. Horthy abdicou e a Hungria
tornou-se um campo de batalha. Os exércitos húngaros
começaram a render-se. As deportações
de judeus recomeçaram, especialmente em Budapeste,
com a cooperação dos nazistas. Implantou-se
um reinado do terror fascista, com massacres aleatórios
de judeus e de outras pessoas consideradas “suspeitas”.
O exército alemão, em retirada, passou a
desmantelar os sistemas ferroviários, rodoviários
e de comunicações do país. Os alemães
resistiram ao Exército Vermelho em Budapeste por
um total de sete semanas, até o colapso das defesas,
quando a capital já estava praticamente arrasada.
Em 4 de abril de 1944, as últimas forças
alemãs foram expulsas da Hungria, que ficou sob
controle do Exército Vermelho.
O
segundo governo comunista (1944 - 1956)
Com
a assinatura do Tratado de Paris, a Hungria novamente
perdeu todos os territórios que havia recuperado
entre 1938 e 1941. Nem os Aliados do ocidente nem a União
Soviética apoiaram uma mudança nas fronteiras
húngaras do pré-guerra. A URSS anexou a
Rutênia, hoje parte da Ucrânia.
O
Tratado de Paz com a Hungria, concluído em 10 de
fevereiro de 1947, estipulava que “as decisões
do Laudo Arbitral de Viena, de 2 de novembro de 1938,
são declaradas nulas de pleno direito” (versão
livre em português); as fronteiras húngaras
voltaram ao que eram em 1938, exceto por uma pequena alteração
nos limites com a Tchecoslováquia. Metade da minoria
étnica alemã foi deportada para a Alemanha
em 1946-48 e ocorreu uma troca populacional forçada
entre a Hungria e a Tchecoslováquia.
Os
soviéticos organizaram um governo provisório
em Debrecen em dezembro de 1944, quando Budapeste ainda
estava ocupada pelos nazistas. Zoltán Tildy tornou-se
primeiro-ministro do governo provisório.
Nas
eleições de 1945, o Partido dos Pequenos
Proprietários recebeu 57% dos votos, contra apenas
17% para o Partido Comunista Húngaro, sob a chefia
de Mátyás Rákosi e Erno Gero. O comandante
soviético na Hungria, Marechal Voroshilov, não
permitiu aos vencedores formar o gabinete e estabeleceu
um governo de coalizão, nomeando os comunistas
para postos-chave. Tildy, líder dos Pequenos Proprietários,
tornou-se presidente e Ferenc Nagy, primeiro-ministro.
Rákosi assumiu o cargo de vice-primeiro-ministro.
A polícia de segurança (ÁVH) começou
a prender os chefes do Partido dos Pequenos Proprietários
e do Partido Camponês Nacional em fevereiro de 1947.
Vários dirigentes partidários refugiaram-se
no exterior.
O
Partido dos Trabalhadores Húngaros (PTH, resultado
da fusão dos comunistas com o Partido Social-Democrata)
passou a ser a maior agremiação política
após as eleições de 1947 e participou
do governo de coalizão. Gradualmente, os comunistas
tomaram as rédeas do governo e, em 1948, o Partido
Social-Democrata deixou de ter existência independente.
Seu chefe, Béla Kovács, foi preso e deportado
para a Sibéria. Outros líderes de oposição
também foram presos ou exilados. Mátyás
Rákosi conferiu um caráter autoritário
ao país. Estima-se que 2.000 pessoas foram executadas
e 100.000 presas. Cerca de 200.000 membros, que se opunham
a tais políticas, foram expulsos por Rákosi
dos quadros do PTH.
Rákosi
expandiu o sistema educacional na Hungria, buscando criar
uma nova “inteligentia trabalhadora”, o que
concedeu mais oportunidades de aprendizado para crianças
de baixa renda e ampliou a taxa de alfabetização
em geral; também disseminava a ideologia comunista
nas escolas e universidades.
Ironicamente,
o cardeal József Mindszenty, que se tinha batido
com bravura contra os alemães nazistas e os fascistas
húngaros durante a Segunda Guerra Mundial, foi
preso em dezembro de 1948, acusado de traição
e condenado à prisão perpétua. Vários
dirigentes de igrejas protestantes também foram
perseguidos.
O
padrão de vida dos húngaros caiu e, com
ela, a popularidade do governo. Com a morte de Stálin
em 1953, Rákosi foi substituído no cargo
de primeiro-ministro por Imre Nagy, permanecendo porém
como secretário-geral do partido. Os dois começariam
então uma luta pelo poder que se estenderia pelos
três anos seguintes.
Nagy
revogou o controle estatal à imprensa e promoveu
a discussão acerca de reformas econômicas
e políticas. Prometeu aumentar a produção
e a distribuição de bens de consumo, soltou
da prisão anti-comunistas, e ventilou a possibilidade
de realizar eleições livres e de retirar
a Hungria do Pacto de Varsóvia.
Sob
a orientação de Rákosi, o comitê
central do PTH condenou Nagy por “desvio direitista”
em março de 1955. Em 18 de abril, Nagy foi demitido
por voto unânime da Assembléia Nacional,
fazendo de Rákosi, mais uma vez, o Chefe de Governo
da Hungria.
Os
novos ventos na União Soviética, causados
pela ascensão de Nikita Khrushchev, enfraqueceram
o poder de Rákosi, que foi forçado a deixar
o governo, indicando porém seu amigo Erno Gero
como sucessor.
Em
3 de outubro de 1956, o comitê central reabilitou
Imre Nagy, bem como outros dirigentes condenados por traição
em 1949.
A
Revolução de 1956
O
levante húngaro começou em 23 de outubro
de 1956, com uma manifestação pacífica
de estudantes em Budapeste. Exigiam o fim da ocupação
soviética e a implantação do “socialismo
verdadeiro”. Quando os estudantes tentaram resgatar
alguns colegas que haviam sido presos pela polícia,
esta abriu fogo contra a multidão.
No
dia seguinte, oficiais e soldados juntaram-se aos estudantes
nas ruas da capital. A estátua de Stálin
foi derrubada por manifestantes que entoavam, "russos,
voltem para casa", "abaixo Gero" e "viva
Nagy". Em resposta, o comitê central do Partido
Comunista Húngaro recomendou o nome de Imre Nagy
para a chefia de governo.
Em
25 de outubro, tanques soviéticos dispararam contra
manifestantes na Praça do Parlamento. Chocado com
tais acontecimentos, o comitê central do partido
forçou a renúncia de Gero e substituiu-o
por János Kádár.
Nagy
foi à Rádio Kossuth e anunciou haver tomado
a chefia do governo, na qualidade de presidente do Conselho
de Ministros. Prometeu uma ampla democratização
da vida pública do país, a melhoria radical
das condições de vida do trabalhador e a
busca do socialismo condizente com as características
nacionais da Hungria.
Em
28 de outubro, Nagy e um grupo de colegas lograram obter
o controle do Partido Comunista. Surgiam conselhos revolucionários
por todo o país.
Em
30 de outubro, Nagy comunicou a libertação
do cardeal Mindszenty e de outros prisioneiros políticos.
Anuncia-se que o governo pretende abolir o sistema de
partido único. Reconstituem-se os Partidos dos
Pequenos Proprietários, Social-Democrata e Camponês
Petofi. Em 1º de novembro, Nagy comunica a intenção
húngara de se retirar do Pacto de Varsóvia
e pede a intervenção das Nações
Unidas na controvérsia com a URSS.
Em
4 de novembro, o Exército Vermelho invadiu a Hungria
e derrotou rapidamente as forças húngaras.
Calcula-se que 20.000 pessoas foram mortas durante a intervenção
soviética. Nagy foi preso (e posteriormente executado)
e substituído no poder pelo simpatizante soviético
János Kádár.
O
governo Kádár
De
início, Kádár promoveu a perseguição
dos revolucionários: 21.600 presos, 13.000 internados,
400 mortos. Na década de 60, porém, com
a frase de efeito "quem não está contra
nós, está conosco", declarou uma anistia
geral, reprimiu gradualmente alguns excessos da polícia
secreta e efetuou reformas liberais na economia e na cultura,
de modo a superar a hostilidade popular pós-1956
contra si próprio e o regime. Em 1966, o comitê
central aprovou o "Novo Mecanismo Econômico",
com o objetivo de aumentar a produtividade, tornar o país
mais competitivo nos mercados internacionais, fazê-lo
mais próspero e assegurar a estabilidade política.
Ao longo das duas décadas seguintes, relativamente
pacíficas, o governo Kádár mostrou-se
receptivo às demandas por reformas políticas
e econômicas. Na altura dos anos 80, a Hungria havia
logrado implementar algumas reformas econômicas
duradouras e uma medida de liberalização
política, além de implementar uma política
externa de maior aproximação comercial com
o Ocidente. Por outro lado, o Novo Mecanismo Econômico
causou um incremento da dívida externa, devido
à necessidade de subsidiar algumas indústrias
não-lucrativas.
A
transição para a democracia
A
transição da Hungria para uma democracia
do tipo ocidental foi a primeira e a mais pacífica
dentre os países do bloco soviético. Em
1987, ativistas dentro do partido e da burocracia, bem
como intelectuais de Budapeste, aumentaram a pressão
por mudanças. Alguns destes tornaram-se socialistas
reformistas, enquanto outros começaram movimentos
que se transformariam em partidos. Alguns jovens liberais
formaram a Federação de Jovens Democratas
(Fidesz); um grupo da chamada Oposição Democrática
criou a Associação dos Democratas Livres
(SzDSz). A oposição nacional formou o Fórum
Democrático Húngaro (MDF). O ativismo cívico
chegou a níveis que não eram vistos desde
a Revolução de 1956.
Em
1988, Kádár foi alijado do cargo de secretário-geral
do Partido Comunista e o dirigente reformador comunista
Imre Pozsgay foi admitido no Politburo. No mesmo ano,
o Parlamento aprovou um "pacote democrático",
que incluía pluralismo sindical; liberdade de associação,
de reunião e de imprensa; uma nova lei eleitoral;
e uma revisão radical da Constituição.
A Hungria deu início, então, às reformas
econômicas e ao processo de reatamento com a Europa
Ocidental, tendo por meta aderir à União
Européia. Em fevereiro de 1989, o comitê
central aprovou o princípio do sistema político
pluripartidário. O país começava
a tornar-se uma democracia. Um acordo concluído
em abril de 1989 determinou a retirada das tropas soviéticas
até junho de 1991.
O
momento pivotal veio em junho de 1989, quando a nação
deu nova e solene sepultura a Imre Nagy e, simbolicamente,
a todas as vítimas da Revolução de
1956. Uma mesa redonda nacional reuniu os novos partidos
e alguns antigos, recriados (como os Pequenos Proprietários
e os Sociais-Democratas), bem como os comunistas, para
discutir a reforma da Constituição e os
preparativos para as eleições livres.
Em
outubro, o Partido Comunista reuniu o seu último
congresso e transformou-se no Partido Socialista Húngaro
(MSzP). Numa sessão histórica também
em outubro, o Parlamento determinou a convocação
de eleições parlamentares pluripartidárias
e de uma eleição presidencial direta. A
nova legislação converteu a República
Popular da Hungria na República da Hungria, garantiu
os direitos humanos e civis e criou uma estrutura institucional
que assegurava a separação dos poderes.
A nova República foi oficialmente declarada em
23 de outubro de 1989, aniversário da Revolução
de 1956.
Eleições
livres e a Hungria democrática
Na
primeira eleição parlamentar livre, em maio
de 1990, os comunistas receberam poucos votos. Saíram
vitoriosos os partidos populistas ou de centro-direita.
O primeiro-ministro József Antall formou um governo
de coalizão com o MDF, os Pequenos Proprietários
e os Democratas Cristãos. Com a morte de Antall,
em 1993, assumiu o cargo Peter Boross. O governo de coalizão
lançou as bases da economia de mercado, mas o padrão
de vida despencou devido às reformas econômicas.
Com
isso, os socialistas lograram voltar ao poder pela via
democrática, em maio de 1994. Os eleitores rejeitaram
os partidos extremistas de direita e de esquerda. Sob
a égide do primeiro-ministro socialista Gyula Horn,
os tecnocratas socialistas e o liberal SzDSz (parceiro
de coalizão com o MSzP) implementaram um duro programa
de austeridade fiscal, reformas econômicas e privatizações
(o “Pacote Bokros”) em 1995. No palno externo,
buscou-se a integração com as instituições
euro-atlânticas (OTAN e União Européia)
e a reconciliação com os países vizinhos.
Nas
eleições de 1998, o eleitorado mais uma
vez colocou no poder a centro-direita. O Fidesz, em coalizão
com o MDF e os Pequenos Proprietários, formou o
governo, chefiado pelo primeiro-ministro Viktor Orbán.
A nova administração deu prioridade à
integração euro-atlântica e escolheu
a defesa das minorias étnicas magiares como uma
de suas maiores bandeiras.
No
que já se afigurava como uma tendência do
eleitorado ao movimento pendular, o Fidesz perdeu as eleições
de 2002, que mais uma vez levaram ao governo o MSzP e
seu aliado SzDSz. Desde então, o eleitorado e a
sociedade húngaros apresentam-se profundamente
divididos entre o apoio aos socialistas (MSzP) e ao Fidesz.
Em
12 de abril de 2003, a Hungria aprovou a adesão
à União Européia, por meio de um
referendum popular. Dos 45% de votantes do eleitorado,
83% aprovaram a adesão. A entrada da Hungria na
EU ocorreu em 1º de maio de 2004.