Pode-se
dizer que o comunismo surgiu no país de uma forma
vinculada aos demais Estados regionais. Referimo-nos ao
Partido Comunista da Indochina, de maioria vietnamita.
Foi após a Segunda Guerra Mundial que o forte sentimento
nacionalista, liderado pelo recém surgido Partido
Popular Revolucionário do Kampuchea (KPRP/PPRK),
sob os auspícios do Vietnã, levou a França
a conceder a independência cambojana, em novembro
de 1953. Em 1960 assumiu a liderança comunista
Saloth Sar, que será o futuro Pol Pot (a partir
de 1976). Ainda neste ano, o KPRP passa a chamar-se Partido
dos Trabalhadores do Kampuchea (WPK/PTK) e, em 1966, assume
a denominação que manterá inalterada:
Partido Comunista do Kampuchea (KCP/PCK).
Governo
de Sihanouk
Norodom
Sihanouk, cujo partido vence todas as eleições
para a Assembléia Nacional, de 1955 a 1966, governa
com amplo poder, mas enfrenta uma forte oposição
de esquerda. A partir de 1964, com o surgimento do Khmer
Vermelho, passa a se deparar com uma violenta rebelião
comunista, que atinge o seu auge nos anos 1967/68. Em
janeiro deste último ano é criado o Exército
Revolucionário do Kampuchea (RAK/ERK). Esta ação
de guerrilha foi enfrentada sem grande empenho pelo primeiro-ministro
de Sihanouk, já que este encontrava-se na França.
Ao retornar, passou a supervisionar pessoalmente a repressão
contra-insurgência. Mesmo não tendo erradicado
a guerrilha, este esforço custou perto de 10.000
vidas ao país. A insurreição espalhou-se
rapidamente, alastrando-se da região de Batdambang
para o Sul e Sudoeste do país, envolvendo onze
das dezoito províncias administrativas.
Governo
de Lon Nol
Em
1970, enquanto Sihanouk viajava por Moscou e Pequim, seu
primeiro-ministro, o Marechal Lon Nol, dá um golpe
de Estado e, a 18 de Março, a Assembléia
Nacional vota por unanimidade a deposição
do governante ausente.
Em
março de 1974, forças do Khmer Vermelho
capturaram a cidade de Odongk, ao Norte de Phnom Penh,
destruindo-a e dispersando os seus 20.000 habitantes pelo
interior do país. Dando seguimento a estas "atividades
de limpeza", passaram a executar os professores e
funcionários públicos. Em uma pequena vila
chamada Sar Sarsdam, 60 pessoas foram assassinadas, incluindo-se
mulheres e crianças, dentre inúmeras outras
ocorrências mencionadas. Estas estórias,
na época, eram consideradas como sendo propaganda
anticomunista, pela imprensa ocidental e muitas outras
organizações internacionais. Nesta época,
o território cambojano passa a ser utilizado como
refúgio pelas tropas norte-vietnamitas e por guerrilheiros
comunistas do Vietnã do Sul.
Governo
dos Khmers Vermelhos
A
17 de Abril de 1975, as forças do Khmer Vermelho
entram na capital, Phnom Penh, quase sem resistência,
marcando o fim da administração Lon Nol.
O novo governo fará milhares de prisioneiros e
deslocará, à força, a população
urbana para fazendas coletivas no campo, praticamente
eliminando a indústria nacional. As conseqüências
foram trágicas, levando à morte centenas
de milhares de pessoas, fosse por doenças e fome,
fosse em campos de extermínio. Imediatamente após
o domínio do governo pelo Khmer, foi iniciada a
evacuação da população da
capital, em direção ao campo. Eram cerca
de 2,5 milhões de pessoas, incluindo-se 1,5 milhões
de refugiados-de-guerra. Esta mesma atitude do governo
foi observada nas cidades de Batdambang, Kampong Rham,
Siemreab, Kam Pong Thun e muitas outras. Nestes procedimentos
não havia exceções e até os
hospitais eram esvaziados e os pacientes deportados para
o interior. O governo comunista do Khmer Vermelho alegava
como causa destas providências a necessidade de
alimentar a população urbana, do que era
impedido pelos bombardeios das forças norte-americanas,
que tornava qualquer meio de transporte inviável.
Esta explicação foi imediatamente aceita
pelos meios dominados pela esquerda marxista mundial,
ficando toda a responsabilidade com os Estados Unidos.
Embora tenham sido lançadas 539.129 toneladas de
bombas sobre o território cambojano, quase quatro
vezes mais do que as 153.000 toneladas recebidas pelo
Japão durante a Segunda Grande Guerra, este não
foi o motivo desta "evacuação".
Seguindo-se a isto, o governo prossegue em seu programa
de execuções, quando foram mortos tantos
funcionários, policiais e militares quantos puderam
ser encontrados. Qualquer indivíduo que houvesse
trabalhado, de alguma forma, vinculado ao governo deposto,
teria morte certa, caso fosse identificado. O Khmer não
executava apenas o "vinculado", mas todos os
seus familiares, para eliminar qualquer possibilidade
de uma futura vingança contra o regime. Por volta
de julho de 1975 o ritmo da matança foi reduzido
e os condenados passaram a ser enviados para os "centros
de reeducação", onde fariam parte dos
"batalhões de trabalhos forçados".
No final deste ano, e início de 1976, houve um
recrudescimento das execuções em massa,
só que agora eram dirigidos aos mais cultos e intelectualizados,
tais como professores e assemelhados.
Entre
1977 e 1978, a violência atingiu o seu auge, quando
os assassinatos passaram a ser comuns entre os próprios
elementos do Khmer, em intermináveis purgações
em todos os níveis, caracterizando bem a conhecida
autofagia dos regimes comunistas.
Durante
todo este período em que o país passa a
ser conhecido como "Kampuchea/Camboja Democrático"
(Janeiro de 1976/79), o regime de Pol Pot exerceu o poder
de vida e morte sobre toda a população,
sem a menor contestação. Devido à
necessidade de poupar munição, as armas
de fogo poucas vezes eram utilizadas. As pessoas eram
mortas por qualquer motivo: por não trabalharem
com o desejado afinco, por reclamarem das condições
de vida, por guardarem algum bem ou comida para utilização
própria, por usarem alguma jóia, por terem
relações sexuais não autorizadas,
por chorarem a morte de algum amigo ou familiar e até
por demonstrarem algum sentimento religioso. Os doentes
eram, na maioria das vezes, eliminados. Esta matança
ocorria, sempre, sem qualquer tipo de julgamento e prolongou-se,
ininterruptamente, até a invasão do país
pelas tropas do Vietnã, em 1979.
A
estimativa de mortes neste período varia muito
de fonte para fonte. Os dados originários do Vietnã
nos dão 3 milhões de mortos entre 1975 e
1979, porém, outros cálculos chegam a 2,3
milhões; a Anistia Internacional calcula em 1,4
milhões e os norte-americanos, em 1,2 milhões.
Qualquer que sejam os valores corretos, este foi o maior
massacre proporcional à população
de um país, ocorrido na história moderna
da Ásia.
A
partir de 1979, com a invasão vietnamita, Hanoi
assume o controle do Camboja e Pol Pot é deposto.
O país passará a ser denominado República
Popular do Camboja, sob a presidência de Heng Samrin.
Daí em diante, ao longo dos anos, o regime se tornará
menos opressor e tende, mesmo que levemente, à
uma ordem democrática mais liberal, embora tenha
adotado a base do regime marxista-leninista do Vietnã.
Mesmo com toda esta redução dos massacres,
pouco se conhece desta época, devido ao grande
número de expurgos decorridos ao longo do período,
tornado raras as testemunhas dos acontecimentos. O país
passa a ser reconstruído e as suas instituições
recompostas, embora o sistema coletivista e a economia
planificada tenham continuado.
Depois
de passar 18 anos escondido na selva e ter a sua morte
anunciada diversas vezes, Pol Pot reaparece em julho de
1997. É acusado pelo Khmer Vermelho de mandar matar
vários ex-companheiros e suas famílias (comportamento
repetitivo das lideranças guerrilheiras de extrema
esquerda). É condenado à prisão perpétua,
a ser cumprida em sua casa. Não foi fuzilado, como
sua ideologia orienta, valendo-se, sempre, do respeito
que a democracia destina aos cidadãos, tanto na
paz como na guerra. Lon Nol, ex-presidente do Camboja,
diz que, dos 7 milhões de cambojanos, 3 milhões
haviam morrido de fome, doenças ou devido a expurgos,
desde a ascensão dos comunistas ao poder. O Camboja
encerra o século com um regime de governo estabelecido
por uma Monarquia Parlamentarista, sob a égide
do já registrado Norodom Sihanouk Um acordo assinado
entre o governo cambojano e a ONU, em maio de 2000, determina
a criação de um tribunal para julgar os
líderes do Khmer Vermelho por crimes contra a humanidade.