A
Revolução Iraniana, ocorrida
em 1979, transformou o Irã - até então
comandado pelo Xá Mohammad Reza Pahlevi - de umamonarquia
autocrática pró-Ocidente, em uma república
populista teocrática islâmica sob o comando
do aiatolá Ruhollah Khomeini. Para efeito de análise
histórica, a Revolução Iraniana é
dividida em duas fases:
* na primeira fase, houve uma aliança entre grupos
liberais, esquerdistas e religiosos para depor o xá;
* na segunda, freqüentemente chamada Revolução
Islâmica, viu-se a chegada dos aiatolás ao
poder.
Antecedentes
O
xá estava no poder desde 1941, com uma curta interrupção
em 1953 quando teve que abandonar o país. Retornou
no mesmo ano ao depor o governo democraticamente eleito
de Mohammad Mossadeq, com a ajuda de uma operação
da CIA, batizada de Operação Ajax. Pahlevi
manteve boas relações com os Estados Unidos,
porém conflitou com as visões tradicionais
do Islão sobre o álcool, o jogo e as relações
sexuais antes do casamento, as quais se recusou a banir.
O regime era conhecido por sua corrupção
política e práticas brutais, as quais, como
resposta, suscitavam protestos tanto internos quanto da
comunidade internacional.
Uma
forte oposição surgiu durante o regime do
xá. Particularmente importante era a oposição
religiosa, que crescia desde longa data. A Ulema, ou comunidade
de estudiosos das leis islâmicas, unia preocupações
religiosas e seculares com uma longa história de
ativismo social. Assim, mesclava oposição
à brutalidade do governo a um forte compromisso
em lutar contra a pobreza. Seu ativismo se mostrava conservador
dos valores islâmicos e, à medida em que
crescia, o governo reprimia violentamente os dissidentes.
Em 1963, por exemplo, estudantes islâmicos foram
violentamente atacados quando protestavam contra a abertura
de um bar.
O
aiatolá Khomeini era um líder da oposição
que afirmava que o regime do xá era uma tirania.
Após sua prisão e seu exílio em 1964,
os protestos dos clérigos aumentou. Em resposta,
Pahlevi decidiu enfrentar os religiosos com violência,
prendendo e matando manifestantes. Não se sabe
quantos morreram nesta campanha: o regime de Pahlevi falou
em 86 mortos; os religiosos afirmaram que foram milhares.
De
1963 a 1967 a economia iraniana cresceu consideravelmente,
graças aos aumentos do preço do petróleo
e também com a exportação de aço.
A inflação cresceu no mesmo período
e, embora a economia crescesse, o padrão de vida
dos pobres e das classes médias urbanas não
melhorava. Ao invés disso, apenas a rica elite
e os intermediários das companhias ocidentais é
que se beneficiavam das extravagâncias do xá.
O governo também dispendia grandes somas na compra
de armamentos modernos, particularmente dos Estados Unidos.
Enfrentando
crescente oposição de líderes religiosos
e de pequenos empresários, o regime do xá
decidiu, em 1975, empreender um novo esforço para
controlar a sociedade iraniana. Este esforço visava
diminuir o papel do islamismo na vida do reino, ressaltando,
para isto, as conquistas das civilizações
pré-islâmicas do país, especialmente
a civilização persa. Nesta linha, em 1976
o calendário islâmico, lunar, foi banido
do uso público e substituído por um calendário
solar. Publicações marxistas e islâmicas
também sofreram forte censura.
As
reformas do xá também ficaram conhecidas
como a revolução branca. Também foi
abolido o regime feudal (dividindo terras dos líderes
religiosos, o que diminuiu suas rendas) e dado direito
ao voto às mulheres (o que foi visto pelos líderes
religiosos como um plano para "trazer as mulheres
para as ruas").
A
situação pré-revolucionária
no Irã
A
população mais pobre do país tendia
a ser o segmento mais fervorosamente religioso e o menos
ocidentalizado. Os pobres viviam predominantemente no
campo, ou habitavam favelas das grandes cidades, especialmente
de Teerã. Eles desejavam o retorno aos valores
básicos do islamismo, em oposição
aos esforços modernizadores do regime, cujas promessas
de progresso lhes soavam falsas, e baseadas no crescente
distanciamento entre os mais ricos e os mais pobres.
À
medida em que a classe média urbana se educava
e se expunha aos valores ocidentais, parte dela passou
a enxergar o regime do xá como parte do problema.
Além disso, após sua restauração
em 1953, a posição do xá tornou-se
particularmente perigosa. Isto em grande parte devido
aos seus fortes laços com o Ocidente, a corrupção
interna, as reformas impopulares e a natureza despótica
de seu regime, especialmente a repressão da polícia
política, conhecida como SAVAK.
No
início da década de 1970 o preço
do petróleo cresceu rapidamente, e o descontentamento
com a corrupção, os gastos supérfluos
e a com violenta repressão aumentaram. A decadência
interna foi bem ilustrada com a comemoração
dos 2500 anos da fundação do Império
Persa, ocorrida em outubro de 1971 em Persépolis,
com três dias de celebrações a um
custo total de US$ 300 milhões. Dentre as extravagâncias
havia 1 tonelada de caviar preparada por 200 chefs vindos
diretamente de Paris. Enquanto isto, muitos no país
sequer tinham comida ou moradia decente.
À
medida em que a desigualdade crescia, os protestos por
mudanças aumentavam. Até mesmo elementos
pró-ocidentais no Irã se incomodaram com
a crescente autocracia e a crescente repressão
da polícia secreta. Muitos deixaram o país
antes da revolução, enquanto outros começaram
a se organizar. Ao mesmo tempo, um movimento populista
passou a se organizar nas mesquitas, através de
sermões que denunciavam a maldade do Ocidente e
dos valores ocidentais. O choque entre uma crescente população
jovem e um regime que não oferecia nem os avanços
de um estado moderno, nem a estabilidade de uma sociedade
tradicional, criaram as condições para uma
revolução.
Protestos
e revolução
Em
1977, após pressões por direitos humanos
feitas pelo então presidente norte-americano Jimmy
Carter (que ameaçou embargar o suprimento de armas)
o regime do xá fez concessões, libertando
300 prisioneiros políticos, relaxando a censura
e reformando o sistema judicial. Este relaxamanto conduziu
ao aumento de protestos da oposição, e escritores
passaram a reivindicar a liberdade de pensamento. Ao mesmo
tempo, a política de reforma agrária implementada
pelo xá sob pressão da administração
Carter enfureceu os mulás (líderes religiosos)
que declararam uma guerra santa ao xá.
Em
1978 uma série de protestos, iniciada com um ataque
à figura de Khomeini na imprensa oficial do país,
criou um ciclo ascendente de violência, até
que, em 12 de dezembro daquele ano, cerca de 2 milhões
de pessoas inundaram as ruas de Teerã para protestar
contra o xá. O exército começou a
se desintegrar, à medida em que os soldados se
recusaram a atirar nos manifestantes e passaram a desertar.
O xá concordou em introduzir uma constituição
mais moderada, porém já era tarde para isto.
A maioria da população já era leal
a Khomeini, e, quando ele pediu o fim completo da monarquia,
o xá foi forçado a abandonar o país,
a 16 de janeiro de 1979.
Khomeini
retornou da França em 1 de fevereiro, convidado
pela revolução anti-xá que prosseguia,
e rapidamente afastou os elementos mais moderados, criando
uma república islâmica onde se tornou o líder
supremo.