Produzido
de 1945 (data em que foi retomada a produção,
que na verdade iniciou em 1938 e foi paralisada pela Segunda
Guerra Mundial) até 30 de julho de 2003 (por último
na fábrica de Puebla no México), o "besouro",
como é chamado nos EUA e na maior parte dos países,
cativou o mundo.
Início
do projeto
Em
1930 a Alemanha,
assolada por uma dura recessão, tinha um dos piores
índices de motorização da Europa. Nesta
época popularizou-se a expressão "Volkswagen"
(Volk, povo, Wagen, carro, significando carro do povo),
simbolizando o desejo dos alemães em possuir um carro
popular, barato e econômico que servisse toda a família.
Naquela época, diante das dificuldades econômicas,
isto parecia impossível.
Esta
idéia cativou também o projetista de carros
austríaco Ferdinand Porsche, que em 1931 defendia
a idéia de produzir um carro popular. Neste mesmo
ano a Zündapp, fabricante de motos, encomendou a Porsche
a construção de três protótipos.
Eles foram batizados de "Tipo 12", já que
Porsche numerava todos os projetos de seu escritório,
o Konstruktionbüro.
Porsche
estava bastante entusiasmado com o projeto. O carro seria
pequeno, com motor traseiro de três cilindros em "W",
e teria carroceria aerodinâmica para reduzir a potência
necessária e o tamanho do motor.
Os
primeiros modelos, ainda muito diferentes do "Fusca",
estavam prontos em 1932. No entanto, a Zündapp, por
problemas financeiros, rompeu o contrato.
Porsche,
porém, já havia negociado com outro fabricante,
a NSU, para desenvolver o "Volkswagen". O modelo
da NSU foi chamado de "Tipo 32", e já era
bem semelhante ao "Fusca" como o conhecemos. No
entanto, em 1933, a NSU desistiu do projeto.
Apoio
de Hitler
Nesta
época Hitler havia tomado o poder na Alemanha e estava
comprometido com a modernização do país
e a recuperação da economia, principalmente
do emprego. Para Hitler a idéia de um "carro
do povo" feito por trabalhadores alemães e viajando
por todo o país era a exata realização
desta plataforma política. Em 1933 um amigo de Porsche
dos tempos em que ele trabalhava na Daimler, Jacob Werlin,
intermediou um encontro de Porsche com o ditador.
Neste
encontro, Hitler mostrou-se bem informado sobre os projetos
de Porsche na NSU e com opinião formada sobre o "carro
do povo". Segundo Hitler ele deveria ser barato, não
ultrapassando os 1.000 marcos imperiais, transportar de
4 a 5 pessoas e alcançar e manter 100 km/h com uma
média de consumo de 14 km/litro.
Embora
para Porsche aquele parecesse um sonho impossível,
Werlin o convenceu a aceitar a verba de 20 mil marcos por
mês para desenvolver o projeto.
Diversas
tentativas foram feitas para demover Hitler de vários
de seus pedidos com relação ao Volkswagen,
mas com relação ao preço ele foi intransigente
com o valor máximo, agora fixado de forma arbitrária
em 990 marcos.
Mesmo
assim, o contrato foi assinado em 1934 e os equipamentos
foram instalados na casa de Porsche em Stuttgart.
Os
problemas do projeto
Porém,
havia outros problemas além das exigências
de Hitler. Porsche rapidamente conseguiu a oposição
da RDA, que era a associação de classe dos
fabricantes de carros na Alemanha, para o projeto do Volkswagen.
Particularmente de um executivo da Opel, Heinrich Nordhoff,
que defendia que um automóvel não deveria
ser produzido pelo governo e sim pelos fabricantes.
Pior
que isto, o Fusca deveria passar pela aprovação
da RDA, função que Hitler lhe havia entregue,
através de uma série rigorosa de testes jamais
antes aplicada a carro algum.
As
dificuldades técnicas envolvidas no projeto não
eram menores. Fabricar um carro pequeno que tivesse o desempenho
e confiabilidade das especificações era um
desafio bem maior que o projeto de outros carros da época,
e exigia o desenvolvimento de novas tecnologias e de soluções
inteligentes.
O
motor foi uma dificuldade à parte. Primeiro, foram
tentados motores de dois e três cilindros, para reduzir
os custos, mas eles não eram confiáveis e
não produziam a potência necessária
para o carro.
Para
economizar espaço pela eliminação do
radiador, optou-se por um motor refrigerado a ar. Como o
motor era traseiro, havia problemas técnicos para
a tomada de ar para a refrigeração.
Um
engenheiro da equipe de Porsche sugeriu usar um motor radial
de cinco cilindros, que já estava pronto. Inicialmente
a idéia pareceu absurda, pois este era um "motor
de avião". No entanto, por algum tempo, tentou-se
esta solução.
Finalmente,
foi escolhido o motor traseiro de quatro cilindros (boxer
oposto dois a dois) refrigerado a ar.
A
suspensão era resistente, por barras de torção,
o que reforçava a idéia de um carro popular
e durável.
A
escolha do motor de quatro cilindros teve a oposição
ferrenha de Heinrich Nordhoff da RDA, mas esta foi a escolha
final.
Chapas
de metal curvado, encurtando o capô dianteiro e a
traseira "corcunda" acabaram dando ao carro o
aspecto característico de "besouro".
Um
problema com a traseira tão curta foi obter espaço
para o motor. Uma idéia genial, adotada no Fusca,
foi inclinar o motor levemente para dentro, o que economizava
preciosos centímetros do capô.
Testes
do protótipo
Depois
de muita dificuldade com o projeto, três protótipos
do primeiro Volkswagen, dois chamados V1 e um conversível
V2, ficaram prontos e foram entregues a RDA em 12 de outubro
de 1936 para testes.
Em
três meses cada um deles rodou 50 mil km, enfrentando
os piores terrenos, durante uma rotina de testes seis dias
por semana. O relatório final da RDA aprovava o projeto.
Os
problemas ficaram apenas no freio, que ainda era a varão,
e o virabrequim, que quebrava com freqüência.
Em
1937 foram produzidos 30 unidades pré-série,
a cargo da Daimler-Benz e financiados pela RDA. Eles foram
submetidos a uma bateria de testes ainda mais dura, chegando
os 30 em conjunto a rodar 2,4 milhões de km nas mãos
de membros das SS, a tropa de elite de Hitler.
Início
da produção
Devido
a um pedido de subsídio que a RDA fez, e à
oposição de Porsche a este pedido, a RDA acabou
rompendo com o projeto do Volkswagen. Porsche estava convencido
que com um bem planejado sistema de produção
em massa poderia construir o carro ao preço sugerido
e sem o subsídio.
O
carro foi batizado oficialmente de KdF-wagen (KdF significa
"a força pela alegria") pois houve o envolvimento
da frente de trabalho alemã, a KdF, para levantar
os fundos necessários para a construção
da fábrica. A KdF decidiu que cada carro seria vendido
por um sistema, parecido com o que existe no Brasil, chamado
de consórcio, em que o interessado deveria pagar
5 marcos por semana e tomar posse do carro apenas depois
de completar os pagamentos. Apesar disto, cerca de 175 mil
alemães aderiram ao plano.
Em
26 de maio de 1938 foi colocada a pedra basilar da fábrica,
com a presença do próprio Hitler. Mais de
70 mil pessoas participaram da solenidade.
No
entanto, em 1939 com o início da Segunda Guerra Mundial,
a produção foi interrompida e a fábrica
dedicada a produzir veículos de guerra, como o jipe
Kübelwagen e o carro anfíbio Schwimmwagen, ambos
baseados na plataforma do "Fusca".
Retomada
da produção no pós-guerra
Após
a guerra, a Alemanha foi dividida em zonas que ficaram sob
controle dos aliados. A zona em que ficava a fábrica
do Volkswagen, complexo chamado de "Cidade KdF",
rebatizada após a guerra de Wolfsburg, ficou na zona
controlada pelos britânicos. O comando da fábrica
ficou nas mãos do Major Ivan Hirst, um apaixonado
pelo "Fusca".
Os
britânicos, sem saberem exatamente o que fazer com
a fábrica, acabaram por reativar a produção
em agosto de 1945, para produzir carros para as forças
de ocupação e para o serviço público
alemão.
No
entanto, os britânicos não desejavam administrar
para sempre a fábrica e tinham de encontrar uma forma
de passá-la para o governo alemão. A solução
foi chamar o antigo dirigente da RDA, e inimigo do "Fusca"
nos seus primórdios, Heinz Nordhoff, para assumir
a fábrica. Fê-lo em janeiro de 1948, com carta
branca do Major Hirst, e ficou no cargo até sua morte
em abril de 1968.
Logo
Nordhoff percebeu que a única forma de expandir a
fábrica, e gerar importantes empregos para os alemães
no pós-guerra, era exportar os "Fuscas",
particularmente para os EUA.
Nos
EUA os "Fuscas" logo se tornaram uma paixão,
mesmo sem muita propaganda, que era feita da boca para o
ouvido, entre os apaixonados pelo "carrinho".
O
sucesso e o fim da produção
O
sucesso das iniciativas de Nordhoff, incluindo peças
de publicidade criativas e divertidas, somado ao charme
do "carrinho", acabou tornando o "Fusca"
o carro mais popular da história do automobilismo,
superando em 1972 o recorde do Ford modelo T, ao comemorar
a produção de 15 007 034 unidades.
Em
1973 ocorreu o auge da popularidade e produção,
com 1 250 000 unidades produzidas no ano. A partir de então,
a produção começou a cair, até
que a produção do carro foi encerrada no México
em 2003, registrando o recorde de 21.529.464 "Fuscas"
produzidos no total.
No
Brasil
O
primeiro Volkswagen brasileiro foi lançado em 1959,
obedecendo, com poucas modificações, ao do
projeto de Ferdinand Porsche, lançado na Alemanha
vintes anos antes.
A
Origem do nome Fusca está relacionada com a pronúncia
alemã da palavra Volkswagen. O som V em alemão
é FAU e o som do W é VÊ. Ao abreviar
a palavra Volkswagen para VW, os alemães falavam
fauvê. Logo que o Fusca foi lançado na Alemanha,
ficou comum a frase "Isto é um VW" ("Das
ist ein vw"). A abreviação alemã
fauvê logo se transforma em "fulque" e "fulca".
"Desde que começaram a circular os primeiros
Volkswagens, em 1950. também apareceu a corruptela
da palavra Volkswagen passando pela influência da
colônia alemã",-- explica Alexander Gromow
para o Jornal do Brasil de 07/08/1993 -- "Em Curitiba
se fala "fuqui" e em Porto Alegre é "fuca",
acrescenta Gromow. "Mas em São Paulo, talves
por uma questão de fonética, acrescentaram
o "S" na palavra e o Volkswagen virou Fusca."
Em 1967, a Volkswagen adota um motor de 1.3 no lugar do
antigo 1.2. Nas propagandas, apareciam os carros com uma
cauda de tigre saindo da traseira em alusão a maior
potência (44cv contra os antigos 36cv).
Vale
notar que durante esta época o Fusca gerou vários
derivados no mercado nacional, tais como o Vw 1600, o TL,
a Variant, o Karmann Ghia TC, o SP2, a Variant II, o Brasília
e o Gol
Em
1979, há uma alteração no modelo e
as lanternas traseiras passam a ser maiores, e passam a
ser chamadas "Fafá", em alusão aos
grandes seios da cantora Fafá de Belém.
Em
1983, a empresa resolveu rebatizar o modelo no Brasil, adotando
o nome que se tornara popular, Fusca. Até então
o automóvel era oficialmente denominado VW Sedan
nos registros dos Detrans.
A
Volkswagen desistiu de fabricá-lo em 1986, alegando
que era um modelo muito obsoleto.
Em
1993, por sugestão do presidente Itamar Franco a
empresa volta a fabricar o modelo. Itamar queria a fabricação
de carros populares, e sugeriu que o Brasil precisava de
um carro como o Fusca. Foi feita então a lei do carro
popular, que previa isenções de impostos para
os carros com motor 1.0, e o Fusca, embora fosse 1.6, foi
incluído.
A
empresa deixou de produzir o carro em 1996, com uma série
especial denominada série ouro. Nessa série
nova, foram produzidos cerca de 40.000 Fuscas apenas. |