O
mito
Tendo
morrido suas abelhas, Aristeu, criador da apicultura,
logo procurou sua mãe, a ninfa Cirene, no rio em
que esta vivia e lamentou a perda de sua preciosa criação
ao cobrar dela mais proteção frente a tais
fatalidades já que era seu filho.
Quem
ouviu as lamúrias de Aristeu foi uma das ninfas
de Ceres que se ocupava de cantar e contar histórias
para alegrar as outras que se detinham em ocupações
feminis de fiar e tecer.
Esta,
ao elevar a cabeça fora d'água, viu que
era Aristeu e foi logo comunicar o fato a sua ama. Cirene
logo ordenou que o filho fosse trazido junto de si, no
que o rio, cumprindo sua ordem, se abriu deixando passar
Aristeu aparado de ambos os lados pelas grandes colunas
de águas que se mantinham eretas. Aristeu, então,
desceu até à fonte do rio e quase ensurdeceu
tamanho era o barulho das águas que dali banhariam
toda a Terra.
Aristeu
foi recebido com iguarias das mais finas nos aposentos
de sua mãe e antes da refeição fizerem
libações a Netuno. Após deleitarem-se
com os manjares, Cirene se dirigiu ao filho e falou-lhe
de um velho e sábio profeta chamado Proteu que
morava no mar e era querido de Netuno cujo rebanho de
focas pastoreava. Proteu, conhecedor do passado, do presente
e do futuro poderia dizer a Aristeu a causa da mortalidade
de suas abelhas e como remediar o acontecido. E disse
mais: "Proteu não atenderá a seu pedido
de boa vontade, deves obrigá-lo pela força
apoderando-se dele e acorrentando-o com cadeias apertadas
das quais não será capaz de se livrar. Antes,
no entanto, o profeta recorrerá às suas
artes mudando de forma: em um javali, um tigre feroz,
um dragão cheio de escamas ou um leão de
amarela juba; produzirá também ruído
semelhante ao crepitar do fogo ou à água
corrente para que soltes suas cadeias quando então
fugirá". Bastaria, portanto, a Aristeu manter
Proteu preso fazendo este perceber a ineficácia
de seus artifícios, assim obedecendo às
ordens daquele.
Antes,
no entanto, de encaminhar seu filho ao encontro de Proteu,
Cirene perfumou seu filho com néctar, a bebida
dos deuses, ao que este imediatamente sentiu um vigor
desconhecido e grande coragem acompanhado de uma suave
fragrância.
A
ninfa então levou seu filho à gruta do profeta
ao meio dia, quando o sol estaria forte e os rebanhos
e os homens estariam a repousar. Deixou o filho e foi
logo esconder-se nas nuvens. Proteu, então, saiu
da água, seguido de seu rebanho de focas que se
espalharam pela praia, deitou-se no chão da gruta
e adormeceu. Aristeu rapidamente acorrentou-o e deu um
grito. Acordando e vendo-se preso às correntes,
Proteu logo começou a transmutar-se, primeiramente
numa fogueira, depois em água, depois em uma fera
terrível. Verificou, porém, que de nada
valeram seus esforços e dirigiu-se a Aristeu enfurecido:
"Quem és tu, jovem, que invades minha casa,
e o que desejas de mim?"
Aristeu
então disse que tivera ajuda divina e que Proteu
deveria cessar com seus artifícios, e que já
sabia quem era quem o acorrentava. Disse ainda: "Desejo
saber a causa de minha desgraça e o meio de remediá-la."
Proteu,
fixando um olhar penetrante aos olhos de Aristeu, dirigiu-lhe
a palavra: "És recompensado por teus atos,
os que fizeram Eurídice encontrar a morte, pois,
ao fugir de ti, ela pisou numa serpente que a mordeu e
assim a matou. Para vingar a sua morte, as ninfas, de
quem sois companheiro, lançaram a morte às
tuas abelhas. Deves apaziguar a ira das ninfas. Para tanto,
escolherás quatro touros de belo porte e quatro
vacas de igual beleza, construirá quatro altares
para as ninfas e neles sacrificará os animais,
deixando as carcaças no chão do bosque coberto
de folhas. Já para Orfeu e Eurídice, deverás
render homenagens fúnebres suficientes para aplacá-los.
Volta ao local em nove dias e veja o que acontece às
carcaças dos animais."
E
assim fez Aristeu. Sacrificou os animais, prestou honras
a Orfeu e Eurídice, e, voltando ao local dos sacrifícios
em nove dias, observou uma maravilha! Um enxame de abelhas
tomara posse das carcaças e trabalhava como numa
colméia.