Mas
o amor do pobre deus era definitivo. Desesperado, ele
se lança à perseguição da
ninfa, implorando, com gritos e prantos convulsos, que
lhe conceda um pouco de atenção. Impassível
às súplicas, Cila continua sua fuga. Tem
por objetivo esconder-se num lugar tão secreto
e inacessível que jamais o feio Glauco conseguiria
encontrá-la.
Depois
de inúteis buscas, o deus é obrigado a reconhecer
sua derrota. Apenas algum poder superior lhe facultaria
conquistar o afeto da formosa ninfa. Um poder como o de
Circe , a feiticeira. Abatido, torturado, Glauco dirige-se
para a ilha de Ea, onde morava a maga, e, entre suspiros
e lágrimas, roga-lhe que o ajude a conquistar a
tão amada ninfa.
Circe
promete atendê-lo. Entretanto, acaba enamorando-se
do feio deus. Não lhe importa o aspecto horrendo
de Glauco: sua riqueza de sentimentos fascina-a. A mesma
dolorosa peregrinação reinicia-se. Ao encalço
do amado, Circe põe-se a percorrer os mares, sem
descanso. Quando por fim seus encantos de mulher se revelam
insuficientes, ela recorre a seus poderes de feiticeira.
À sua habilidade de transformar pessoas em monstros.
E
decide fazer de Cila uma criatura tão horrenda
e repulsiva que todo o amor de Glauco haveria de mudar-se
em aversão. Sem ser vista, a maga derrama veneno
nas águas de uma fonte onde a ninfa costumava banhar-se.
Depois retorna para Ea e, ansiosa, aguarda pelos resultados.
Cila
mergulha na água enfeitiçada. O belo corpo
esguio começa lentamente a transformar-se. Monstros
horrendos surgem à sua volta, com ensurdecedor
alarido. A ninfa, amedrontada, procura fugir-lhes. Mas
eles estão sempre a seu lado. Então Cila
descobre: são parte de si mesma, nascem de seu
corpo. Desesperada corre ao encontro de Glauco e em seus
braços chora longamente. Ele também lamenta
a beleza perdida, mas recusa-se a permanecer com a antiga
ninfa.
O
grande amor não existe mais. Cila retira-se para
longe. Vai viver no estreito da Sicília, aterrorizando
os mortais que antes a cortejavam, deslumbrados com sua
extraordinária beleza. Na ilha de Ea, Circe inutilmente
espera o retorno de Glauco. Revoltado com sua traição
e crueldade, o pobre deus jamais quis visitá-la.
E passou toda a existência cultivando a lembrança
de uma ninfa bela e doce, que um dia se perdeu nos feitiços
do ciúme.