Io,
ligeiramente maior que a Lua, é também a
quarta maior lua do sistema solar, logo a seguir a Ganímedes,
Titã e Calisto (esta última e Ganímedes
são também luas de Galileu em Júpiter).
Mesmo
com o seu tamanho algo modesto e apesar de estar localizada
num local frio do sistema solar, Io é descrita
como o que mais se aproxima do conceito de inferno em
todo o sistema solar, já que é o local com
maior actividade vulcânica do Sistema Solar. Os
seus vulcões chegam a atingir temperaturas à
volta dos 1700 graus Celsius, logo, mais quentes que os
vulcões da Terra (acredita-se que também
os vulcões dos primórdios da Terra atingissem
temperaturas semelhantes).
Aliada
à maior concentração vulcânica
do sistema solar, a libertação de compostos
de enxofre durante as erupções confere a
Io a aparência de um mundo de diferentes cores:
branco, vermelho, laranja, amarelo e preto. Outra consequência
desta actividade vulcânica consiste na expulsão
de matéria e gases que se afastam para centenas
de quilómetros de altura. Devido à fraca
gravidade, alguma dessa matéria escapa para o espaço,
formando um toro em redor de Júpiter.
Mitologia
O nome desta lua provém de Io, uma das paixões
de Zeus (que corresponde ao deus romano Júpiter),
segundo a mitologia grega . Apesar do nome ter sido sugerido
pela primeira vez por Simon Marius, só no século
XX é que o seu uso tornou-se corrente. Até
então era conhecida pela denominação,
em numeração romana, Júpiter I.
Na
mitologia, Io era uma ninfa (ou princesa, segundo outras
versões) por quem Zeus (Júpiter) se apaixonou.
O deus metamorfoseou-a em vaca para a proteger dos ciúmes
de Hera (Juno na mitologia romana), a mulher de Zeus.
Hera encarregou, então, o boieiro Argo de vigiá-la.
Zeus ordenou Hermes (Mercúrio) a subtrair Io da
vigilância de Argo. Hermes só o conseguiu
depois de ter adormecido Argo ao som da flauta de Pã,
matando-o de seguida. Hera deu à sua ave consagrada,
o Pavão, os cem olhos de Argo para que o fantasma
do boieiro continuasse a perseguir a virgem-novilha Io.
História
de observação e exploração
A
lua Io foi descoberta a 7 de Janeiro de 1610 por Galileu
através da sua luneta. Io apresenta-se no céu
nocturno com 5,0 de magnitude.
Contudo,
alguns autores defendem que a descoberta se deveu a Simon
Marius. Este publicou os resultados das suas observações
no seu trabalho de 1614 «Mundus Jovialis»,
onde revela que teria descoberto as luas uma semana antes
de Galileu, no final de 1609. Galileu duvidou desses factos
e catalogou o trabalho de Marius como plágio.
Em meados do século XX, observações
feitas sugeriram que as regiões polares de Io eram
avermelhadas. Com a passagem das sondas Pioneer, na década
de 1970, pouco se descobriu sobre Io. A Pioneer 10 não
conseguiu obter nenhuma imagem devido à radiação
de Júpiter. Mas, com a Pioneer 11, conseguiu-se
uma imagem adequada em que se verificava que a região
polar se apresentava de cor alaranjada, contrastando com
equador esbranquiçado. Nesta altura, já
se sabia que Io tinha atmosfera, se bem que pouco densa.
Nas
observações feitas a partir da Terra, os
astrónomos verificaram que Io tinha algumas características
insólitas. Em 1974 notou-se que Io estava rodeada
de uma neblina amarelada, composta de átomos de
Sódio. De facto, parecia viajar através
de uma ténue neblina (o Toro de Plasma de Io) que
cobria a sua órbita cercando Júpiter. Presumia-se
na altura que Io fosse a fonte dessa neblina, se bem que
ninguém conseguisse explicar qual a sua causa.
Quando
a sonda Voyager 1 enviou as primeiras imagens, nas proximidades
de Io, em 1979, os cientistas esperavam encontrar numerosas
crateras. Contrariamente a todas as expectativas, Io quase
que não tinha crateras. Na verdade, possuía
uma superfície ainda jovem causada pela intensa
actividade vulcânica que cobriu quase por completo
os sinais quaisquer crateras. A Voyager 1 conseguiu observar
nove vulcões activos na superfície; mais
tarde, a Voyager 2 observou oito dos nove em actividade,
verificando-se que o maior dos vulcões estava inactivo.
A
surpresa devida à descoberta de vulcões
activos despertou o interesse da cultura popular por esta
lua, que passou a ser referida em livros, filmes, jogos
ou vídeos de música. É descrito em
obras de ficção cientifica como «2010:
Odyssey Two» de Arthur C. Clarke (1984) ou no filme
Outland de 1981.
A
8 de fevereiro de 1992, a sonda Ulysses usou a gravidade
de Júpiter para poder explorar os pólos
do Sol. A Ulysses estudou o Toro de Plasma de Io que circunda
Júpiter, verificando, também, uma diminuição
na quantidade de vulcões em erupção.
Depois
de ter chegado a Júpiter em 1995, só no
final de 1999 é que a sonda Galileo sobrevoou Io,
devido à proximidade da lua a Júpiter. Assim
a aproximação a Io foi guardada para mais
tarde na missão. A Galileo aproximou-se mais do
que qualquer sonda, tirou melhores fotografias, observou
vulcões em erupção e permitiu a descoberta
de que Io tem um grande núcleo de ferro, tal como
os planetas telúricos do sistema solar interior.
Geologia planetária
Io possui um diâmetro médio de 3642,6 km
e tem uma densidade relativamente alta de cerca de 3,56
g/cm3. Assim, tem uma densidade um pouco maior e um diâmetro
também pouco maior que a Lua.
Diferentemente
das luas do sistema solar exterior, Io apresenta grandes
semelhanças com os planetas telúricos, como
a Terra, onde as rochas de silicatos são predominantes.
Os dados da sonda Galileo sugerem que Io tem um núcleo
de 900 km de diâmetro constituído por ferro
e, possivelmente, com porções de pirita.
Este
pequeno mundo tem uma luminosidade considerável,
proveniente de alguns lagos incandescentes devido às
altas temperaturas, mas a maioria dessa luminosidade provém
de descargas eléctricas entre Júpiter e
Io.
Ao
contrário das outras luas de Galileu, Io tem pouca
ou nenhuma água. Isto acontece provavelmente porque,
no início do sistema solar, Júpiter era
quente o suficiente para afastar os elementos voláteis
junto à sua superfície (o que inclui Io),
mas não para fazer o mesmo com as outras luas.
Topografia
geral
A
superfície ioniana está coberta por manchas
brancas, vermelhas, cor-de-laranja, amarelas e negras,
cores que têm origem na matéria sulfurosa
(enxofre e dióxido de enxofre sólidos) a
diferentes temperaturas libertada pela erupção
azul dos seus vulcões. A região equatorial
de Io é de tons laranja-escuro; os pólos
são mais escuros e avermelhados.
Existem
montanhas escarpadas de origem não vulcânica
com vários quilómetros de altura, planaltos
formados por materiais em camada, e muitas caldeiras com
aspecto irregular. Várias das formações
negras correspondem a pontos quentes e podem ser lava
a fluir. Não existem muitas crateras de impacto,
dado que os depósitos vulcânicos cobrem a
superfície mais rapidamente que o número
de grandes crateras causadas por asteróides e cometas.
Actividade
vulcânica extrema
Esta
intensa actividade vulcânica eliminou da superfície
qualquer rasto de gelo, como seria de esperar num satélite
de Júpiter. Da mesma forma que os vulcões
da Terra, os vulcões ionianos emitem enxofre e
dióxido de enxofre. Originalmente, julgava-se que
as correntes de lava eram constituídas por substâncias
sulfurosas. Contudo, hoje pensa-se que são silicatos
rochosos derretidos, tal como acontece, também,
na Terra. A Galileo detectou mais de cem vulcões
em erupção, e especula-se que deverão
existir pelo menos trezentos.
A
energia para este vulcanismo deriva de efeitos de maré
gerados pela interacção de Io, Júpiter,
Europa e Ganímedes. As três luas encontram-se
em ressonância orbital (ressonância de Lapace),
de modo que Io orbita duas vezes por cada órbita
de Europa que, por sua vez, orbita duas vezes por cada
órbita de Ganímedes; além disso,
Io mantém sempre a mesma face virada para Júpiter.
A interacção gravitacional de Europa, Ganímedes
e Júpiter, obriga o diâmetro de Io a sofrer
constantes variações (cerca de 100 metros),
num processo que gera calor através de fricção
interna.
O
maior complexo vulcânico é Ra Patera, que
possui correntes de lava de 200 km de comprimento e uma
caldeira de 50 km de diâmetro. Nas imagens da Voyager
1, o vulcão tinha um contorno em forma de coração,
mas que se apresentava perfeitamente oval nas imagens
da Voyager 2, o que revela a incrível variedade
e variação das características da
superfície.
A
pluma de erupção do vulcão Pele,
em erupção aquando a voyager 2 alcançou
este indescritível mundo, subia cerca de 275 km,
quatro meses depois da passagem da Voyager 1. Pele é,
também, a formação mais característica
desta lua.
Loki
é o centro vulcânico mais poderoso do sistema
solar e estava activo aquando da passagem da Voyager 1,
mostrando-se inactivo quando a Voyager 2 sobrevoou Io.
Loki emite mais calor que todos os vulcões da Terra
combinados. Prometeu é outro centro eruptivo significativo
em Io. Muitos destes vulcões são cercados
por «halos» circulares toscos, presumivelmente
de matéria ejectada. São também visíveis
correntes de lava nas imagens captadas.
A ausência de crateras, havendo registo de treze
estruturas de impacto e 78 prováveis, sugere que
a superfície seja regenerada por depósitos
vulcânicos a cada período de um milhão
de anos. As matérias expelidas dos vulcões
em actividade escorrem ao longo das vertentes das montanhas
vulcânicas elevando-se em jactos imensos para voltarem
a cair sobre a paisagem policromática, cobrindo
desse modo antigas crateras abertas pelo impacto de meteoritos.
Algumas
das plumas vulcânicas com material ejectado da superfície
de Io foram expelidas até mais de 300 km da superfície
antes de voltarem a cair de volta, a uma velocidade de
cerca um quilómetro por segundo. Os gases expelidos
são lançados a velocidades de 1500 a 3200
quilómetros por hora e as nuvens de cinza até
150 a 300 quilómetros de altura.
Tvashtar
é uma cadeia de crateras vulcânicas que ficou
conhecida depois de uma erupção de uma pluma
vulcânica gigantesca. A pluma de erupção
atingiu 385 km de altura e cobriu 700 km de terreno circundante.
Tvashtar entrou em erupção de várias
formas ao longo de quase dois anos: uma cortina de lava
com 50 km na patera central; um gigantesco rio de lava
ou uma erupção de um lago de lava na patera
gigante da esquerda; e uma erupção de uma
pluma gigante que se julgava que alteraria a topografia
regional, mas que só fez alterações
a nível local.
Em
fevereiro de 2001, as maiores erupções vulcânicas
já registadas no sistema solar tiveram lugar em
Io.
De
notar que os vulcões ionianos não produzem
montanhas vulcânicas. A lava é bastante fluída
e forma pequenos montes levemente inclinados chamados
de vulcões-escudo.
Lagos
e fontes de lava
As
caldeiras ionianas são circulares, profundas e
tendem a ser maiores que as encontradas na Terra. Muitas
destas caldeiras têm material escuro líquido
no seu interior, indicando a presença de lava muito
quente e recentemente expelida.
Acredita-se
que a caldeira de Pele contém lava líquida
coberta por uma crusta arrefecida de lava flutuante. Este
lago de lava está confinado à zona escura
da caldeira que cobre uma área de cerca de 15 por
19 quilómetros.
Loki
possui uma caldeira enorme e continuamente inundada de
lava. As altas temperaturas registadas na parte ocidental
da caldeira levam a acreditar que Loki também seja
um lago de lava activo com material derretido debaixo
de uma crusta.
As
pateras são centros vulcânicos semelhantes
a caldeiras, mas diferentes dos que são encontrados
na Terra ou no resto do Sistema Solar. Observações
feitas pelas sondas indicam que estes centros vulcânicos
podem ter origem em fracturas e movimentos da crusta.
Chaac Patera é um desses centros e tem cerca de
2,8 km de profundidade, ou seja, o dobro do Grand Canyon
nos Estados Unidos.
As
fontes de lava são originadas a partir de material
eruptivo ejectado a partir de uma fissura e encontram-se
na região de Tvashtar. Esta fonte atira matéria
derretida a 1,5 km de altura produzindo um espectáculo
visual luminoso e escaldante já que pode atingir
1327º Celsius.
Atmosfera
e clima
A
fina atmosfera de Io é composta por dióxido
de enxofre (SO2) e vestígios de outros gases. As
sondas Pioneer demonstraram que Io possui uma atmosfera
pouco espessa, com uma densidade de cerca 1/20 000 da
Terra, apesar das grandes quantidades de gás ejectado
pelos vários vulcões. A gravidade é
tão baixa que a sua atmosfera se escapa, quase
na sua totalidade, para o Espaço, tendo, ainda
assim, 120 km de altura.
Estudos
mostram que as regiões mais quentes, cobertas por
fluxos de lava, alcançam temperaturas até
1727º Celsius; no entanto a temperatura média
nesses locais é de cerca de 27 graus. Apesar disso,
as temperaturas médias globais são muito
mais frias, à volta dos 143 graus negativos. À
noite, a temperatura desce até aos -184 graus,
de tal modo que o SO2 se deve condensar para formar uma
espécie de geleia branca.
Para
um mundo tão infernal, as temperaturas médias
são muito baixas, isto deve-se à atmosfera
ténue que não consegue reter o calor do
sol e dos seus vulcões. Assim que os gases são
expelidos dos vulcões estes imediatamente começam
a congelar e condensar.
A
ionosfera, a 700 km de altura, é constituída
por iões de enxofre, oxigénio e sódio
e é constantemente renovada pela actividade vulcânica,
para que a perda de partículas seja compensada
devido à influência da magnetosfera de Júpiter,
logo equilibrando-a.
A
nuvem de sódio que é formada é a
mais facilmente visível, apesar da sua origem ser
desconhecida, dado que não foi detectado sódio
na superfície de Io
Outra fonte para a energia de Io deve-se à sua
passagem pelas linhas do campo magnético de Júpiter,
gerando uma corrente eléctrica. Apesar de não
ser uma fonte significativa quando comparada com o aquecimento
por efeito de marés, pode originar mais de 1000
gigawatts com um potencial de 400 kilovolts, retirando
cerca de mil quilogramas por segundo de átomos
ionizados da atmosfera de Io.
Devido
à rápida rotação do campo
magnético de Júpiter, essas partículas
formam um toro de radiação intensa, à
volta de Júpiter, que brilha intensivamente em
luz ultravioleta. As partículas que escapam deste
toro são parcialmente responsáveis pela
invulgar e grande magnetosfera de Júpiter. Dados
recentes da Galileo mostram que Io pode ter o seu próprio
campo magnético.
A
localização de Io em relação
à Terra e a Júpiter tem influência
significativa nas emissões de rádio jovianas
vistas da Terra: Quando Io está visível,
os sinais de rádio de Júpiter aumentam significativamente.
Como foi detectada a presença de cloro, pensa-se
que o cloreto de sódio (o sal de mesa) possa existir
em Io e que este possa ter alguma influência no
vulcanismo extremo observado nesta lua.
A
origem do sal também não é conhecida,
mas pensa-se possa ser o resultado de reacções
químicas na atmosfera ou até existir em
rios subterrâneos que alimentem os vulcões
que por sua vez transportam esse sal dissolvido.
Vida
em Io
Io
é muito diferente das outras três grandes
luas de Júpiter, dado possuir vulcões e
uma superfície rica em enxofre, dando-lhe um aspecto
único e colorido.
Apesar
de Io ter uma atmosfera, e possuir actividade vulcânica
que pode aquecer a superfície, o ambiente em Io
é extremamente hostil para albergar a vida tal
qual a conhecemos na Terra. A gravidade é demasiadamente
baixa, e a atmosfera escapa-se para o espaço. Esta
só existe devido à actividade contínua
dos seus vulcões. As temperaturas variam do extremamente
quente para o extremamente frio devido à inexistência
de uma atmosfera consistente.
No
entanto, a sonda Galileo descobriu o que parece ser gelo
hídrico entre as luas e a atmosfera de Júpiter,
que poderiam aumentar a probabilidade de ser encontrada
vida em Io, Europa, Calisto e Ganímedes já
que a água líquida, energia e atmosfera
são elementos que podem propiciar a existência
de vida.