Augustinologia,
ou Agostinologia é o estudo da vida
e pensamento de Agostinho de Hipona.
A situação política da África
na era pré-agostiniana
Para
entendermos a situação africana no período
pré-agostiniano, mister se faz partir da situação
geral do Império Romano, sobretudo, e de modo particular,
da influência do trono imperial.
A
vida imperial
O
Império Romano assistiu a dois períodos
fortes e antagônicos: o Alto Império (27
a.C. a 235 d.C.) e o período da decadência,
chamado Baixo Império, que vai de 235 d.C. até
a queda do Império, que já se encontrava
dividido: o do Ocidente findou-se em 476 e o do Oriente
em época mais recente (1453) com a queda de Constantinopla
dominada pelos muçulmanos. Agostinho (de Hipona)
viveu, portanto, no período correspondente ao Baixo
Império; período este marcado principalmente
pela luta incansável, desleal e insubordinada ao
poder do trono. Todo o Império estava à
mercê dos caprichos e ordens do Imperador.
Aureolado
de um prestígio religioso, o Imperador era onipotente
- pelo menos até que um usurpador o derrubasse
- e governava por meio de uma corte rodeada de privilégios,
no meio de uma burocracia militarizada e hierarquizada,
de extraordinária complexidade. Economia planejada,
fábricas estatais, sindicalismo obrigatório,
castas hereditárias, fiscalização
extrema, justiça feroz e, como se vivia sob uma
contínua ameaça de conspirações,
polícia secreta. Quantas vezes, na biografia de
santo Agostinho, aparece a figura inquietante dos agentes
in rebus, termo que os humanistas traduziram ingenuamente
por "encarregados de negócios". Não
nos enganemos: tratava-se, sem dúvida, de um tipo
de polícia secreta. Vivia-se, então, num
mundo de terror: a equipe que detinha o poder encarnava
uma potência absoluta, até que esta começou
a se dissolver. Aí se produziu o grande processo
de traição, cuja repressão alcançou
milhares de inocentes. Permanentemente gravitava sobre
todos a ameaça da ruína, da prisão,
da tortura e da morte. Bastava um pequeno atraso no pagamento
dos impostos.
Esta
pesada máquina, cujos benefícios não
se pode negar, no Oriente conseguiu se manter até
o ano de 1453; mas no Ocidente logo começou a se
desmoronar, principalmente sob as pressões de sublevações
internas - Bagaudes, nas Gálias e Circunceliões,
na África de Agostinho -, como também as
invasões bárbaras nas fronteiras.
África:
província romana
Desde
o ano 148 a.C. (ano 608 de Roma), quando os romanos conquistaram
Cartago, após muitos anos do delenda est Carthago!
(Cartago deve ser destruída!) de Catão,
o Censor, toda aquela região da África passou
a ser romanizada. Catão, estadista romano, depois
que viu Cartago, terminava sempre os seus discursos no
Senado com este refrão: Além disso, penso
que é preciso destruir Cartago!
Cartago
havia sido fundada séculos atrás pelos fenícios,
e havia atingido grande grau de destaque político,
social, mercantil e econômico. Com a sua destruição
e conseqüente domínio romano, passou pouco
a pouco a ser influenciada mais diretamente pela cultura
e pragmatismo, pelas qualidades, valores e vícios
dos romanos.
A
cultura romana dava uma tônica marcante na vida
da classe média e baixa do norte da África.
Mesmo a língua latina foi se difundindo no meio
mais social e nobre. A história desta região
da África passou a acompanhar a história
de Roma.
Entre
as principais cidades da África romanizada, encontramos
Cartago e Hipona, cidades-cenário da vida de santo
Agostinho, sendo Tagaste sua terra natal, uma cidade da
Província de Numídia.
A
África foi uma das províncias mais romanizadas
das que constituiam o Império Romano. O geógrafo
Estrabão nos traz uma lista de 300 cidades, colônias
e municípios só no território de
Cartago. Contudo, mesmo com a África sob o domínio
romano, por muito tempo persistiu a população
fenícia e númida e a língua oficial
africana no século V d.C. era a púnica.
Os númidas eram um povo forte e estavam apenas
submetidos aos romanos.
A
vida provincial africana
Com
o início do período da decadência,
Roma passou a ser a capital parcial da política,
intelectualidade e comércio. A importância
de cada província ia crescendo pouco a pouco, e
a África passou a ser um dos pontos fortes do Império,
pricipalmente em termos financeiros. Mesmo contando com
os piores imperadores, a África passou por um período
de grande prosperidade. Esse fato era de um enorme interesse
para os detentores do poder. A África contava com
28 províncias nitidamente prósperas, contando,
em especial, com o favorecimento da exploração
agrícola pelos imperadores. As culturas mais rendosas
eram a vinha e a oliveira. Mas essa prosperidade não
durou muito tempo. A causa disso veio de fora das províncias:
o abatimento e a miséria foram agravando-se com
o propósito de fornecer mantimentos para os exércitos
que começavam a ter que defender o Império
Ocidental contra as invasões dos ostrogodos, visigodos,
germanos, hunos, além de outros, principalmente
no noroeste da atual Europa. Soma-se tudo isso à
manutenção dos empregados e dos próprios
imperadores mordomizados. A conseqüência da
miséria residia principalmente nos altos impostos
que terminaram por ocasionar o abandono das terras, causar
motins, insurreições, descontentamentos
e guerras civis. Os que não pagavam impostos, ou
simplesmente os atrasavam um pouco, sofriam a ameaça
de ficar sem as terras, serem presos, torturados e até
mortos. No início do século I, com a vinda
e a vida de Jesus Cristo (veja o verdadeiro nome em Yeshua),
a tendência do ateísmo foi desaparecer. Posteriormente,
os peregrinos e sacerdotes deram continuidade ao ideal
de Cristo, que consistia num estilo de vida igual tanto
para o povo em geral quanto para a aristocracia.
Cronologia:
algumas datas significativas
De
Nero a Constâncio II
64
Nero acusa os cristãos de incendiarem Roma
67
Morte dos Apóstolos são Pedro e são
Paulo
312
Vitória de Constantino sobre Magêncio
313
Edito de Milão concedendo liberdade social para
os cristãos e tornando o cristianismo religião
oficial do Império Romano Ocidental.
325
Concílio de Nicéia, cujo objetivo é
restabelecer, na Igreja, a paz perturbada pelo arianismo.
337
Morte de Constantino, o grande; o Império é
dividido.
340
Primeira guerra entre os irmãos Constantino II
(Império Ocidental) e Constantino (Itália-Ilíria).
Morte do primeiro.
350
O exército, insatisfeito com Constantino proclama
Magêncio Imperador da Gália. Constantino
foge e morre. No Danúbio, o exército proclama
Vetrano Imperador da Ilíria. Guerra civil. Constâncio
chama os germanos que penetram na Gália. Magêncio,
traído, suicida-se em Lyon. Surge a primeira versão
gótica da Bíblia, feita por Ulfila.
353
Constâncio II, único Imperador, morre sem
descendência. Galo e Juliano, o apóstata,
são nomeados cônsules. Galo vai ao Oriente
e lá é decapitado. Juliano luta na Gália.
Do
nascimento ao batismo de Agostinho
354
Nasce em Tagaste, Numídia, Agostinho, um dos maiores
expoentes do pensamento cristão.
355
Francos, alemães e saxões invadem a Gália.
356
Vitória de Juliano sobre os alemães.
360
Juliano, o Apóstata, é proclamado Imperador
em Paris, rebelando-se contra Constâncio. Morre
inesperadamente Constâncio II. Juliano torna-se
dono do Império. Agostinho está com seis
anos de idade.
363
Depois de uma política anticristã de Juliano,
durante os anos 361-362, na qual é revitalizado
o culto pagão por decretos do mesmo Imperador,
este é vencido e morto pelos persas na Mesopotâmia.
Joviano, escolhido pelo exército, o substitui por
um breve período de 8 meses. Sendo cristão,
devolve todos os direitos aos cristãos.
364
Valentiniano, oficial da guarda, é eleito Imperador
em Nicéia. Valente, seu irmão, é
nomeado Augusto, mas fica no Oriente, enquanto Valentiniano
fica no Ocidente. Nova invasão dos alemães
na Gália. Valentiniano os faz recuar. Escoceses
e vikings penetram na bretanha romana. Agostinho está
com 10 anos. Na África, subleva-se um movimento.
Teodósio domina a rebelião. A África
é tomada por lutas religiosas.
365
Usurpação de Procópio (Constantinopla).
Luta com Valente. Traição dos oficiais.
Agostinho com 11 anos, vai estudar em Madaura.
369
Agostinho com 15-16 anos, volta a viver em Tagaste, onde
passa um ano na ociosidade por falta de recursos para
continuar os estudos.
370
Com a ajuda de Romaniano, Agostinho estuda em Cartago.
Curso superior.
371
Guerra contra os godos. Grandes processos e movimentos.
Repressão da Magia no Oriente.
372-375
Firmus, chefe berbere rebela-se na África.
372
Agostinho está com 18 anos. Nasce seu filho Adeodato.
Logo após descobre a filosofia lendo Ortensius
de Cícero. Depois, entra no maniqueísmo.
373
Agostinho com 19 anos leciona em Tagaste. santo Ambrósio
torna-se bispo de Milão.
374
Os hunos passam o Volga, avançando para o Ocidente.
Agostinho, com 20 anos, leciona Retórica em Cartago.
375
Morte de Valentiniano. Sucede-lhe Graciano (com apenas
16 anos). Reside em Tréveris. Valentiniano II,
irmão de criação de Graciano, reside
em Milão. Sua mãe, Justina, é a Regente.
Inauguram-se as grandes invasões: germanos passam
o Danúbio; hunos vêm do centro da Ásia
e atravessam os reinos ostrogodos; os visigodos entram
no Império (Trácia); os alemães entram
pela Gália. Agostinho (21 anos), com a ajuda de
seu amigo Romaniano, abre uma escola de Retórica.
378
Valente morre em luta com os godos em Andrinópolis.
Agostinho completa 24 anos.
379
Teodósio, general espanhol, empossado como Augusto,
no Oriente, por Graciano. Pacifica os godos que passam
a morar "federados" ao Império (Panônia).
380
O edito de Teodósio torna o cristianismo a religião
oficial do Império Romano do Oriente.
381
Concílio Universal de Constantinopla, convocado
por Teodósio e que completou o Símbolo de
Nicéia.
383
Máximo, governador espanhol da Bretanha (usurpador)
contra Graciano, que foge, mas é logo assassinado.
Máximo torna-se dono da Gália, Espanha e
Bretanha. Valentiniano apóia os arianos. Entra
Máximo na Itália. Valentiniano II foge.
Agostinho, aos 29 anos, abandona o maniqueísmo
e leciona em Roma.
384
Agostinho (30 anos) é professor em Milão.
São Jerônimo começa a tradução
da Bíblia para o latim, tradicionalmente conhecida
como Vulgata.
386
Teodósio repele os godos no Danúbio. Agostinho,
com cerca de 32 anos, descobre o neoplatonismo; lê
as cartas de Paulo de Tarso (são Paulo); converte-se
ao cristianismo, demite-se do cargo de professor e vai
para Cassicíaco, onde escreve Contra acadêmicos,
De beata vita, De ordine e Soliloquiorum. Em Milão,
antes do batismo, escreve De inmortalitate animae e Disciplinarum
libri.
387
Agostinho, antes ainda de completar 33 anos, no dia 25
de abril recebe o batismo, junto com Alípio e Adeodato.
Parte para Roma, onde morre sua mãe Mônica.
Permanece em Roma 10 meses (até julho ou agosto
de 388). Em Roma escreve De quantitate animae e inicia
o De libero arbitrio.
Início
da vida monacal agostiniana
388
Derrota de Máximo em Aquilea. Casamento de Teodósio
com Gala, irmã de Valentiniano II. Estabelecimento
deste na Gália, que recebe também o franco
Arbogastro como conselheiro. Agostinho (+- aos 34 anos)
parte para a África e começa uma vida monástica
em Tagaste. Aí escreve De musica, De magistro,
De vera religione.
388
ou 389 Morte de Adeodato, filho de Agostinho, com 16 ou
17 anos de idade.
390
Conflito entre Santo Ambrósio e Teodósio
391
Agostinho, com 37 anos, por aclamação popular
torna-se presbítero de Hipona.
392
Morre Valentiniano II. Arbogastro coloca Eugênio
no trono. Este, dotado de caráter religioso, favorece
o paganismo. Agostinho polemiza com o maniqueu Fortunato.
393
Sínodo de Hipona: Agostinho explana aos bispos
a fé e o Símbolo.
394
Teodósio declara guerra a Eugênio. Vitória
de Teodósio em Milão. Eugênio é
preso e executado. Arbogastro comete o suicídio.
Teodósio, senhor absoluto do Império. Os
jogos olímpicos são suprimidos.
395
Morre Teodósio em Milão. O Império
é dividido: Oriente (Arcádio) e Ocidente
(Honório). O velho eunuco Eutrópio domina
Arcádio; o germano Estilicão domina Honório.
Agostinho (395 ou 396), com 41 ou 42 anos, torna-se BISPO
auxiliar de Valério, em Hipona.
396
Os visigodos na Ilíria (Alarico - Estilicão).
397
Agostinho, já bispo titular de Hipona, assiste
a um concílio de Cartago.
397
ou 398 Redige as Confissões.
398
Controvérsias de Agostinho com Fortunato (bispo
donatista) e com Félix (maniqueu) a quem converte.
399
Os vândalos (alanos, suevos, burgúndios)
entram na Gália.
De
Trinitate e Cidade de Deus
399-422
Agostinho redige De Trinitate.
400
Os hunos atingem o Elba.
401
Agostinho assiste a um concílio em Cartago. Luta
contra os donatistas.
407
Invasão da Gália pelos vândalos e
suevos.
408
Os saxões entram na Bretanha.
409
Vândalos na Espanha. Estilicão é assassinado.
Pelágio em Cartago.
410
Alarico, rei visigodo, invade e conquista Roma.
411
Conferência de Cartago entre donatistas e católicos.
Triunfo de Agostinho.
413
Agostinho começa a redigir Cidade de Deus.
414
Ataulfo, sucessor de Alarico, casa-se com Gala Placídia,
irmã de criação de Honório.
416
Agostinho assiste ao concílio de Milevi contra
os pelagianos.
417
Paulus Orosius, discípulo de Agostinho, publica
sua Historia Universalis.
415-455
Valentiniano III, Imperador do Ocidente.
426
Agostinho conclui a Cidade de Deus. Nomeia Heráclio
para bispo auxiliar a quem delega grande parte de suas
funções eclesiásticas.
427
Vândalos na África, chamados por Bonifácio.
Rebelião na África do Conde Bonifácio,
amigo de Agostinho.
Morte
de Agostinho e queda de Roma
430
Vândalos fazem cerco a Hipona. Agostinho falece
aos 28 de agosto, com 76 anos de idade.
431
Concílio Universal de Éfeso: em Cristo só
há uma pessoa e duas naturezas; a Virgem Maria
é verdadeiramente mãe de Deus.
452
Átila, o "Flagelo de Deus", rei dos hunos,
invade Roma.
455
Roma é saqueada pelos vândalos, chamados
da África.
476
Odoacro, caudilho germano, invade Roma.
Como
pudemos ver, o Império Romano, após Diocleciano
(284-305) e Constantino (306-337) foi se quebrantando
pelas invasões dos bárbaros e pelas anarquias
internas. É o Baixo Império o mais antigo
dos estados totalitários. Agostinho viveu, portanto,
em tempos de grandes catástrofes políticas
e sociais, como também religiosas. Na sua infância,
conviveu com as convulsões do Império e,
já na sua idade adulta viu, a 24 de agosto de 410,
Roma desmoronar-se diante da força dos visigodos
de Alarico. As repercussões não foram apenas
políticas, mas fez o santo meditar profundamente
sobre o sentido da queda do mundo civilizado que se acreditava
eterno. À base das reflexões sobre a queda
de Roma, Agostinho escreveu uma de suas obras mestras:
os 22 livros da Cidade de Deus.
África
cristã
Os
romanos, vencida Cartago, cerca do ano 148 a.C., começam
uma prodigiosa transformação no norte da
África, traçando uma ampla rede de estradas,
contruindo cidades, erigindo cidades, vilas, promovendo
a agricultura, difundindo por toda parte a cultura, o
comércio e o bem estar. Agostinho chama-se a si
mesmo de africano. Falando de Apuleio: "qui nobis
Afris Afer est notior" (que, como africano, é
mais conhecido por nós africanos: Ep. 138,19);
de Ponticiano: "civis noster in quantum Afer"
(nosso concidadão enquanto africano: Conf. 8,6.14);
de Máximo de Madaura: "homo Afer scribens
Afris, cum simus utrique in Africa constituti..."
(um homem africano escrevendo aos africanos, já
que ambos estejamos redicados na África: Ep. 17,12).
Quando, mais tarde, Juliano lhe dá, por zombaria,
o apelido de púnico, Agostinho não o recusa,
mas faz referências honrosas ao púnico Cipriano
e admoesta ao adversário que aos adversários
se vencem com a razão, não com a raça;
Juliano era italiano da Púglia (Op. Imp. C. Jul.
1,7; 6,18).
Origens
do cristianismo na África
Muito
se discute se a origem do cristianismo na África
é apostólica. Parece mais provável
que tenha sido evangelizada por Roma, conforme as seguintes
primeiras notícias da Igreja africana:
-
"Atas de Santas Perpétua e Felicidade".
Igreja já organizada (ano 180). - Mártires
escilitanos e de Madaura: os escilitanos foram decapitados
em Cartago por haverem confessado ser cristãos
durante a quinta perseguição geral que começou
no ano 202, ordenada por Septímio Severo. Seus
nomes são: Esparato, Narzalo, Citino, Vetúrio,
Félix, Acilino, Letâncio, Januária,
Vestina, Donata e Segunda. O cristianismo teve acesso
fácil numa sociedade romanizada e dominada.
Mártires
e Santos
Foram
sempre a glória da Igreja africana. "Africa
sanctorum martirum corporibus plena est" (A África
está cheia de corpos de santos - S. Agostinho?).
Vários santos marcaram profundamente com suas vidas
a história da Igreja:
São
Cipriano
Bispo
e Mártir, um dos mais ilustres Padres da Igreja
latina, nascido provavelmente em Cartago nos princípios
do século III e morto em 258. Descendente de uma
nobre família senatorial, recebeu uma bela educação,
e ensinou brilhantemente a Retórica. Aos 35 anos
de idade foi convertido ao cristianismo por um padre de
Cartago. Recebeu o batismo em 246. Vendidas por ele suas
propiedades, distribuiu toda a renda aos pobres, retirou-se
para o isolamento e aí se consagrou ao estudo das
Escrituras e dos autores sagrados, principalmente os esclesiásticos,
dentre os quais, de maneira especial, Tertuliano. Quando
do falecimento de Donato, bispo de Cartago, o povo compeliu-o
a aceitar o episcopado (248). Não pode evitar um
cisma provocado por Fortunato, Feliciano e Novato.
Optato
Sobre
este santo não temos referência nenhuma.
Se alguém a possui, solicitamos que a apresente
para enriquecer nosso estudo.
Tertuliano
O
mais antigo e, logo abaixo de S. Agostinho, o maior dos
antigos escritores eclesiásticos do Ocidente; criador
da literatura cristã em latim. Nasceu em Cartago
por volta do ano 150, de boa família (o pai era
centurio proconsularis). Recebeu excelente educação
e instrução em quase todos os ramos das
ciências e da cultura: grego, latim, retórica,
direito, etc. Converteu-se ao cristianismo já em
idade avançada. Depois caiu na heresia do montanismo,
seita muito severa e puritana. Morreu cerca do ano 255.
Religião
oficial
O
cristianismo da África naquele tempo era um cristianismo
vigoroso. Os pagãos muitas vezes povocavam confusão
e atritos (cf. S. Agostinho, Ep. 91; 93). Havia, por outro
lado, muitos costumes pagãos religiosos e políticos
difundidos no meio do povo. Houve decretos imperiais contra
os templos e ídolos pagãos:
-
Constâncio: em 341, 342 e 354; - Graciano, Valentino
e Teodósio: em 381, 382, 385 e 391; - Teodósio,
Arcádio e Honório: em 392; - Arcádio,
Honório e Teodósio II: em 407 e 408.
Nem
todos os cristãos eram fervorosos, nem dignos de
sua conduta. Anteriormente, nos períodos de perseguição,
muitíssimos eram os que apostatavam. Exemplo disto
são as motivações para as heresias:
donatismo, novacianos, montanismo.
Hierarquia
da Igreja africana
Cartago
aparece como sede religiosa. É de Cartago que partem
as lideranças hierárquicas da Igreja, embora,
muitas vezes, seus expoentes não sejam os mais
cotados. Ela se torna sede de muitos concílios
regionais (de 218 a 222). Também de Cartago surgem
as perseguições de alguns imperadores contra
a Igreja da África. A mudança de comportamento
do Império em relação à Igreja
fazia com que muitos cristãos, ainda não
muito firmes na fé, titubeassem, ou assumissem
uma atitude de rigidez e intolerância para com os
que fraquejavam, ou uma atitude de extrema condescendência,
chegando ao extremo do afrouxamento e do descompromisso.
A hierarquia africana mantinha uma organização
bem distinta de outros recantos do Império. A presença
de dissidentes e hereges multiplicava dia a dia a presença
de bispos de ambas as facções. Muitas vezes,
numa mesma cidade havia a presença de dois bispos,
cada qual numa facção religiosa, não
contando bispos auxiliares e sacerdotes respectivos. Os
sacerdotes também eram numerosos. Ao lado de seus
bispos, embora muitos tendo mais cultura que eles, mantinham
um trabalho insistente de evangelização
e catequese do povo. O povo participava ativamente nas
solenes celebrações religiosas e, algumas
vezes, na indicação ou escolha de seus bispos
e sacerdotes, como o atesta a escolha de Cipriano, de
Cartago e, anos depois, de Agostinho para sacerdote e
bispo de Hipona.
Heresias
Vamos
apresentar aqui algumas das principais heresias que, nascidas
tanto dentro quanto fora da África, tiveram certa
importância na vida da Igreja africana. Sabemos
que surgiram várias e com variados nomes.
Donatismo
Durante
a grande perseguição do tempo de Diocleciano
(ano 303) os cristãos receberam ordem deentregar
os seus livros santos para serem queimados ou destruídos.
Os que obedeceram foram chamados de "traidores";
e tornou-se problema importante de disciplina eclesiástica
determinar o procedimento que se deveria usar para com
eles: deveriam ser readmitidos? Em que condições?
A pate mais benevolente da Igreja, favorecida por Roma,
era a maioria. Mas havia também o partidos dos
rigoristas, os donatistas (que, a não se pelo nome,
nada têm a ver com Donato, o santo bispo de Cartago,
antecessor de Cipriano). Os donatistas consideravam os
"traidores" uns indesejáveis, que com
sua presença corrompiam o corpo eclesiásico;
e, além disso, que toda função sacerdotal
por eles exercida seria ipso facto nula e sem valor. Na
opinião dos donatistas, a validade dos sacramentos
dependia da santidade dos ministros que os realizavam.
Este cisma perturbou profundamente a Igreja toda no norte
da África durnte o século IV; foi condenado
por muitos concílios regionais; uma conferência
solene, reunida em Cartago (411), deu-lhe o golpe mortal
e os donatistas retornaram em sua totalidade ou em grande
número ao seio da Igreja. O principal oponente
do donatismo foi Santo Agostinho. Honório e Teodósio,
o Moço, perseguiram severamente os resquícios
da seita, que ainda tentou continuar existindo até
o a invasão dos árabes (693). Esta varreu
a África, e com ela o Donatismo e o Catolicismo.
Novacionismo
Novaciano
era um sacerdote de forte ascendência da comunidade
romana durante o pontificado de São Damião.
Tinha uma cultura bastante vasta. Nos últimos anos
de São Damião aí pelos anos 245-250,
a fama de Novaciano crescia cada vez mais. À morte
do Pontífice, foi escolhido para ser seu sucessor
um outro sacerdote de nome Cornélio. Novaciano,
qua contava talvez com a sucessão, acusou o novo
papa de laxismo e, tendo obtido considerável número
de adeptos, conseguiu ser sagrado bispo e declarou-se
anti-papa. De Roma, o cisma alastrou-se por todo o Império
e chegou a constituir uma igreja importante, rival da
Igreja Católica. Por ocasião do cisma, escreveu
São Cipriano, bispo de Cartago, o seu célebre
tratado Da Unidade da Igreja. Novaciano morreu obscuramente
e a igreja por ele fundada teve ainda alguns representantes
no Oriente até o século VII.
Gnosticismo
É
mais um sistema de filosofia religiosa cujos sectários
pretendiam ter os atributos e o conhecimento pleno da
natureza de Deus. Doutrinas místicas e filosóficas
que, na história intelectual e moral dos primeiros
séculos da nossa era, teve considerável
importância. Para os gnósticos, a fé
era para os que ainda não tinham cultura, isto
é, para os ignorantes: servia para iniciá-los
na exposição simples do dogma; era a ciência
vulgar das massas. E a gnose restringia-se ao pequeno
número de eleitos que podiam atingir a transcendência
dos problemas religiosos, constituindo-se na filosofia
do cristianismo. Contudo, a gnose não surgiu com
o aparecimento do cristianismo. Já antes, pelo
menos desde o início do primeiro século,
nos santuários do politeísmo grego e nas
escolas filosóficas, entre os Judeus [1] e egipcios,
havia resquícios gnósticos bem profundos.
Era, pois, antiga como as velhas e perpétuas questões
especulativas: Como apresentar a passagem do infinito
para o finito? Como imaginar o início da criação?
Como pode Deus, puro espírito, ser autor de um
mundo material, tão contrário a sua essência?
Se o Criador é perfeito, donde as imperfeições
do mundo? No campo da filosofia houve uma identificação
ou volta às religiões do Oriente. Não
é, pois, de se admirar que, ao serem fundadas as
primeiras igrejas da Ásia, os simples cristãos
encontrassem a combatê-las as sutilezas dos gnósticos.
De fato, os gnósticos eram intelectualmente superiores
aos simples cristãos. No entanto, no aspecto vivencial
prático tornaram-se inferiores por terem estabelecido,
como primeiro princípio, o livre exame que, por
fim, os enfraqueceu e dispersou, visto que cada chefe
tinha seu sistema próprio. Por um outro, a luta
dos sistemas entre si, e por outro, as contínuas
transformações que sofreram, provenientes
da permanente intervenção do espírito
subjetivista pessoal, lançaram o gnosticismo na
auto-destruição.
Arianismo
Seita
fundada por Ário (ou Arrio). Tratava do problema
da natureza divina de Jesus Cristo. Como conciliar a divindade
de Jesus Cristo com o monoteísmo? Considerá-lo
plenamente verdadeiro Deus, não seria cair num
diteísmo? E, fazer dele uma divindade subordinada,
não seria abaixá-lo ao nível das
criaturas? Em meio a estas questões se dabatiam
as opiniões dos séculos II e III. Por isso,
tentando achar uma solução, o presbítero
Ário afirmava que o Filho só possui uma
divindade secundária e subordinada. Daí
surgiu o subordinacionismo que declarava que Jesus Cristo
não é realmente Deus eterno, infinito, onipotente.
A primeira manifestação do arianismo deu-se,
provavelmente, por volta de 323. Ário era, então,
sacerdote duma das igrejas de Alexandria. Opôs-se,
um dia, à doutrina de seu bispo Alexandre, que
proclamava a perfeita igualdade das três pessoas
divinas. Ário foi excomungado e afastado do exercício
sacerdotal. Mas, a heresia foi-se alastrando por todo
o Oriente. Então, o Imperador Constantino convocou
para Nicéia, na Bitínia, o primeiro Concílio
Universal (junho de 325). Estiveram presentes cerca de
300 bispos. Contudo, apesar de derrotado, o arianismo
não foi totalmente eliminado. Foi-se espalhando
por todo o Império e chegou a influenciar a alta
cúpula do Estado, criando problemas para a ortodoxia
católica.
Pelagianismo
Pelágio,
natural da Grã-Bretanha ou da Irlanda; por vezes
recebeu o sobrenome Brito; em celta era chamado Morgan.
Era monge. Dotado de grande severidade de costumes e grande
austeridade de caráter. Foi residir em Roma. E,
gravemente escandalizado pela vida sensual e licenciosa
que prevalecia na Igreja, pensava que tal estado de coisas
provinha da crença generalizada na eficácia
dos sacramentos e da suficiência da fé. Entendeu,
então, que o remédio para tudo isso estava
em aceitar o princípio de que a salvação
do ser humano dependia do seu próprio comportamento.
Indo ao Oriente, Pelágio foi acusado (415) perante
João, bispo de Jerusalém e perante o sínodo
de Dióspolis, sendo condenadas como heréticas
estas suas proposições (417-418), pelo sínodo
geral de Cartago, a que assistiram 200 bispos da África
e da Ibéria, e depois, no terceiro Concílio
Universal de Éfeso (431). As principais afirmações
geralmente reconhecidas sob o nome de pelagianismo, embora
seja duvidoso que todas elas fossem efetivamente do próprio
Pelágio, pois ele sempre se exprimiu cautelosamente,
mas que, de fato, são resultado de seu ensino inicial:
1.
Adão era mortal por natureza e teria morrido mesmo
que não tivesse pecado; 2. As
conseqüências do pecado de Adão ficaram
confinadas nele mesmo e não afetaram, por isso,
o resto da raça humana; 3. Os
recém-nascidos estão nas mesmas condições
que Adão antes da queda; 4. Sendo
iguais em suas promessas, tanto a Antiga Lei quanto o
Evangelho qualificam o ser humano para a bem-aventurança;
5. Antes de Cristo alguns homens viveram sem pecado, podendo,
portanto, cumprir os mandamentos de Deus sem dificuldade
e preservar-se a si próprio em estado de inocência;
e, ainda, a graça de Deus nos é dada em
proporção aos nossos méritos.
Com
sofismas e equívocos, Pelágio confundiu
muitos de seus acusadores, mas encontrou um forte adversário
em Santo Agostinho. Pelágio morreu exilado na Palestina
(420).
Maniqueísmo
Esta
seita apareceu originariamente como uma religião
nova, não tanto como uma heresia cristã.
Seu fundador foi Manes (ou Mani), nascido na Mesopotâmia,
cerca dos anos 215-216 d.C. Aos 25 anos começou
a pregar sua religião nas festas da coroação
de Sapor I, no palácio real. Ainda que conquistando
muitos adeptos na Pérsia, no Turquestão,
na Índia e na China, foi combatido pelos sacerdotes
do masdeísmo e pelo próprio Sapor, e teve
que se exilar. Passados trinta anos, voltou à Pérsia
e deu continuidade à sua pregação,
até que, depois de várias vicissitudes,
o rei Bahram I o mandou prender e crucificar em Gundesapur,
perto de Susa, em 276-277. O corpo foi esfolado, a pele,
cheia de palha, esteve exposta em uma das portas da cidade,
depois chamada "porta de Mani". Perderam-se
os livros que ele escreveu, porque autoridades civis e
religiosas mandaram destruir seus escritos. Os poucos
fragmentos que restam são as citações
dos apolosgistas cristãos, especialmente de Santo
Agostinho, que dos 19 aos 28 anos professou o maniquesísmo,
embora como simples "ouvinte". No Oriente agregou-se
a outras religiões. No Ocidente conquistou muitos
adeptos e começou a agregar elementos cristãos
que lhe foram dando aspectos de heresia. Na Itália,
na Alemanha, na França e na Inglaterra, reapareceram,
desde os séculos IX e X, teses maniquéias.
Os albigenses, os caldenses e os cátaros foram
considerados rebentos do maniqueísmo, se bem que
não tivessem ligações diretas com
os maniqueus antigos.
Doutrina
maniquéia
Parece
que Manes não chegou a conhecer o verdadeiro cristianismo.
Sua religião preocupava-se com o problema da existência
do mal e continha uma grande complexidade de fontes: elementos
do masdeísmo persa aliados a lendas babilônicas,
reminiscências judaicas, infiltrações
búdicas e idéias cristãs apreendidas
dos gnósticos sabeus. O fundamento desta doutrina
é o dualismo: a eternidade de dois elementos opostos
concebidos sob a forma de dois reinos: o da Luz, que representa
o bem físico e moral, e o das Trevas, que representa
o mal. Os dois reinos entram em luta. O primeiro, que
é o domínio de Deus, compreende um céu
e uma terra luminosos; o segundo é o domínio
de Satã e dos demônios, desprovido, portanto,
de céu. Satã chega a invadir a terra luminosa.
Aparece, então, um ser novo: o homem primitivo,
nascido de Deus e lançado por este contra Satã.
No primeiro assalto Satã vence ao homem primitivo,
prende-o e rouba-lhe parcelas de luz. Mas Deus acode com
seus anjos, liberta o homem primitivo e afugenta o adversário.
Contudo, o homem primitivo fica imerso em luz e trevas,
tornando-se teatro de lutas entre as forças do
bem e do mal, e começa a propagar, pela geração,
a sua raça, na qual se perpetuará essa luta
terrível. Daí a necessidade de um ascetismo
rigoroso que facilite a libertação dos elementos
luminosos, aniquilando, assim, os outros. A massa do povo
contituiam os chamados "ouvintes" que viviam
como toda gente, mas estavam encarregados de sustentar
os eleitos. Esses eleitos constituiam uma espécie
de monges ou santos obrigados a guardar continência
e respeitar a vida universal, incluindo a das plantas;
não podiam comer carne, nem beber vinho; viviam
de ervas e frutos, que deviam ser colhidos pelos ouvintes.
Acima dos eleitos estavam os sacerdotes; depois, os 72
bispos; e mais acima, os 12 doutores, um dos quais, o
chefe supremo, residia em Babilônia. O culto constava
apenas de orações e hinos, quatro vezes
ao dia, com o rosto voltado para o sol, para a lua ou
para a estrela polar. Agostinho escreveu várias
obras contra os maniqueus, como poderemos ver.
Outras
hererias
Entre
outras heresias, havia também o Montanismo, o Tertulianismo,
o Priscilianismo e outras que não vamos comentar
aqui para não fugir ao nosso propósito,
mas que direta ou indiretamente têm alguma relação
com Santo Agostinho, pois ele fez sobres elas alguma referência.
Concílios
regionais da África
Devido
aos freqüentes cismas e heresias, os concílios
regionais foram bastabte numerosos na África.
Agripino
presidiu dois, em Cartago (218-222). São Cipriano
presidiu sete (até 256). Grato presidiu outros
dois (47-348). Houve mais dois nos anos 386 e 389.
Em
391, o bispo Aurélio preside a Igreja de Cartago.
Dirige cerca de 20 concílios regionais. O primeiro
deles foi em 393, em Hipona, onde Agostinho, ainda como
sacerdote, prega aos bispos. O clero nem sempre era suficientemente
edificante. Não faltavam os escândalos entre
os donatistas, principalmente, e entre católicos.
Mas a vida de ascese e piedade era vigorosa (Cf.De moribus
ecclesiae cath. et manich. I, 65-67).
Santo
Agostinho
Além
de tudo o que ficou dito nos pontos anteriores, é
importante situar bem Santo Agostinho, conhecendo outros
aspectos da vida da Igreja no seu tempo. Por isso colocamos
aqui alguns dos principais personagens mais ou menos contemporâneos
a ele. Mas antes, entendamos um pouco deste personagem:
No livro de Paulo aos Romanos, capítulo 11,1-2,
encontramos: "Pergunto, pois: Acaso rejeitou Deus
ao seu povo? De modo nenhum... Deus não rejeitou
seu povo que antes conheceu..."
Santo
Agostinho elaborou a doutrina que representa os judeus
e a nação de Israel como sendo testemunhas
da verdade do cristianismo. Ou seja, os judeus serviram
para nos deixar o legado da fé e a verdade cristã.
Agora eles deveriam estar em constante humilhação
quanto ao triunfo da Igreja sobre a sinagoga. Assim, os
monarcas do Império Romano deveriam ver os judeus
como servos da câmara (servicamerae) quando os judeus
eram utilizados como bibliotecários escravos para
manter os escritos hebraicos. Eram usados também
para a prática da usura ou empréstimo de
dinheiro, pois a usura era considerada como algo que colocaria
a salvação eterna em risco, e por isso foi
proibida. Em outras palavras as almas dos judeus já
estariam perdidas de qualquer jeito. Assim, no período
que antecedeu as Cruzadas a semente do anti-semitismo
já estava lançada. A deterioração
da posição judia na sociedade estava ganhando
espaço. A judeufobia virulenta estava primeiramente
somente dentro do clero, que orientavam suas ovelhas para
que ficassem longe dos judeus. À medida que o cristianismo
crescia, crescia também a aversão pela nação
de Israel e pelo povo judeu. Tal atitude, hoje, a Igreja
rejeita. Esperamos que a recíproca seja verdadeira.
Santos
* Atanásio de Alexandria (295?-373)
* Basílio de Cesaréia (329- ): autor da
maioria das regras dos monges orientais.
* Gregório de Nazianzo ( -390)
* Gregório Nisseno (331?-396?): participou do Concílio
de Constantinopla em 381.
* João Crisóstomo (354-407)
* Teodoro de Mopsuéstia (350-428)
* Cirilo de Alexandria (376-444): presidiu o Concílio
de Éfeso.
* Agostinho de Hipona (354-430)
* Leão Magno ( -461)
* Próspero de Aquitânia (390?-465?)
* João Casiano (360-435)
* Paulino de Nola (353-431)
* Ambrósio de Milão (340-397)
* Jerônimo (342-420)
* Martinho de Tours ( -397)
* Hilário de Poitiers (Aquitânia) (315- )
* Mário Vitorino (300?-370?): Confissões,
VIII,2
Como
podemos observar, a época em que viveu Santo Agostinho
foi um período de grande florescimento da Igreja
em todos os aspectos: vida, cultura, doutrina, santidade.
Tanto no Oriente quanto no Ocidente. A doutrina católica
ia se estruturando com os ensinamentos, escritos e exemplo
desses grandes personagens. Em meio a heresias e controvérsias
de seu tempo, todos tiveram que dar uma resposta ortodoxa
e fiel à verdade revelada, sem deixá-la
diluir nos erros e nas falácias de doutrinas malsãs.
No meio de todos eles, Agostinho representa um síntese
extraordinária de filosofia e teologia nos mais
diversos campos da cultura eclesiástica.
Papas
No
período de vida de Santo Agostinho, foram papas:
* Libério (352-366): 36º papa na sucessão
de Pedro.
* São Félix II que, na verdade não
foi papa. Apenas substituiu Libério durante o seu
exílio. Retornando este, foi-lhe restituido o cargo.
* São Dâmaso I (366-384). Realização
do II Concílio Universal de Constantinopla (381).
Encomendou a São Jerônimo estudos sobre a
Bíblia, visando traduzi-la para ao Latim Vulgata.
* Ursino (366-367): Antipapa.
* São Sirfício (384-399).
* Santo Anastácio I (399-401): Analisou a doutrina
de Orígenes.
* Santo Inocêncio I (401-417): Defendeu a doutrina
da supremacia do papado. Combateu o pelagianismo. Ocorreu
a invasão de Roma (410).
* São Zózimo (417-418).
* São Bonifácio (418-422).
* Eulálio (418-419): Antipapa.
* São Celestino I (422-432): Convocou o Concílio
de Éfeso.
A
família de Agostinho
É
importante conhecer a índole da família
para compreender alguns detalhes da vida de Agostinho.
Para isso, nada melhor que ler seu livro Confissões.
Porém, damos aqui um breve apanhado.
Pai
Patrício
Funcionário
público. Membro da corporação curial
(decúrio). Pagão. Sem interesses religiosos.
classe média-baixa. Possuia casa e uma pequena
propriedade rural. Possuia também empregados ou
escravos. De temperamento iracundo. Esforçou-se
para dar aos filhos o devido estudo. Morreu quando Agostinho
contava 17 anos de idade (cfr. Confissões III,4).
Agostinho fala pouco dele. Foi batizado um pouco antes
de morrer, conquista espiritual de Mônica, sua esposa.
Mãe
Mônica
De
família cristã. Bereber. Não pobre.
Educação cuidada. Casa por contrato na sua
juventude. "União estreita", como afirma
Agostinho. Mulher paciente e prudente, conquistou a admiração
do marido. Marcou profundamente a alma de seu filho Agostinho,
que lhe dá o duplo título de "Mãe
da carne" e "Mãe do espírito".
Preparou a conversão do filho: com seus ensinamentos,
gravando no coração dele o nome de Cristo
e outras verdades cristãs; com seu exemplo de mulher
casta, discreta, crente, caridosa; com sua oração,
pois "oferecia orações e lágrimas..."
(Conf. VI,1). Era também uma figura conciliadora,
"um grande dom". Morreu em Óstia Tiberina
(cfr. Confissões IX,8). Agostinho construiu um
lindo monumento nas mais belas páginas penegíricas
das Confissões à sua memória. É,
no seu dizer, a serva servorum Dei (Conf. IX,9). Ela se
distinguia, portanto, pela:
* Fé: "A disciplina do vosso Cristo e sua
doutrina educaram-na no vosso temor, no seio de uma família
fiel, digno membro da Igreja";
* Oração: "Piedosa", "Sóbria
e casta" (Conf. III, 11), solícita com a saúde
física(Idem IX,8), também com saúde
espiritual do filho (Idem III, 11-12) e do esposo (Idem
IX,9). Atenciosa para com todos;
* Vida: "Com as boas obras dava testemunho de santidade",
"vivia de tal modo que Vosso nome era louvado na
sua fé e nos seus bons costumes" (idem IX,13).
Alma eucarística. "Todos os que as conheciam
vos louvavam, honrando-vos e amando-vos nela porque sentiam
no coração a vossa presença, comprovada
pelos frutos de uma existência tão santa"
(Idem IX,9);
* Desprendimento: Elevação espiritual. Dom
da contemplação (Idem IX,10).
Irmãos:
Navígio e Perpétua
O
irmão mais velho de Agostinho chamava-se Navígio
e era o primogênito. Além deste, Agostinho
teve uma irmã, cujo nome se ignora e da qual sabemos
apenas que foi religiosa e governou um mosteiro feminino
próximo de Hipona. Alguns autores chamam-na de
Perpétua, embora não tenhamos nenhuma referência.
Posição
social da família
Classe
média-baixa, como já adiantamos ao falar
de Patrício, pai de Agostinho. Como decúrio,
Patrício devia enfrentar frequentemente o deficit
dos impostos e arcar com outros gastos com serviços
e diversão da cidade. O trabalho confere à
família certa honra social, mas ela não
era rica. De fato, não pode carregar o peso dos
estudos superiores dos filhos, particularmente de Agostinho.
Foi necessário contar com a ajuda de Romaniano,
grande amigo da família.
Ambiente
religioso
Filho
de matrimônio misto: pai indiferente, mãe
fervorosa. Na época, século IV, o paganismo,
como sistema religioso organizado, tinha retrocedido.
Após Constantino, sucedem-se decretos imperiais
contrários ao paganismo. Permanecem fiéis
a ele grupinhos aristocráticos saudosos. O cristianismo
cresce. Na época, porém, o cristianismo
sofre sérios ataques do Maniqueísmo e Donatismo.
Raça,
língua e costumes
Agostinho
era de raça berbere. Tagaste era centro de cultura
berbere. Mas, embora africano de nascimento, Agostinho
foi romano de cultura e de língua. Nunca aprendeu
o púnico, a não ser algumas poucas expressões
idiomáticas e frases curtas. Era de cor branca.
Personalidade viva por temperamento e inteligência.
Estudos
Desde
cedo foi colocado na escola para as primeiras disciplinas.
Embora tivesse muita facilidade para aprender, logo no
começo adquiriu aversão por certas matérias
que lhe eram ministradas sem muita pedagogia. Era uma
criança normal.
Inteligência,
perspicácia
"Qualquer
coisa que se referisse à arte de falar (Retórica),
de raciocinar discorrendo (Dialética), tudo o que
se referisse a dimensões (Geometria), a músicas
(Música) e a números (Aritmética),
sem grande dificuldade compreendeu, mesmo sem ninguém
explicar, tu, Senhor, sabes... porque a facilidade de
compreensão e a perspicácia da percepção
é teu dom" (Confissões IV,16,30, tradução
livre).
Artes
liberais
Liberal
é diferente de manual (serviços mecânicos
reservados aos escravos e servos). As Artes liberais procuravam
levar o indivíduo à perfeição
"humanística". Só aos patrícios
podiam permitir-se o luxo de dá-las aos filhos.
Se a economia não era forte (economia familiar),
só restava a possibilidade de ganhar um generoso
mecenas, que favoreciam os estudos de jovens pobres com
dotes intelectuais relevantes. Assim aconteceu com Agostinho,
cujo mecenas foi Romaniano. Agostinho cursou o curriculum
completo do ensino primário, médio e superior
próprio da época.
* Primário - Dos 7 aos 12 anos, com mestre ou professor.
As crianças aprendiam a ler, escrever e contar.
* Médio - Dos 12 aos 16 anos, com o chamado gramático,
pessoa encarregada de ministrar as seguintes matérias:
Gramática, História, Mitologia, Arte métrica,
Música e leitura de textos dos Poetas.
* Superior - Dos 16 aos 20 anos. Estudavam Retórica
(comunicação e expressão), Dialética,
Geometria, Música, Aritmética, Filosofia
(sistemas, pensamentos, escolas...).
* Leituras - Agostinho foi mau estudante quando criança
(Confissões 1,12,19). Mas pouco a pouco vai sendo
dominado por um desejo ardente de leitura: "Entendi
e compreendi quaisquer livros que pude ler" (Conf.
IV,16). Trata-se de leituras literárias e científicas
das Artes liberais. Conheceu, cartamente, as obras de
Virgílio, Cícero, Salústio, Horácio,
Varrão, Aristóteles, Platão.
A
leitura de Hortênsio de Cícero mudou radicalmente
seu comportamento interior em relação à
sabedoria. Nasceu aí a atitude filosófica
frente à retórica. Nesse momento aderiu
também ao maniqueísmo, porque estes se proclamavam
seguidores de Cristo. Ao mesmo tempo Agostinho leu "muitas
coisas dos filósofos" (Conf. V,3,4). O próprio
Agostinho nos indica ter lido as seguintes obras filosóficas:
* De Aristóteles (tradução de Mário
Vitorino): as dez categorias, Perihermenias, Tópicos;
* De Platão: Fedon (tradução de Apuleyo);
Timeu (tradução de Cícero);
* Provavelmente de Porfírio: Isagoge ou introdução
às Categorias de Aristóteles; Filosofia
dos Cálculos (trad. de Mário Vitorino);
* Das Escolas gregas, com suas linhas mestras de pensamento,
através das relações feitas por Cícero,
Varrão, Cornélio Celso;
* De Cícero: De amicitia, De senectute, De academicis,
Hertensius, De natura Deorum, Tusculanae, De finibus,
De oficiis, De republica;
* De Varrão: Fonte histórico-filosófico-religiosa
para Agostinho. Disciplinae;
* De Apuleyo: Astronomia.
Processo
espiritual
Agostinho
não apenas acreditou sempre em Deus, como também
na sua providência, na vida futura, nos julgamentos
divinos; e teve sempre no coração o nome
de Jesus, que havia bebido, como ele mesmo afirmava, com
o leite materno (Conf. 3,4,8). Durante toda sua vida foi
se desenvolvendo, de uma forma lenta e gradativa, um processo
humano de maturação afeivo-psiquico-intelectual
que lhe deu base também para a maturação
critã. Sua conversão foi um processo contínuo
da graça de Deus, mas também foi muito decisiva
sua formação humana, determinandosua capacidade
de decisão, força de vontade, que ele reconhece
como "dons" de Deus.
Infância
Da
infância de Agostinho sabemos muitas coisas devido
a suas Confissões. Durante sua infância foi
acometido de uma febre, por causa de uma forte dor no
estômago, e esteve perto de morrer; chegou mesmo
a quase receber o batismo, o chamado batismo clínico.
Foi dotado pela natureza de um ânimo bom, afetuoso,
decisivo e forte. Amante da ordem, da calma, da amizade
e, sobretudo, da verdade. Comovia-se facilmente. Não
gostava de desordens (Cfr. Confissões 1,20,31).
Afinal, um menino normal, dentro dos conceitos de sua
própria idade.
Adolescência
Também
através das Confissões, temos muitas informações
de sua adolescência. Esta sua fase etária
foi muito marcante. A distância da influência
da mãe, os exemplos dos companheiros, os coleguismos,
fizeram com que ele tivesse, muitas vezes, "vergonha
de não ser sem vergonha". Mas, por outro lado,
sua própria mãe o elogiava, pois, era considerado
por ela como "piedoso" (Conf. 9,12,30). Foi,
além disso, externamente expansivo, e rico de fantasia.
Gostava dos jogos e brincadeiras e barulhos nas praças,
assistir os espetáculos, imitar os atores, caçar
pássaros nos bosques vizinhos. Um ano que passou
na ociosidade, sem poder estudar, encheu-lhe a vida de
grandes problemas e vícios que mais tarde muito
o fez lamentar. Cultivou sempre uma profunda dedicação
à amizade, a tal ponto de ser esta uma das características
marcantes de sua vida.
Leitura
de Hortênsius, de Cícero
Aos
19 anos, Agostinho descobriu o ideal da verdade, ao ler
esta obra. Trata-se de um valor absoluto, transcendente
às formas belas e úteis da Literatura. Onde
está a verdade? Cícero não o diz
em seu livro, mas aconselha a buscá-la, não
nas escolas ou autores, mas diretamente, por ela mesma.
Agostinho sente-se encantado por esta idéia ou
proposta: ele mesmo é que deve iniciar agora uma
caminhada espiritual, intelectual, longa e cheia de surpresas
em direção à verdade.
Busca
da Verdade
Começou,
então, a ler com avidez não apenas as obras
de literatura e poesia, mas também alguns filósofos.
"Mas não havia ali o nome de Cristo".
Nas
Escrituras
Não
encontrando o nome de Cristo nos escritos filosóficos,
partiu para as Escrituras, onde se deteve parabeber ansioso
a sabedoria. Foi um fracasso! Encontrou-a muito infantil.
Não compreendeu sua linguagem. Ele adorava a beleza
do bem-dizer clássico. As Escrituras, no entanto,
oferecem um linguajar humilde demais. Sua conclusão:
não pode a sabedoria estar em formas tão
desprezíveis; não combina com seu sistema
e modo de pensar (Conf. 3,5,9). Ele ainda não sabia
que a Sabedoria de Deus só alcança os corações
humildes.
No
maniqueísmo
Os
maniqueus, além de falarem de uma pretensa sabedoria,
usavam o nome de Cristo. Por isso eles pareciam satisfazer
as necessidades de quem busca a sabedoria, ao mesmo tempo
que o nome de Cristo. Agostinho se deixou envolver pelo
maniqueísmo, e fala de "sedução"
da falsa sabedoria. Falto e carente de sólida interioridade
("encontro-me fora de emim mesmo"), caiu na
rede pseudo-científica de umsistema filosófico-religioso
vazio de conteúdo, mas exuberante de retórica
e imaginação. Agostinho fala de ficções
brilhantes, falsidades, ficções vãs,
comida, conjecturas, quimeras. O maniqueísmo prometia
das explicação racional sobre o problema
mundo-homem-Deus. Argumentos científicos. Não
submissão à fé. Ele freqüentará
este ambiente por nove anos. Primeiramente, entusiasmado;
depois, desiludido. "Diziam: Verdade, Verdade! E
muito falavam dela para mim... e ela nãso estava
neles, mas falavam coisas falsas, não somente de
Ti... mas também destas coisas e elementos do mundo..."
* Adesão - Mas, por que Agostinho aderiu? "No
fundo desta adesão houve, antes de mais nada, uma
indigência profunda, uma veemência vital,
uma surda inquietude, que a todo o custo suspirava para
a hamonia de uma solução" (Capánaga,
Introdución General a las Obras de San Agustín
I, Madrid, 1946,10).
Bebeu
a primeira água que lhe foi oferecida: "Não
por escolha, mas por falta de outra" (De utilit.
credendi 1,2). Para esta desão, que foi que mais
lhe impressionou?
-
A solução do problema do mal? - O ascetismo
dos "eleitos"? - A promessa de uma ciência
racional? - As críticas à fé cristã?
* Aceitação - De início entregou-se
confiante ao sistema maniqueu. Chegou a empolgar-se com
ele até ao proselitismo.
O
sistema maniqueu
O
maniqueísmo se caracteriza por um materialismo
dualista, pelos panpsiquismo, pelo fatalismo e por uma
ética catártica. Aqui nos propomos comentar
algumas dessas características.
Panpsiquismo
- tudo é mistura: luz-trevas. As diferenças
são quantitativas. Segundo isso, todo ser finito
tem um elemento de luz a ser liberado. São partículas
de luz, princípios de vida (psiqué), de
bondade. Tais princípios podem ser liberados pela
ação dos "eleitos".
Antropologia
- o homem também é mistura de luz-trevas.
Mas é, ou pode ser, instrumento para encaminhar
a liberação de luz nos seres inferiores
(animais e vegetais). Existem dois tipos de homens:
* Os eleitos - os que penetraram na "gnose"
libertadora. São os "iluminados", "dominados
pela luz". A morte deles significa a plena libertação.
* Os ouvintes - os que apenas aceitam a doutrina de Manes.
São imperfeitos. Não fizeram a opção
total pelo Bem. Não se submeteram à ascese
(celibato-abstinência). Se não se decidirem
antes da morte terão que se reencanar.
Fatalismo
- liberdade não é possível num sentido
interior pessoal. No máximo pode-se falar de uma
liberdade externa (ausência de coerção).
Não há eleição auto-determinante
para o Bem. Somente há liberdade externa, isto
é, ausência de coação externa.
Responsabilidade
- Não é possível também assumir
a responsabilidade pessoal dos próprios atos. Isso
levava a não ter que se angustiar com problemas
de consciência nem arrependimentos humilhantes.
Fácil solução ao problema do mal
moral pessoal.
Ética
maniquéia - é basicamente fundamentada num
rito de purificação (catarsis). É
uma ética de fuga, uma luta "negativa"
contra o mal. Não é o bem que entusiasma
e compromete, mas o mal que ameaça e aprisiona.
A perfeição será alcançada
por quem maior desprendimento do mal ou maior domínio
das fontes do mal conseguir. Aqui convém lembrar
a doutrina dos três selos, ideal no domínio
ascético do maniqueu, que marcavam o tríplice
caminho progressivo na conquista da perfeição:
ventre/abstinência; mão/celibato; boca/ciência.
Quem possuia as três era "perfeito". Quem
parava no primeiro, não passava de "ouvinte".
Nasce, em definitivo, uma "ética subjetivista"
em que a conduta pessoal passa a ser norma para todos.
É o critério do momento, o costume, a própria
justiça que se projeta como norma universal, e
não uma lei reta e eterna estabelecida por Deus
(Cfr. Confissões 3,7). É nessa linha que
Agostinho rebate as acusações de impiedade
lançadas ironicamente pelos Maniqueus contra os
Patriarcas (Confissões 3,7,13-14).
Materialismo
- Agostinho caiu no materialismo. "Não podia
imaginar outra substância além da que nossos
olhos constantemente vêem" (Confissões
7,1). "Não podia imaginar o espírito
senão como um corpo sutil que se espalha pelos
espaços" (Confissões 5,10,20).
Agostinho
foi se desanimando da doutrina maniquéia. A decepção
chega ao máximo na entrevista com Fausto, representante
maior da doutrina maniquéia (Confissões
5,7,13). Ficou desprovido, sem possibilidade de novos
caminhos dentro da seita. Fausto era o mais douto; no
entanto, não soube dar respostas às suas
dúvidas. Mas, embora desencantado com Fausto, ele
o admirou pela sinceridade em admitir a própria
ignorância (Confissões 5,7,12). Ainda que
desencantado, Agostinho, em Roma, continuou, por razões
de amizade e conveniência freqüentando ambientes
maniqueus. Contudo, o fez já sem espectativa de
caminhar naquela falsa doutrina. Então, tíbio
e negligente, manteve certo núcleo doutrinal, na
esperança de poder um dia trocar por algo melhor.
Ceticismo
dos Acadêmicos
Neste
período, a Academia de Platão havia assumido
uma postura cética. O ceticismo imperava nesta
escola. Certamente este ceticismo não era o pirronismo,
ou ceticismo universal, mas o propabilismo, mais mitigado,
portanto. Chega para Agostinho a tentação
deste movimento (Confissões 5,10). "Ocorreu-me
ao pensamento ter havido uns filósofos chamados
acadêmicos, mais prudentes do que os outros porque
julgavam que de tudo se havia de duvidar, e sustentavam
que nada de verdadeiro podia ser compeendido pelo homem"
(Confissões 5,10,19). São os primeiros sinais
da desesperança. Não confia no maniqueísmo
cheio de fábulas, ao qual decide abandonar, ainda
que tomado pela tristeza, "duvidando de tudo"
(Confissões 6,16,26), pois, mesmo o ascetismo dos
eleitos era falso. Não sabe para onde se dirigir.
Não pensa achar solução na Igreja
Católica. Mas, será que a dúvida
afetou nela todas as áreas do saber? Não,
às verdades matemáticas (Confissões
6,4,6). Não, às verdades ontológicas
de Deus: existência, providência, etc. (Confissões
6,5,7). Não, ao temor da morte e juizo (Confissões
6,16,26). Parece que a dúvida só afetou
a verdade de caráter religioso: possibilidade de
alcançar Deus = Verdade = Bem (Confissões
5,14,24); verdade de ordem moral: justiça interior,
castidade, responsabilidade. Trata-se mais de um ceticismo
prático, mas que deixou forte impressão
na sua vida. Tal experiência pessoal, dolorosa,
sem dúvida, levará Agostinho a traçar
vivamente a resposta ao problema da certeza, a natureza
da verdade e os critérios do verdadeiro conhecimento
humano.
Catecumenato
Em
Milão, no ano 384, Agostinho estabeleceu contato
com santo Ambrósio: estava à procura de
oratória, não da verdade. Mas, "a verdade
se me aproximava isensivelmente"(Confissões
5,13,23). Agradou-lhe e lhe foi uma descoberta perceber
o sentido alegório-espiritual com que Ambrósio
interpretava as Escrituras; além do estilo atraente,
com que aclarava muitas passagens impugnadas pelos maniqueus.
Nasce aí o desejo polêmico contra os maniqueus.
Apoiado nas doutrinas cosmológicas dos filósofos
"conhecedores das coisas do mundo" (Confissões
5,3) que lhe convencem mais que as fábulas de Manes
("copiosissime delirans"), e duvidando, com
maior razão, de seu testemunho religioso, Agostinho
decide abandonar o maniqueismo. Nessa situação
de indecisão e sem maiores opções,
determina ingressar como catecúmeno na Igreja que
lhe foi recomendada por seus pais "até vir
alguma certeza a elucidar-me no caminho a seguir"
(Confissões 5,14). Esta nova situação
levará Agostinho a entrar em contato com os temas
centrais da doutrina católica.
Neoplatonismo
Por
este tempo, caem nas mãos de Agostinho alguns livros
"platônicos", traduzidos do grego ao latim.
"Lidos, porém, de Plotino pouquíssimos
livros" (De beata vita, 4). São livros de
Plotino traduzidos ao latim por Mário Vitorino
(Cfr. Confissões 8,2). Tais leituras causam em
Agostinho um grande efeito. Foi como "balsamo sobre
chama" que provoca um incrível incêndio
(Contra acadêmicos, II,5). Agostinho estabelece
correspondências entre a doutrina de São
João sobre o Verbo e as hipostases divinas da Enéada
de Plotino (Uno-Nous-Alma -> Enéada V), rejeitando,
porém, o seu politeísmo emanatista (Confissões
7,10). Um novo mundo de realidades impensadas descortina-se
ante o "olhar interior" de Agostinho. Recolhi-me
ao coração, conduzido por Vós"
(Confissões 7,10). Neste momento começa
a descobrir algumas verdades sobre Deus, a Criação,
o Mal, o Verdadeiro, o Bem-Felicidade, o conceito de pecado,
o retorno e a ascensão espiritual. Enfim, os livros
neoplatônicos mostraram para onde devia orientar
seus passos. As Escrituras iriam mostrar-lhe o Caminho
por onde alcançar a Bem-aventurança desejada.
Ao
Cristianismo
O
Neoplatonismo descobriu para Agostinho a existência
e o valor da Verdade eterna que pode ser e contemplada
e fruida. Não podia oferecer-lhe, porém,
a caminhada eficaz que o levasse à região
da Verdade. A inteligência ficava olhando de longe.
Em se tratando da Verdade absoluta, divina, não
adianta querer aparentar sabedoria, nem inchar-se com
a ciência (Confissões 7,20,26), porque o
conhecimento intimo de Deus não pode ser fruto
de penetração intelectual, mas da livre
comunicação (Revelação) de
Deus. E isso o Neoplatonismo não podia fazer. É
Deus quem concede a sua graça aos humildes e lhe
apraz revelar seu mistério aos pequeninos (Mt 11,25).
Diante de Deus não tem valor a presunção
e sim a confissão. A meditação humilde
da Palavra de Deus levará Agostinho à conversão;
com a graça, com a humildade, encontra e vive Deus.
Outros
dados sobre Agostinho
Existem
outras informações da vida de Agostinho
que devem ser estudadas, pois são úteis
ao seu melhor conhecimento. Dentre essas, anotamos as
seguintes:
Constituição
física
Desconhecemos
sua fisionomia, mas sabemos bastantes detalhes sobre sua
constituição física, devido a seus
próprios escritos. Não foi uma pessoa de
compleição forte. Ao contrário, era
frágil e sujeito a constantes problemas de saúde.
Na
meninice, "sobreveio-me certo dia uma febre alta,
causada por uma opressão no estômago"
(Confissões 1,10,17), e esteve quase à morte.
Chegou a pedir o batismo. Aso 29 anos foi colhido por
ma enfermidade grave, mas não ainda especificada,
que também quase o levou ao túmulo (Confissões
5,9,16). Aos 33 anos foi atingido por uma lesão
pulmonar que, causando-lhe fortes dores no peito, tornou
difícil a respiração e por muito
tempo o impediu de falar claramente (Confissões
9,2,4). Em Cassicíaco teve uma aguda dor de dente
que o impediu de expressar-se oralmente (Confissões
9,4,12). Aos 56 anos de idade, em Hipona, uma doença
o obrigou a um repouso de convalescência fora da
cidade, durante a qual teve uma recaída com crises
de febre (Ep. 118,34). Aos 73 anos, em Hipona, quando
foi procurado pelo conde Bonifácio, encontrava-se
tão debilitado que mal conseguia falar (Ep. 220,2).
Fora
estes casos de enfermidade, Agostinho sempre teve uma
saúde muito debilitada. Logo de volta à
África, escreveu a seu amigo Nebrídio que
a enfermidade do corpo não lhe havia permitido
fazer tudo quanto gostaria (Ep. 10,1). Muitos anos depois,
já no final da vida, dirá ao povo que setá
velho pela idade, mas de há muito o está
por causa das enfermidades corporais (Serm 355,7). De
fato, a frágil saúde o impediu muitas vezes
de empreender viagens marítimas e mesmo ultramarinas,
às quais, por necessidade de ministério,
sobrecarregava aos irmãos no eiscopado (Ep 122,1).
Sua constituição não o permitia suportar
o frio (Ep 124,1; 269). Foi atormentado de dores e de
inchaços que muitas vezes o obrigavam à
cama (Ep 38). Tinha uma voz tão fraca que não
se escutava senão com um gande silêncio (Serm
maio, 126; In Ps 50,1). Mais de uma vez, falando, confessou
consaço e afonia (Serm 42,1; 94; 320; 348,4; 350,2;
In Joan tract 19,20).
A
mulher de Agostinho
Agostinho,
entre 17 e 18 anos de idade, começou a viver com
uma mulher, certamente jovem como ele. Viveu com ela cerca
de 14 anos, numa fidelidade impressionante. Ela era uma
cartaginesa, que Agostinho havia trazido da África
e com a qual teve um filho de nome Adeodato. Por que,
depois de convertido, na hora de pensar no matrimônio,
não se cogitou em legitimar a união com
ela? De acordo com a nossa concepção moderna,
parece que esta seria a solução mais lógica;
na verdade, a única justa. Mas isto não
aconteceu e, certamente, não por falta de amor.
Agostinho amava aquela mulher mais do que podemos imaginar.
A separação lhe fez sangrar o coração:
"Sendo arrancada do meu lado, como impedimento ao
matrimônio, aquela com quem partilhava o leito,
o meu coração, onde ela estava presa rasgou-se
e vertia sangue. Retirara-se ela para a África,
fazendo-vos voto de jamais ligar-se a outro homem e deixando-me
o filho natural que dela tivera. E eu, miserável,
não imitei esta mulher! Não sarara ainda
a chaga, aberta pelo corte da primeira mulher. Mas, após
a inflamação e após a dor pungentíssima,
a ferida gangrenava, doendo-me dum modo mais frio, mas
mais desesperado" (Confissões 6,15). Por que
Agostinho, na hora de casar-se, havia decidido casar-se
com outra? Três hipóteses foram levantadas:
a) por razões espirituais; b) por razões
econômicas; e c) por razões sociais. Segundo
T. Trapé, as duas primeiras hipóteses parecem
insuficientes; a verdadeira razão devia ser a de
ordem social. Se a mãe de Adeodato era, como parece
evidente, de baixa condição social, a lei
civil proibia em tal caso o matrimônio de pleno
direito. De qualquer modo, não se pode falar nem
de insensibilidade nem de culpa da parte de Agostinho.
A primeira é desmentida pelas Confissões
e a segunda não foi confessada. Se fosse culpado,
Agostinho, tão sensível como era, teria
falado longamente nas mesmas Confissões. Parece
ter sido pessoa de altas qualidades intelectuais.
O
filho Adeodato
Adeodato
nasceu no ano 372, quando Agostinho tinha mais ou menos
18 anos. Agostinho o chama humildemente de "o filho
do pecado"(Confissões 9,4). Esteve sempre
em companhia dos pais. Quando sua mãe precisou
separar-se de Agostinho para voltar a África, Adeodato
ficou com Agostinho em Milão, onde foi batizado
juntamente com o pai e Alípio na noite de 24 de
abril de 387. Viajou para a África e tomou parte
do primeiro mosteiro de Tagaste. Adeodato é o interlocutor
do diálogo [[De magistro]]. Tinha, então,
a idade de 16 anos. O próprio Agostinho afirma
que todos os pensamentos colocados nos lábios de
Adeodato são dele mesmo; e manifesta seu assombro
por constatar que em tão tenra idade seu filho
manifestasse tal admirável inteligência.
Adeodato morreu na adolescência em 388 aos 16 ou
17 anos de idade. Alguns acreditam que sua morte tenha
ocorrido no ano 389.
Personalidade
de Agostinho
Alguns
traços carcterísticos da personalidade de
Agostinho:
* religioso. O sentido do religioso lhe foi ministrado
"com o leite materno" (Confissões 3,4,8).
O nome de Jesus o marcou profundamente. Mesmo quando aderiu
ao maniqueísmo, o fez pensando que aí pudesse
satisfazer sua sede: "Qualquer obra que faltasse
aquele nome (Jesus), mesmo que fosse sábia, ilustre
e verdadeira, não me conquistava inteiramente"(Confissões
3,4,8).
* apaixonado, no sentido da caracterologia. De fato, tudo
dá a entender que era ativo, emotivo. Pelo menos
a maioria de suas obras assim o revelam. Por isso mesmo
tinha grandes sentimentos.
* amante da amizade. Tinha um verdadeiro culto à
amizade. Dedica páginas inteiras a esse assunto.
Conheceu a amizade "inimiga", que faz o homem
ter vergonha de não ser sem vergonha (Confissões
2,9,17); a amizade "humana" (Confissões
4,4,7; 4,4,9-7,12); e a "amizade cristã"(Ep.
258), em outras passagens onde elogia o afeto dos bons
e verdadeiros amigos (De Civ. Dei 19,8), ou Alípio
"amigo do peito", Nebrídio "amigo
dulcíssimo", Severo "meu caríssimo
concidadão", Profuturo "um outro eu mesmo".
* saúde debilitada. A falta de saúde influia
apenas em alguns trabalhos. Agostinho, de fato, não
tinha uma constituição robusta e resistente.
Escreve a Nebrígio informando que a enfermidade
do corpo não lhe permite fazer tudo quanto gostaria
(Ep 10,1).
* expansivo e rico de fantasia. Tinha uma imaginação
fértil, explorando-a nos seus escritos e sermões.
* ordeiro. Amante da ordem, tinha uma profunda aversão
à bagunça dos "baderneiros" (Conf.
3,3,6,; 5,8,14).
* amante da beleza. Foi pela beleza que se aproximou da
verdade: converteu-se primeiramente pelas formas belas
à filosofia; posteriormente, para os vários
aspectos do ser humano e do mundo antropocêntrico
e teocêntrico. Ele mesmo afirmara que a filocalia
(amor à beleza) era o passo necessário para
a filosofia (amor à sabedoria).
* amante da verdade. Sempre a procurou. Sua atitude de
busca o fez trilhar vários caminhos antes da conversão.
* desejoso da Felicidade. "Todo homem quer verdadeiramente
ser feliz".
* inteligência e coração. Uma das
expressões mais utilizadas nos brasões agostinianos
é sciencia et charitas. Não se pode entender
Agostinho separando mente e coração. Ilumina
a sensibilidade com a inteligência e dá sensibilidade
à razão.
* afetiva e emocionalmente equilibrado. Em todos os seus
escritos transpira uma aversão ao pecado, mas um
grande respeito e amor à pessoa. Agostinho é
otimista metafísico e teológico.
Professor
de Retórica
A
Retórica, em sentido estrito, é um corpo
de doutrina que se propõe ditar normas que capacitam
à pessoa falar em público e a levar os outros,
por meio da palavra, à persuasão. Num sentido
mais amplo, no entanto, Retórica ultrapassa o campo
da eloquência, invadindo o da poética, até
se tornar também a arte de escrever belamente.
Agostinho, como professor de Retórica, necessariamente
tinha que se desenvolver na arte do falar e do escrever.
À medida que ele ia ministrando esta arte aos seus
alunos, foi adquirindo, pelo seu gênio, uma versatilidade
em relação à mesma. Ao lado de grandes
leituras que lhe deram o conteúdo, adquiriu, assim,
o manejo da arte da persuasão através da
palavra falada e escrita, que lhe deu a forma. Isso explica,
em parte, a proficuidade dos escritos do Santo.
Converso
A
crítica moderna tem pretendido demolir o conceito
tradicionalmente aceito da conversão agostiniana,
solapando, assim, a veracidade do relato das Confissões.
É claro que parecem um tanto divergentes os relatos
próprios de sua conversão. Por exemplo,
se formos comparar Contra acadêmicos, 2,2,5; PL
32,921; De beata vita 1,1,4; De utilitate credendi 1,8,20;
PL 42,78-79. De fato, temos a impressão que o convertido,
segundo os Diálogos de Cassicíaco, não
pode ser o mesmo convertido segundo as Confissões.
Mas devemos entender que as Confissões foram redigidas
cerca de doze anos depois, o que explica o novo colorido
que dá aos fatos. Nos Diálogos aparece o
neo-convertido, não o teólogo e polemista.
Daí admitirmos não uma ruptura ou contradição
entre os escritos, mas uma evolução. Muito
menos ainda, considerar por estes motivos, que alguma
destas obras tenham caráter de apócrifas.
Contudo, há verdadeiras discussões e antagonismos
sobre o processo espiritual de Agostinho. Uns afirmam
que o neoconverso aparece como um simples discípulo
de Plotino, um neófito da filosofia, da arte, da
escola da sabedoria antiga, não um discípulo
de Cristo ou verdadeiro catecúmeno e converso da
Igreja Católica. Propriamente não se poderia
falar de conversão, mas de evolução
espiritual. Mas, onde entraria, então, a Graça?
Segundo H. Gros, uma conversão supõe três
etapas: 1. Um estado anterior de dispersão e desordem;
2. Um estado intermédio de crise; 3. Um estado
de ordem e de unidade na alma (Cfr. BAC v. I, Obras de
San Agustín, p. 19). Estas três etapas têm
um realce especial e extraordinário na conversão
de Agostinho.
Cristão
Com
a conversão, Agostinho incorporou à vida
nova a multidão de elementos adquiridos anteriormente.
Foi, assim, ampliando sua síntese de vida, enriquecendo-a
agora com os valores evangélicos. O Agostinho humano
não desapareceu sob o Agostinho cristão.
Mas ninguém pode duvidar que a cena do horto de
Milão tenha mudado radicalmente sua vida. Trata-se
de uma verdadeira conversão:
* mudança nas idéias: antes tinha uma verdadeira
repulsa à verdade central do cristianismo: a encarnação
do Filho de Deus.
* mudança de afetos e sentimentos: antes voltados
para o terreno; agora orientados para o absoluto e eterno.
Mas
Agostinho não queria ser cristão apenas
conforme os preceitos evangélicos. Se assim fosse,
não teria tido problemas maiores. Austero e generoso,
fiel à mulher com a qual convivia, pai extremado,
teria podido receber o batismo, celebrar ocasamento, esperar
a promoção que se previa não distante.
Teria, assim, sido um bom cristão, um bom administrador
e filósofo. Contudo, ele aspirava e olhava bem
mais alto. Queria dedicar-se inteiramente à Sabedoria,
rompendo com as esperanças terrenas. Este era seu
propósito desde os 19 anos: procurar a sabedoria
e, uma vez encontrada, transferir-se a ela com toda a
alma (Conf. 3, 4.7.8; 6, 11,18; 8, 7,17). Agora já
não havia mais as justificativas anteriores que
o impediam de realizar estas aspirações.
A verdade já aparecia certa. Os obstáculos
a serem vencidos eram três: as riquezas, as honras,
a mulher (Confissões 6,6,9). O primeiro, na verdade,
não era muito forte, pois, desde a leitura de Hortênsius
aprendeu a não desejar as riquezas e a não
buscar senão o necessário alimento e a honesta
utilidade (Soliloquios 1,10,17). A segunda, isto é,
a ambição do sucesso o havia dominado mais
longamente. Foi essa ambição que o empurrou
principalmente de Tagaste a Cartago, de Cartago a Roma,
de Roma a Milão. Mas também essa ambição
já havia dado passo ao amor da sabedoria. Quando
Simpliciano lhe contou que Vitorino, sujeitando-se à
lei do imperador Juliano que proibia aos cristãos
de ensinar literaura, havia deixado, depois da conversão,
o ensino, julgou que aquela atitude foi de sorte e não
de violência: lhe oferecia de fato ocasião
de dedicar-se inteiramente a Deus. O terceiro obstáculo,
a mulher, parecia-lhe mais forte. Com longas conversas
procurou convencer Alípio, pois este tinha opinião
diferente de Agostinho. O projeto de um "mosteiro"
de filósofos, falido logo no começo pela
presença das mulheres, deu razão a Alípio,
mas não desarmou Agostinho (Confissões 6,14,24).
Quem do grupo mais impelia Agostinho ao casamento era
Mônica. Mulher inteligente e prática, pensava
que somente no casamento Agostinho poderia viver aquele
ideal cristão, ao qual se aproximava cada dia mais.
Chegou mesmo a encontrar uma donzela milanesa que logo
aceitou a idéia, mas que lhe faltavam ainda dois
anos para a idade núbil. Essa moça parecia
ter os dotes necessário para a situação(Solil.
1,10,17). Rumo a África, Agostinho passou por Roma,
onde permaneceu por dez meses, visitando mosteiros, os
lugares religiosos e escrevendo livros. Roma, agora olhada
com olhos cristãos, marcou-o indelevelmente.
Monge
Recebida
a graça da conversão, Agostinho decidiu
retornar à sua terra natal acompanhado de concidadãos
e amigos. Seu propósito era colocar em prática
o programa de vida concebido em Milão e estudado
em Roma.
"Chegado
(em Tagaste), aqui permaneceu por três anos. Renunciou
aos bens, e junto com aqueles que lhe foram unidos, vivia
para Deus nas preces, nas boas obras, meditando dia e
noite a Lei do Senhor. E das verdades que Deus revelava
à sua inteligência na meditação
e na oração ele tornava participantes aos
que estavam presentes e ausentes,ensinando-os com sermões
e com livro" (Possídio, Vida de Santo Agostinho
3,1,2).
Este
texto explica bem o ideal agostiniano: pobreza, vida comum,
ascetismo, estudo, apostolado. O objetivo era, no dizer
de Possídio, "viver Deus" (=viver para
Deus), ou, como já havia dito o próprio
Agostinho: deificari in otio (deificar-se na tranquilidade
da vida contemplativa).
A
comunidade foi crescendo. Agostinho sentia a obrigação
de ensinar a todos a voltarem-se para dentro de si mesmos
(In Jo 18,10; Sermão 52,22). Uma ciência
difícil que era e ficará sendo para ele
o ponto central da vida monástica. Enquanto isso,
continuava seu programa intelectual e apostólico.
Sacerdote
Como
Agostinho se tornou e quais as circunstâncias que
acompanharam sua escolha? Vejamos o que ele mesmo nos
diz:
"Eu
procurava um lugar onde estabelecer um mosteiro e viver
com meus irmãos. Tinha abandonado já toda
esperança neste mundo e, aquilo que eu poderia
ter sido, não quis sê-lo, nem mesmo pocurei
ser o que agora sou (bispo). Escolhi ser humilde na casa
do Senhor, antes que viver nas casas dos pecadores (Salmo
83,11). Procurei manter-me longe daqueles que amam o mundo,
e nem me retive igual àqueles que governam os povos.
Ao chamado do meu Senhor não escolhi um lugar superior,
mas inferior e humilde... eu temia o episcopado... tanto
que evitei freqüentar lugares onde sabia que o ofício
de bispo era vacante. Mas,...o servo não deve contradizer
ao patrão. Tinha vindo a esta cidade para visitar
um amigo a quem eu pensava conquistar para Deus a fim
de que pudesse viver conosco no mosteiro. Sentia-me seguro,
pois naquela cidade havia bispo. Fui tomado e feito sacerdote.
Assim, através do grau do sacerdócio cheguei
ao episcopado (Sermão 355,2).
Por
meio de outras fontes ficamos sabendo de outros detalhes:
o velho Valério, bispo de Hipona, era grego de
nascimento e não dominava bem o latim. Necessitava,
portanto, da ajuda de um sacerdote. Ignorando tudo quanto
estava para acontecer, Agostinho estava ali, no meio do
fiéis. Sua presença, contudo, não
passou despercebida. Valério expôs ao povo
suas dificuldades. As palavras do velho bispo excitaram
os ânimos dos fiéis presentes. Então,
"apoderaram-se dele e, como se costuma em tais casos,
o apresentaram ao bispo para que o ordenasse: todos, com
unânime consenso e desejo pediam, com grande animosidade
e algos gritos, que assim se fizesse" (Possídio,
Vida de Santo Agostinho 4,2).
Mas,
ainda que investido do caráter sacerdotal, conseguiu
conciliar o sacerdócio com a vida pastoral e monacal
(Cf. Sermão 355,2).
Assim,
a vida monástica religiosa foi se difundindo rapidamente
por todo o norte da África com esta nova característica
de união entre a vida comunitária e apostólica.
"Eu mesmo, continua Piossídio, tenho conhecido
uma dezena de santos e veneráveis varões,
castos e doutíssimos, que o bem-aventurado Agostinho
consentiu dar a diversas igrejas, algumas das quais até
mesmo de muita importância" (em, Vida de Santo
Agostinho 11,2,5) O mesmo Poissídio foi membro
de um dos mosteiros antes de se tornar bispo de Calama.
Agora
sacerdote, Agostinho precisou aprofundar e dar uma direção
nova à sua vida. Inclusive nos seus estudos. Obrigou-o
a aprofundar com maior urgência sua cultura religiosa,
teológica. Aliás, já estava pensando
nisto em Tagaste, mas lhe faltava tempo. Agora, a urgência
superava o tempo. Daí seu profundo estudo das Escrituras
e autores eclesiásticos.
Bispo
A
sagração episcopal não foi menos
movimentada do que sua ordenação sacerdotal.
Também neste caso o bispo insiste, o candidato
resiste, o povo aclama. Uma variante, contudo: o velho
Megálio de Calama, primaz da Numídia, que
devia sagrá-lo, se recusa. Valério tinha
pressa a que Agostinho fosse sagrado bispo. Já
de idade avançada, não queria perder tal
candidato. Dois colegas de Agostinho tinham já
sido escolhidos: Alípio, para Tagaste, Profuturo,
para Cirta. O bispo Valério, com muita astúcia,
pediu a Megálio de Calama para fazer uma visita
à igreja de Hipona; e, aqui, diante dos bispos
reunidos em concílio regional e diante do povo,
anunciou a sua intenção. Segundo Possídio,
"Todos, ao ouvir aquilo, se alegraram e com grande
entusiasmo gritaram para que assim se fizesse".
Mas,
surgiram algumas dificuldades:
* o costume na igreja da África não permitia
mais de um bispo para cada sede;
* Megálio, que deu ouvido a certas acusações
de donatistas, entre as quais aquela que acusava Agostinho
de ter problemas amorosos, não queria consagrá-lo.
Contudo,
não foi preciso muito para convencer Megálio
e outros opositores. O próprio Agostinho deixou-se
persuadir pelas exceções que estavam se
tornando comuns, tanto na África quanto nas igrejas
de além mar, a respeito do primeiro problema (ele
não sabia, então, que havia uma proibição
de um concílio universal, o de Nicéia, sobre
este ponto). Quando, mais tarde, tomou conhecimento ficou
profundamente aborrecido, conforme suas Cartas 31,4 e
213,4, escritas posteriormente.
Quanto
ao segundo problema, Megálio reconheceu logo que
havia sido enganado e confessou publicamente o seu erro
(Contra Cresconium 3,80,92; 4,64,79; Contra litt. Petil.
3,16,19). A sagração episcopal de Agostinho
ocorreu entre os anos 395 e 397. Na realidade, isto é
muito discutido. Uma coisa é certa: o episcopado
foi para ele um peso. Nunca o desejou, embora o tenha
aceitado por amor e o exerceu com amor, conforme ele escreve
ao monges de Cartago (Cf. De opere monachorum 29,37).
É
seu o aforisma: praesse est prodesse: estar à frente
é ser útil (=presidir é servir).
Não se pode entender Agostinho, se não numa
linha de "disponibilidade" e de serviço.
Nessa linha é que deve ser entendida a "pobreza"
agostiniana; não tanto no sentido do não
ter, mas do estar disponível às necessidades
da Igreja e dos irmãos.
Agostinho
tinha razão de insistir sobre o peso do episcopado.
No século IV, na África, numa cidade como
Hipona, que também era porto marítimo, vinham
forasteiros de todas as partes, inclusive os camponeses
do interior. Social e religiosamente a população
era dividida. Era muito pesado para Agostinho, principalmente
na administração da justiça, sentar-se
por horas a fio no tribunal, escutar, admoestar, decidir
era tarefa extenuante. Muitas vezes até a hora
da refeição; outras vezes o dia inteiro
em jejum (cf. Possídio, Vida de Santo Agosdtinho,
19,2,5).
Podemos
aplicar a Agostinho as mesmas palavras que ele dirigia
a Pedro que havia pedido a Cristo ficar no monte Tabor:
"Desce, ó Pedro. Desejavas repousar sobre
o monte. Mas, não, desce; proclama a Palavra...
trabalha, suporta a fadiga, sofre os tormentos... A realização
do teu desejo, ó Pedro, está reservada,
mas para depois da morte. Nesta ocasião, ele mesmo,
o Senhor, te diz: 'Desce à terra para trabalhar,
para servir, para ser desprezado, para ser crucificado'.
A Vida desceu para fazer-se matar; desceu o Pão
para passar fome; desceu o Caminho para cansar-se no caminho;
desceu a Fonte para sofrer a sede; e tu recusas trabalhar?
Não procure o teu interesse. Tenha a caridade,
proclama a verdade e chegarás à eternidade,
encontrarás a paz" (Sermão 78,6).
Agostinho
foi sacerdote por cinco anos e viveu 34 anos de episcopado.
Hipona era uma cidadezinha de cerca de 40.000 mil habitantes.
As
obras de Agostinho
Nossa
intenção aqui não era apenas apresentar
uma lista, mas um comentário, ainda que sumário,
de suas obras. Mas para não ferir os direitos alheios,
remetemos nossos leitores ao eminente agostinólogo
Agostino Trapé (Patrologia, Institutum Patristicum
Augustinianum, v. III, Edit Marietti, (Roma) Torino, 1978,
pp. 336-381), onde se poderá encontrar, além
de uma lista das obras agostiniana, uma breve referência
ao conteúdo de cada obra elencada. Seja como for,
queremos dizer que, para entender suficientemente as obras
e o conteúdo dos escritos de Agostinho, é
necessário, antes de tudo, situá-lo no tempo
e no espaço.
De
fato:
* há uma evolução no seu pensamento.
Então, é muito importante saber se ele escreveu
no começo de sua conversão ou já
na maturidade de sua vida e, portanto, de suas idéias.
* muitas vezes lança mão de recursos retóricos:
alegorias, exposições, hipérboles,
etc.
* a intecionalidade do escrito determina uma certa conotação
unilateral para reforçar o argumento.
* o contexto da Igreja na época faz com que ele
assuma certos posicionamentos.
Fontes
As
fontes literárias dos seus escritos são
duas, e ambas, devemos reconhecer, são incompletas:
as "Retratações" e o "Indículo"
(pequeno índice) de Possídio. Agostinho
já estava pensando nas "Retratações"
desde o ano 412 (Cf. Epístola 143,2), mas só
começou a fazê-la nos anos 426-427 (Retractationes
2,4,51 e De doctrina christiana 4,26,53). Foi um longo
e minucioso exame de consciência sobre toda sua
produção literária. Dividiu-a, segundo
o gênero literário, em livros, cartas e tratados.
Pode recensear apenas os livros, colocando-os em ordem
cronológica, a fim de que o leitor pudesse conhecer
"como, ao escrever, fez progressos". Faltou-lhe
tempo para rever o restante das obras. Além da
importância bibliográfica, as "Retratações"
têm outros valores de não menor monta: doutrinal,
que oferece a chave para ler suas obras e conhecer seu
pensamento conclusivo; autobiográfico, já
que revelam a personalidade de Agostinho. Possídio,
seu primeiro biógrafo, acrescentou à sua
obra (Vida de Santo Agostinho), uma lista das obras produzidas
por Agostinho. Indicou aí, entre livros, cartas
e tratados, 1030 obras, não considerando aquelas
que "não podem ser numeradas", dizia
ele. Certamente se referia ao catálogo das obras
existentes na Biblioteca de Hipona (Retract. 2,41), da
qual, tanto o "Indículo" como as "Retratações"
dependem. Apesar de suas lacunas e alguns descuidos, trata-se
de um documento precioso.