O
nome Miguel é escassamente referido na Bíblia,
o que é considerado por alguns como uma revelação
de discrição ou importância relativa
que envolve esta sua figura. Assim, temos:
Livro
de Daniel
* Referido duas vezes no capítulo 10:
"Mas o príncipe do reino da Pérsia
me resistiu vinte e um dias, e eis que Miguel, um dos
primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu
fiquei ali com os reis da Pérsia." e "Mas
eu te declararei o que está registrado na escritura
da verdade; e ninguém há que me anime contra
aqueles, senão Miguel, vosso príncipe."
Os estudiosos dividem-se acerca destas duas passagens:
alguns crêem ver neste Miguel, o Arcanjo; a maioria,
porém, acredita que nestes versículos, Miguel
é apenas uma figura que, de acordo com a crítica
bíblica, é provinda da mitologia Persa com
a qual o povo Hebreu contactou aquando do seu Exílio
na Babilónia e não identificável
com o Anjo com o mesmo nome;
* Primeiro no capítulo 12 do livro de Daniel: "Ao
final dos tempos aparecerá Miguel, o grande Príncipe
que defende os filhos do povo de Deus. E então
os mortos ressuscitarão. Os que fizeram o bem,
para a Vida Eterna, e os que fizeram o mal, para o horror
eterno";[1]
Livro
da Revelação
* No capítulo 12 do Livro da Revelação
(ou Apocalipse): "Houve uma grande batalha no céu.
Miguel e seus anjos lutaram contra dragão e suas
legiões, que foram derrotadas, e não houve
lugar para eles no céu. Foi precipitada a antiga
serpente, o diabo, o sedutor do mundo. Ai da terra e do
mar, porque o demônio desceu a vós com grande
ira, sabendo que lhe resta pouco tempo".
Carta
de Judas
* Na carta de Judas, o texto refere: "O Arcanjo Miguel,
quando enfrentou o diabo, disse: "Que o Senhor o
condene". Nesta passagem, alguns entendem que não
é atribuída a Miguel a faculdade de juíz
escatológico, reservada a Deus e ao seu Messias,
na medida em que ele entrega o Diabo ao juízo de
Deus. Outros, porém, argumentam que se trata do
Filho de Deus antes de lhe ser dada autoridade régia,
visto que esta passagem relembra um acontecimento muito
anterior à época em que Jesus veio à
Terra e foi posteriormente ressuscitado.
Nos
apócrifos
No
livro de Enoque ele é designado como o príncipe
de Israel. No livro dos Jubileus, ele é retratado
como o anjo que instruiu Moisés na Torá.
Nos Manuscritos do Mar Morto é retratado lutando
contra Beliel.
Definição
na Igreja Católica e no Protestantismo
O
Catolicismo, nas suas vertentes "Ortodoxa" e
"Romana", mantém uma considerável
devoção por São Miguel Arcanjo, especialmente
demonstrada nas situações em que são
efectuados pedidos de livramento dos seus fiéis
contra ciladas do demônio e dos espíritos
maléficos. Acredita ainda que, durante as orações,
e quando o nome do arcanjo é invocado, este defenderá
os crentes, com o grande poder que Deus lhe concedeu,
protegendo-os contra os perigos, as forças do mal
e os inimigos.
Outras
Perspectivas Religiosas
Miguel como Jesus
As
igrejas cristãs trinitárias, consideram
que, pelo facto de Miguel ser chamado de arcanjo, identificá-lo
como o Filho de Deus rebaixa, de algum modo, a dignidade
ou o posto de Jesus. Assim, rejeitando que ambos possam
ser a mesma pessoa, apresentam como argumentos as seguintes
premissas:
* Jesus é criador (João 1:3); Miguel é
criatura (Colossensses 1:16)
* Jesus é Adorado por Miguel (Hebreus 1:6), Miguel
não pode ser adorado (Apocalipse ou Revelação
22:8-9)
* Jesus é o Senhor dos Senhores (Apocalipse ou
Revelação 17:14); Miguel é príncipe(Daniel
10:13)
* Jesus é Rei dos Reis (Apocalipse ou Revelação
17:14); Miguel é príncipe dos Judeus (Daniel
12:1)
No
entanto, algumas denominações religiosas
identificam Miguel como sendo o próprio Jesus Cristo
ou como uma representação dele. O raciocínio
que os leva a crer que Miguel é apenas um outro
nome para Jesus Cristo, baseia-se nas seguintes premissas:
Arcanjo
Na
carta de Judas, no versículo 9, Miguel é
designado como "o arcanjo" termo que significa
"anjo principal". Esta é a única
ocorrência bíblica de alguém ser chamado
de "o arcanjo" o que, segundo alguns, sugere
que existe apenas um anjo assim. De facto, a palavra "arcanjo"
ocorre na Bíblia apenas no singular, nunca no plural.
Além disto, o cargo de arcanjo se relaciona com
Jesus. Sobre o ressuscitado Senhor Jesus Cristo, 1 Tessalonicenses
4:16 diz: "Porque o mesmo Senhor descerá do
céu, com alarido e com voz de arcanjo." (Tradução
J. F. Almeida) A voz de Jesus é descrita aqui como
sendo a de arcanjo. Portanto, para alguns, esse texto
indica que o próprio Jesus é o arcanjo Miguel.
Líder
Militar
Segundo
os textos bíblicos, Miguel e seus anjos batalharam
contra o dragão e seus anjos. (Revelação
ou Apocalipse 12:7), de modo que Miguel é descrito
ali como o líder de um exército de anjos
fiéis. O mesmo livro também se refere a
Jesus como líder de um exército de anjos
fiéis, no capítulo 19, versículos
14 a 16, sendo que o apóstolo Paulo menciona especificamente
o "Senhor Jesus" e os "seus anjos poderosos"
(2 Tessalonicenses 1:7), pelo que é possível
concluír que, na Bíblia, existem referências
tanto de Miguel e "seus anjos" como de Jesus
e "seus anjos". (Mateus 13:41; 16:27; 24:31;
1 Pedro 3:22)
No
entanto, e uma vez que nos textos bíblicos em nenhuma
parte é indicada a existência de dois exércitos
de anjos fiéis no céu, um comandado por
Miguel e outro por Jesus, existem observadores que sugerem
a conclusão de que Miguel não é outro
senão o próprio Jesus Cristo na sua posição
celestial.
Com
base nestes argumentos algumas denominações
cristãs desenvolveram as seguintes doutrinas:
* As Testemunhas de Jeová acreditam que Jesus e
Miguel são a mesma pessoa, a primeira a ser criada
directa e exclusivamente por Deus. Crêem que o nome
Jesus foi usado na terra por aquele que já existia
no céu na posição de Arcanjo, sendo
que nesta posição celestial gloriosa teria
o nome de Miguel.
* Os adventistas crêem também que Miguel
é Jesus, porém Ellen Gould White cria na
doutrina trinitariana. Alguns críticos das Testemunhas
de Jeová crêem que este conceito adventista
influenciou a Charles Taze Russell.
* Muitos outros téologos protestantes também
ensinavam que Miguel é Jesus, porém viam-no
como o eterno e divino Filho, muito mais do que um simples
anjo. No início do Século XIX, o erudito
bíblico Joseph Benson declarou que a descrição
de Miguel, conforme encontrada na Bíblia, "evidentemente
indica o Messias". E. W. Hengstenberg, luterano do
Século XIX, concordou que "Miguel não
é outro senão Cristo". De modo similar,
o teólogo J. P. Lange, comentando Revelação
12:7, escreveu: "Entendemos que Miguel, desde o começo,
seja Cristo em traje guerreiro contra Satanás."
Também Spurgeon e John Gill ensinaram essa interpretação.
Perspectiva
histórica desta interpretação
Histórica
e cronologicamente falando estas teses interpretativas
dos textos bíblicos referidos acima remontam ao
século IV quando foram propostas e defendidas,
quase com as mesmas argumentações, na exposição
cristológica de alguns discípulos e adeptos
do presbítero alexandrino Ário.
Tal
como se pode ver na célebre carta de Narciso de
Neroníades, discípulo de Ário, comentando
a maior obra de Ário - “Thalia” -,
a Eusébio de Nicomédia - bispo da capital
imperial e amigo de Constantino I -, as mesmas linhas
argumentativas, acima aduzidas, são apresentadas
para conciliarem as suas peculiares leituras bíblicas
com as filosofias helenistas presentes no horizonte cultural
do seu tempo (esta obra está citada e comentada,
com a apresentação das contra-argumentações
abaixo sintetizadas em H. G. Optiz – “Athanasius
Werke, III, 1: Urkunden zur Geschichte der arianischen
Streits”, Berlim). A mesma tese surge numa outra
carta, agora de Eusébio de Nicomédia a Paulino
de Tiro (citada e comentada com as contra-argumentações
dos teólogos de então em F. Paschke - “Überlieferungsgeschichtliche
Untersuchungen”, Berlim)
Na
ocasião as contra-argumentações que
foram apresentadas para desmontar, e demonstrar a insustentabilidade,
das teses dos filo-arianos, embora possam parecer aos
olhos de hoje muito simples, não destoam da pouca
profundidade crítica e teológica daquelas
que lhes deram origem: além de uma clara rejeição
de toda a angeolatria (Colossenses 2:18; Hebreus 1:14;
2:5; Apocalipse 19:10) como contrária a toda a
revelação bíblica, estrutura-se,
a referida crítica, em redor da contextualização
da citação de Judas 1:9, a qual é
uma citação do livro apócrifo - não
inspirado nem canónico - da “Assunção
de Moisés” que, por sinal, refere-se a três
(eventualmente quatro: Gabriel, Miguel, Rafael e Satã
arcanjos donde Miguel não seria o único
arcanjo, pelo que a expressão “? a??a??e???”
- num facto corroborado pela construção
sintáxica do texto original do citado livro apócrifo
-, nunca poderia ser um oposto a “???a??”.
Referem-se, ainda, ao facto de não obstante somente
no livro de Naum se dizer que é um livro de dado
profeta ("sëper Házôn naHûm")
não se poder, daí, «concluir que os
restantes textos proféticos não sejam também
livros proféticos» (página 284).
A
respeito da tentativa de identificar Jesus com Miguel,
por referência às citações
comuns a ambos de comandarem legiões celestes (Mateus
13:41; 16:27; 24:31; 1 Pedro 3:22), citam uma carta do
próprio Ário que fala dos “presbíteros
de Prólico (seu superior monástico)”
e dos “presbíteros de Alexandre (seu bispo)”
para mostrarem que não é pelo facto de nas
duas únicas referências a “presbíteros
de” se referirem a Prólico e a Alexandre
que se pode identificar Alexandre com Prólico,
pois «“os presbíteros” daquele
são mais do que os deste, sem que passem a constituir
dois corpos presbiterais, antes estando o de Prolico inserido
no de Alexandre» (página 323). Analogamente,
dizem os detractores clássicos da antiguidade acerca
da tese da identificação de Miguel com Jesus,
as "legiões de Cristo" são maiores
do que as de Miguel, pois somente, ainda segundo o livro
do Apocalipse e a carta de Judas, Miguel não assumiu
o papel de juiz escatológico, deixando-o para Jesus
Cristo, pois «apesar de votar Satã ao degredo,
não o julga nem acusa nem condena» (página
316).
Por
sinal, nesta carta, não é citada a passagem
de Tessalonicenses, mas na contra-argumentação
geral, aduz-se que “e?” mais dativo não
é neste contexto construção modal
(“com voz de…”), mas temporal (“à
- quando se fizer ouvir a - voz de…”) tal
como em 1 Tessalonicenses 5:2 (Nota: as teses e contra-teses
aqui apresentadas estão nas duas obras acima referidas).
Estas
perspectivas dos críticos de Narciso e de Eusébio
de Nicomédia são retomadas, por sinal, num
dos maiores expoentes da literatura inglesa: O Paraíso
Perdido de John Milton, no qual, é somente após
a intervenção de Cristo com as suas legiões
de anjos que o combate iniciado pelo arcanjo Miguel se
decide para o lado de Deus (canto VI).
O
anjo Miguel nos manuscritos do Mar Morto
Desde
a publicação, em 1991, da quase totalidade
dos textos descobertos no deserto da Judeia - comummente
conhecidos como os manuscritos do Mar Morto - que o estudo
acerca da angeologia judaica sectária e extra-biblica
teve um grande desenvolvimento.
Nestes
textos - numa perspectiva que viria a ser recuperada pelos
movimentos gnósticos do século I - Miguel
é apresentado como a figura celestial de Melquisedeque
exaltado, elevado aos céus. É - ver 11Q13
- analogicamente referido como o "princípe
da luz" que dará combate ao "principe
das trevas" - Satã, Belial ou Melkireshah
(o príncipe das profundezas da Terra) - aquando
da grande batalha celeste que antecederá o fim
dos tempos e a nova vinda do fundador da comunidade essênia,
o "Mestre da Justiça", como messias escatológico.
Neste
contexto, de facto, e numa descrição profundamente
âmbivalente, em 4Q529 e 6Q23 o triunfo definitivo
da paz não lhe é atribuido - veja-se o texto
Bíblico de Judas 1:9 onde Miguel recusa a função
de juíz escatológico: «Mas o arcanjo
Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito
do corpo de Moisés, não ousou pronunciar
juízo de maldição contra ele; mas
disse: "O Senhor te repreenda"» - mas
apenas é o seu arqui-estratega. Miguel recusa inclusive
o título de "Senhor" e de "Salvador",
ao mesmo tempo que - segundo 4Q246 - aguarda que, tal
como o seu modelo histórico apresentado neste texto,
Antíoco Epifânio, se possa autoproclamar
"um deus" e ser adorado como deus, tal como
aquele em Daniel 11, 36-37.
Finalmente,
e para se concluir esta breve descrição
de Miguel/Melquisede segundo os manuscritos do Mar Morto,
Miguel é mesmo apresentado - na linha de interpretação
que o vê como o grande usurpador do senhorio de
Deus e que será retomada, com algumas matizes,
por movimentos para-cristãos nascidos no século
XIX - a louvar o malquisto rei Sedecias - veja-se 2Reis
24,19 -, prometendo-lhe, inclusive, uma aliança
para que este leve a bom termo os seus planos malévolos.
Em
síntese, vê-se que a angeologia apresentada
por estes textos não é homogénea,
mas aduz um grande leque de orientações
desde as menos negativas - as que consideram Miguel como
Melquisedeque exaltado, mas com desejos de ser adorado
- até às profundamente negativas - as que
o concebem como próximo do malévolo rei
Sedecias -. Nos primeiros séculos da era comum,
como se apresenta abaixo neste artigo, esta literatura
teve muita influência em círculos gnósticos
vindos do helenismo platonizado na medida em que a sua
falta de clareza e a âmbiguidade exotérica
- quase a roçar o paganismo (de facto jamais tais
perspectica poderiam ser tidas como inspiradas - quer
pelo judaísmo, quer pelo cristianismo) - serviu
plenamente os seus intuitos de estabelecerem pontes de
contacto com o crescente influxo cultural do cristianismo
e, assim, não perderem a sua importância
religiosa.
Perspectivas
mitológicas
De
acordo com alguma angeologia inter-testamentária
heterodoxa ("Revelação de Satanás"
e "Ascenção de Melquisedec"),
retomada posteriormente por cristão gnósticos
- que não admitiam que Deus pudesse na verdade
ter tocado, andado e vivido num mundo que consideravam
perverso e diabólico - e cultos pagãos mistéricos
da bacia do Mediterrâneo Oriental - que se serviram
desta figura que tão poucas vezes aparece nomeada
na Bíblia para estabelecerem pontes com cristãos
menos formados -, o Anjo Miguel - "malach Micha'el"
- ou o Justo Miguel - "sedek Micha'el" -; não
era senão Melquisedeque "Mal'ch sedek"
exaltado, glorificado, não sendo, pois, identificável
como uma criatura primogénita.
Para
estes movimentos que orbitavam o cristianismo primitivo,
profundamente influênciados pela corrente filosófica
do platonismo - que concebia a sua cosmologia como uma
contínua estratificação de seres
intermédios entre um demiurgo impotente e indiferente
para com a humanidade e a sua criação -
"sedek Micha'el" seria a figura do justo por
excelência, aquele que, segundo Platão, morreria
crucificado.
Misturando
esta convicção filosófica com correntes
cristãs heterodoxas, passaram a acreditar que,
quem morrera na cruz, sob Pôncio Pilatos, afinal
não fora senão Melquisedeque sob a aparencia
de Jesus de Nazaré que, na verdade, segundo estes,
jamais existira. Para estes "sedek Micha'el",
enquanto andou sobre a Terra debaixo da aparência
de Jesus de Nazaré, jamais fora verdadeiramente
homem, rejeitando terminantemente que ele tivesse tido
a necessidade de comer, beber, dormir, expressar emoções
ou realizar necessidades fisiológias pois, se assim
não fosse, não teria podido ser um anjo,
isto é, um ser puramente espiritual.
Estas
convicções, imensamente influênciadas
pelas angeologias pagãs e exotéricas que
pululavam no Mediterrâneo Oriental, são hoje
totalmente tidas como miticas e desprovidas de qualquer
valor histórico, embora continuem a formar o pano
de fundo para muitas correntes religiosas que tiveram
o seu impulso inicial em William Miller. Independentemente
da história que rodeia esta figura - e de toda
a polémica que surgiu em redor do grande desapontamento
acerca do dia que o mesmo previu ser o da vinda definitiva
de Jesus/Melquisedeque, com a posterior criação
de inumeras teorias da conspiração que geraram
uma história, uma politica e uma sociologia paralela
e alternativa - a verdade é que a sua impar capacidade
de reler estas tradições para o seu tempo,
marcaram profundamente milhares de pessoas que, descontente
com a realidade e incapazes de viverem nela, nas suas
perspectivas miticas e neo-pagãs - num verdadeiro
"proto-New Age", ou "New Age avant la lettre"
-, misturadas com um cristianismo débil que conheceiam
e apreenderam, encontraram uma nova "fuga mundi"
escapista.