Alcançou
a sua máxima expansão geográfica
nos séculos III e IV d.C, tendo se tornado um forte
concorrente do cristianismo. O mitraísmo recebeu
particular aderência dos soldados romanos. A prática
do mitraísmo, assim como de outras religiões
pagãs, foi declarada ilegal pelo imperador romano
Teodósio I em 391.
Origens do mitraísmo
Mitra
era uma divindade indo-iraniana cuja origem remonta ao
II milénio a.C.. O seu nome é mencionado
pela primeira vez num tratado entre os Hititas e os Mitânios,
assinado por volta de 1400 a.C.. Na Índia, surge
nos hinos védicos como um deus da luz, associado
a Varuna. No Avesta é um deus benéfico,
colaborador de Ahura Mazda, desempenhando funções
de juiz das almas. É possível que o seu
culto tenha chegado ao ocidente graças à
difusão do zoroastrismo a partir do Irão.
No entanto, alguns investigadores modernos consideram
que não é legítimo estabelecer uma
relação entre o Mitra indo-iraniano e o
Mitra do mitraísmo, razão pela qual denomina
a este último como Mithras (versão helenizada
no nome) para distingui-lo do primeiro.
Doutrinas
do mitraísmo
A
informação existente sobre o mitraísmo
é fragmentária, referindo-se sobretudo ao
Baixo Império Romano. Sabe-se que era uma religião
de mistérios, do tipo iniciático, baseada
na transmissão oral e ritual de iniciado a iniciado
e não num corpo de escrituras sagradas, razão
pela qual os documentos escritos referentes à religião
são praticamente inexistentes. Um importante elemento
para o conhecimento do mitraísmo são os
elementos iconográficos que se encontraram nos
templos associados ao culto.
O
mithraeum
O
culto de Mitra era realizado em templos denominados mithraeum
(palavra em latim cujo plural é mithraea). Estes
espaços começaram por ser cavernas naturais;
mais tarde, optou-se por construções escuras
e sem janelas que imitavam as cavernas naturais. Os templos
eram de capacidade limitada; a maior parte deles não
podia receber mais do que trinta ou quarenta pessoas.
No
mithraeum podiam distinguir-se as seguintes partes:
* A antecâmara;
* O spelaeum ou spelunca (caverna), uma sala rectangular
decorada com pinturas e com dois bancos posicionados junto
a cada uma das paredes onde se faziam os banquetes sagrados;
* O santuário, no extremo da caverna, onde estavam
o altar e a imagem (pintura, baixo-relevo ou estátua)
de Mitra matando um touro.
Encontraram-se
vários mithraea em territórios que pertenceram
ao Império Romano, alguns dos quais foram transformados
em criptas de igrejas cristãs. A maior concentração
destes edifícios encontra-se em Roma, mas também
se descobriram em locais como o norte da Inglaterra e
a Palestina. A sua distribuição na antiga
área do Império Romano encontra-se relacionada
com a localização de quartéis e de
instalações militares.
Mitologia
e iconografia
Não
existem textos sobre o mitraísmo escritos pelos
adeptos pelo que as únicas fontes para o conhecimento
da religião são as imagens encontradas nos
templos.
1.
Relato mítico
Segundo
as imagens dos templos e os escassos testemunhos escritos,
o deus Mitra nasceu perto de uma fonte sagrada, debaixo
de uma árvore sagrada, a partir de uma rocha (a
petra generatrix; Mitra é por isso denominado de
petra natus). Este aspecto relaciona-se com as tradições
arménias sobre a caverna de Meher (Mitra). No momento
do seu nascimento trazia na cabeça o barrete frígio,
uma tocha e uma faca. Foi adorado pelos pastores pouco
tempo depois do seu nascimento. Com a sua faca, cortou
as folhas da árvore sagrada com as quais criou
a sua roupa.
Enquanto
pastoreava nas montanhas encontrou o touro primordial,
que agarrou pelos cornos e montou, mas com o seu galope
selvagem a besta fez com que ele saísse de cima
dele. Mitra continuou agarrando os cornos do animal, tendo
o touro o arrastado por bastante tempo até que
o animal ficou cansado. O deus agarrou-o então
pelas patas traseiras e carregou-o aos ombros. Levou-o
vivo, com muitas dificuldades, até à sua
caverna. Esta viagem de Mitra com o touro às costas
é denominada de transitus.
Quando
chegou à caverna um corvo enviado pelo sol comunicou-lhe
que deveria realizar o sacríficio; Mitra, segurando
o touro, cravou-lhe a faca no flanco. Da coluna vertebral
do touro saiu trigo e o seu sangue era vinho. O seu sémen,
recolhido e purificado pela lua, gerou animais úteis
ao homem. Ao local chegou um cão, que comeu o trigo,
um escorpião, que enfiou as suas pinças
nos testículos do animal, e uma serpente.
2.
Iconografia
Algumas
pinturas mostram Mitra carregando uma rocha sobre as costas,
como Atlas na mitologia grega, ou vestido com uma capa
cujo forro interior representa o céu estrelado.
Perto de um mithraeum próximo da Muralha de Adriano
foi encontrada uma estátua em bronze de Mitra emergindo
de um anel zodiacal em forma de ovo (a estátua
encontra-se actualmente na Universidade de Newcastle).
Uma inscrição encontrada em Roma sugere
que Mitra poderia identificar-se com o deus criador do
orfismo, Fanes, que surgiu de um ovo cósmico no
começo do tempo, dando origem ao universo. Esta
posição é reforçada por um
baixo-relevo no Museu Estense de Modena, onde se vê
Fanes a nascer de um ovo, rodeado pelos dozes signos do
Zodíaco, uma representação muito
semelhante à que se encontra na Universidade de
Newcastle.
A
imagem central do mitraísmo é a da tauroctonia,
ou seja, a representação do sacríficio
ritual do touro sagrado por Mitra. Esta representação
tem elementos iconográficos fixos: Mitra surge
como o barrete frígio e olha para o touro com compaixão;
em muitos casos, a cabeça de Mitra olha para trás
para evitar olhar directamente para o touro. Inclinado
sobre o touro, o deus degola-o com uma faca sacrificial.
Da ferida do touro nasce trigo e junto ao touro encontram-se
vários animais: um escorpião que aperta
com as suas pinças os testículos do touro;
uma serpente; um cão que se alimenta do trigo que
nasce da ferida e um corvo. Por vezes aparecem também
um leão e um copo. A imagem está flanqueada
por duas personagens portadores de tochas, Cautes e Cautópates.
A cena surge situada numa espécie de caverna, sendo
possivelmente a representação do mithraeum,
ou de acordo com outras interpretações,
do cosmos, dado estarem presentes o sol e a lua.
3.
Interpretações
Franz
Cumont, autor de um estudo clássico sobre a religião
de Mitra, interpreta esta imagem à luz da mitologia
iraniana. O autor vincula a imagem com textos que se referem
ao sacríficio de um touro por Ahriman, divindade
do mal, que é o opositor de Ahura Mazda; dos restos
do touro nasceriam depois todos os seres. De acordo com
a hipótese de Cumont, Ahriman seria mais tarde
substituído por Mitra no relato mítico e
sob esta forma o relato teria chegado ao Mediterrâneo
Oriental.
David
Ulansey apresentou uma explicação radicalmente
diferente da imagem do Mitra Tauroctonos baseada no simbolismo
astrológico. De acordo com esta teoria a imagem
do Tauroctonos é a representação
de Mitra como um deus tão poderoso que é
capaz de colocar o universo em ordem. O touro seria o
símbolo da constelação de Touro.
Nos primórdios da astrologia, na Mesopotâmia,
entre o V milénio a.C. e o III milénio a.C.
o sol encontrava-se em Touro durante o equinócio
de Primavera. Devido à precessão dos equinócios
o sol estava no equinócio da Primavera numa constelação
diferente cada 2160 anos pelo que passou a estar em Carneiro
por volta do ano 2000 a.C., marcando o fim da era astrológica
de Touro.
O
sacrífico do touro por Mitra representaria esta
mudança, causada segundo alguns crentes, pela omnipotência
do seu deus. Isto estaria em consonância com os
animais que figuram nas imagens de Mitra Tauroctonos:
o cão, a serpente, o corvo, o escorpião,
o leão, o copo e o touro que são interpretados
como sendo as constelações de Canis Minor,
Hydra, Corvus, Scorpio, Leo, Aquarius e Taurus, todas
no equador celeste durante a era de Touro.
Níveis
de iniciação
O
mitraísmo possuía sete níveis de
iniciação, que podem estar relacionados
com a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte,
Júpiter e Saturno, de acordo com a interpretação
de Joseph Campbell. A maioria dos membros chegavam apenas
ao quarto grau (leo) e apenas uma minoria chegava aos
escalões superiores. Os sete níveis eram
os seguintes:
* Corax (corvo).
* Cryphius (oculto). Par alguns autores este nível
seria Nymphus (esposo).
* Miles (soldado). Tinha como insígnias a coroa
e a espada.
* Leo (leão). Durante os rituais oferecia a Mitra
as oferendas.
* Perses (persa).
* Heliodromus (emissário solar). As suas insígnias
eram a tocha, o chicote e a coroa.
* Pater (pai). As suas insígnias - o barrete frígio,
o bastão e o anel - fazem lembrar as do bispo.
Durante
os rituais os iniciados levavam máscaras dos animais
relacionados com o seu nível de iniciação,
dividindo-se em dois grupos: os servidores, que eram os
que se encontravam abaixo do grau leo, e o restantes.
Os
rituais
Para
a reconstrução dos rituais do mitraísmo
conta-se apenas com os textos dos Padres da Igreja e com
as iconografia dos mithraea.
As
mulheres estavam excluídas dos mistérios
de Mitra. Em relação aos homens, parece
que não se requeria uma idade mínima para
ser admitido, tendo sido iniciadas crianças do
sexo masculino. A língua utilizada durante os rituais
era o grego, com algumas fórmulas em persa, apesar
de progressivamente ter sido introduzido o latim.
O
rito principal era um banquete ritual, que aparentemente
tinha algumas semelhanças com a eucaristia do cristianismo.
Segundo Justino, os alimentos oferecidos no banquete eram
o pão e a água, mas alguns achados arqueológicos
revelaram que se tratava de pão e vinho. Esta cerimónia
era realizada na parte central do mithreum, onde existiam
dois bancos onde os participantes se deitavam, conforme
o costume romano de comer deitado. Os Corvos desempenhavam
a função de servidores dos alimentos sagrados.
Do ritual fazia também parte o sacríficio
de um touro e outros animais.
A
estátua de Mitra Tauróctonos desempenhavam
um papel nestes ritos, embora não se conheça
exactamente qual. Em alguns mithraea foram descobertos
pedestais giratórios, que se acredita terem servido
para mostrar e ocultar a imagem aos fiéis.
Num
determinado momento da evolução do mitraísmo
introduz-se o rito do taurobolium ou baptismo dos fiéis
com sangue de um touro, prática comum a outras
religiões orientais. Graças a Tertuliano
conhecem-se hoje as severas críticas cristãs
a estas práticas.
Tertuliano
também descreve o rito de iniciação
do grau de Soldado (Miles). O candidato era baptizado
(talvez por imersão), sendo marcado com um ferro
em brasa; era alvo de um teste, no qual se colocava uma
coroa na sua cabeça que este deveria deixar cair,
proclamando que Mitra era a sua coroa. Posteriormente
os iniciados assistiam a uma morte ritual e simulada,
cujo oficiante era um pater.
De
acordo com Porfírio, no grau de Leo, colocava-se
mel na boca dos récem-nascidos; para os iniciados
adultos vertia-se mel sobre as suas mãos que estes
lambiam em sinal de comunhão. Acredita-se que cada
nível de iniciação teria o seu próprio
ritual.
História
do mitraísmo
Antes
de Roma
A
religião oficial da Pérsia Aqueménida
era o zoroastrismo, religião que postula a existência
de um único deus, ao qual dá o nome de Ahura
Mazda. Esta divindade é a única mencionada
nas inscrições que se conservam da época
de Dário, O Grande. No entanto, outra inscrição,
encontrada em Susa, datada da época de Ataxerxes
II, Mitra é mencionado junto com Ahura Mazda e
uma deusa chamada Anahita.
Não
se sabe se existiu uma ligação entre este
Mitra persa e o da religião de mistérios
do Império Romano. Franz Cumont, responsável
pelo começo dos estudos sobre o mitraísmo,
julgou que sim, mas actualmente a questão é
menos clara.
Um
possível indício da ligação
entre o Mitra persa e o romano pode encontrar-se nos reinos
da Pártia e de Ponto, cujos reis levavam o nome
de Mitridates, talvez relacionado com Mitra. Por outro
lado, em Pérgamo, na Ásia Menor, escultores
gregos produziram os primeiros baixo-relevos com a imagem
de Mitra Tauróctonos. Estas imagens pode representar
um possível percurso de Mitra em direcção
a Roma.
A
primeira referência na historiografia greco-romana
ao culto de Mitra encontra-se na obra de Plutarco, que
refere que os piratas da Cilicia celebravam ritos secretos
relacionados com Mitra no ano 67 a.C.
O
mitraísmo no Alto Império Romano
É
possível que os responsáveis pela introdução
do culto de Mitra no Império Romano tenham sido
os legionários que serviam o império nas
suas fronteiras orientais. As primeiras provas materiais
do culto de Mitra datam de 71 ou 72 d.C.: trata-se de
inscrições feitas por soldados romanos que
procediam da guarnição de Carnuntum, na
província da Panónia Superior e que possivelmente
tinha estado no oriente, na luta contra os partos e no
combate ao levantamento em Jerusalém.
Cerca
do ano 80 o autor Estácio refere a cena da tauroctonia
na sua obra Tebaida.
Em
finais do século II o mitraísmo já
estava amplamente popularizado no exército romano,
bem como entre comerciantes, funcionários e escravos.
A maior parte dos achados referem-se às fronteiras
germânicas do império. Pequenos objectos
de culto associados a Mitra têm sido encontrados
em locais que vão da Roménia à Muralha
de Adriano.
O
mitraísmo no Baixo Império
Os
imperadores do século III foram em geral protectores
do mitraísmo, porque a sua estrutura fortemente
hierarquizada permitia-lhes reforçar o seu poder.
Assim, Mitra converteu-se no símbolo da autoridade
e triunfo dos imperadores. Desde a época de Cómodo,
que foi iniciado nos seus mistérios, os adeptos
do culto eram oriundos de todas as classes sociais.
Numerosos
templos foram encontrados nas guarnições
militares situadas nas fronteiras do império. Em
Inglaterra foram identificados pelo menos três ao
longo da Muralha de Adriano, em Housesteads, Carrawburgh
e Rudchester. Em Londres também foram encontradas
as ruínas de um mithraeum. Outros templo de Mitra
datados desta época podem ser encontrados na província
da Dácia, (onde em 2003 foi encontrado um mithreaum
em Alba Tulia) e na Numídia, no norte de África.
No
entanto, a maior concentração de mithraea
se encontra em Roma e perto da cidade de Ostia, com um
total de doze templos identificados, sendo provável
que tenham existido centenas. A importância do mitraísmo
em Roma pode ser avaliada a partir dos achados: mais de
setenta e cinco peças de escultura, uma centena
de inscrições e ruínas de templos
e santuários em toda a cidade e subúrbios.
Um dos mithraeum mais destacados, que conserva o altar
e os bancos de pedra, foi construído por debaixo
de uma casa romana e sobrevive na cripta sobre a qual
se contruiu a Basílica de S. Clemente em Roma.
Fim
do mitraísmo
Em
finais do século III gerou-se um sincretismo entre
a religião de Mitra e certos cultos solares de
procedência oriental, que se cristalizaram na religião
do Sol Invictus. Esta religião foi estabelecida
como oficial no Império em 274 pelo imperador Aureliano,
que mandou construir em Roma um templo dedicado ao deus
e criou um corpo estatal de sacerdotes para prestar-lhe
culto. O máximo dirigente deste culto levava o
título de pontifex solis invicti. Aureliano atribuiu
a Sol Invictus as suas vitórias no Oriente. Contudo,
este sincretismo não implicou o desaparecimento
do mitraísmo, que continuou existindo como culto
não oficial. Muitos dos senadores da época
professaram ao mesmo tempo o mitraísmo e a religião
do Sol Invictus.
No
entanto, este período representou o começo
do fim do mitraísmo, provocado pelas perdas territoriais
que o império sofreu em consequência da invasão
dos povos bárbaros e que afectariam os territórios
fronteiriços onde o culto estava muito arreigado.
A concorrência do cristianismo, apoiado por Constantino,
tiraria adeptos ao mitraísmo. Importa realçar
o facto do mitraísmo excluir as mulheres, situação
que não se verificava no cristianismo. O cristianismo
substitui o mitraísmo durante o século IV
até se converter na única religião
permitida com Teodósio (379-395). O imperador Juliano
tentou revitalizar o culto de Mitra, bem como o usurpador
Eugénio, nos dois casos com pouco êxito.
O mitraísmo foi abolido formalmente em 391, sendo
provável que a sua prática tenha continuado
várias décadas.
Em
algumas regiões dos Alpes o mitraísmo sobreviveu
até ao século V, bem como no Oriente, onde
teve um renascimento breve. Acredita-se que o mitraísmo
teve um importante papel no desenvolvimento do maniqueísmo,
outra doutrina que seria concorrencial ao cristianismo.