Ligação
ao Movimento de Reforma Norte-americano
Muitos
dos primeiros participantes do Espiritualismo norte-americano
eram quakers radicais e outros envolvidos pelo movimento
de reforma de meados do século XIX. Esses reformistas
não se sentiam bem com as igrejas estabelecidas
porque elas pouco faziam para lutar contra a escravidão
e menos ainda para aumentar os direitos das mulheres.
As mulheres eram particularmente atraídas ao movimento
porque ele dava a elas papéis importantes como
médiuns. Na verdade, o Espiritualismo ofereceu
um dos primeiros foros onde as mulheres norte-americanas
puderam dirigir-se a audiências públicas
mistas (Braude 2001).
Manifestações
Físicas e Fraude
Os
Espiritualistas costumam considerar o dia 31 de março
de 1849 como o início do seu movimento. Naquela
data, Kate e Margaret Fox, de Hydesville, Nova Iorque,
relataram que tinham feito contato com o espírito
de um mascate assassinado. O que fez disso um evento extraordinário
foi que o espírito se comunicava por pancadas audíveis
em vez de simplesmente aparecer a uma pessoa em transe.
A evidência dos sentidos dizia fundo aos norte-americanos
práticos e as irmãs Fox tornaram-se uma
sensação. As demonstrações
de mediunidade mostraram ser um negócio lucrativo
e logo se tornaram formas populares de entretenimento
e catarse espiritual. As irmãs Fox acabaram fazendo
disso sua fonte de renda e outros seguiram seu exemplo
(Carroll 1997; Braude 2001).
Nos
anos seguintes, o exibicionismo tornou-se uma parte cada
vez mais importante do Espiritualismo e a evidência
visível, audível e tangível de espíritos
cresceu à medida que os médiuns competiam
por audiências pagas. A fraude tornou-se certamente
disseminada, como comissões de investigação
independentes demonstraram, mais notadamente o relatório
da comissão Sybert [2], talvez o caso mais conhecido
de fraude, envolvendo os Irmãos Davenport.
No
entanto, a despeito da fraude generalizada, o apelo do
Espiritualismo era forte. Antes de tudo, o movimento atraia
a simpatia dos que sofriam pela morte de uma pessoa amada:
o ressurgimento do interesse no Espiritualismo durante
e após a Primeira Guerra Mundial foi uma resposta
direta ao número maciço de mortos e feridos
(Doyle 1926). Entretanto o movimento também atraia
a simpatia dos reformistas, que descobriram que os espíritos
apoiavam "casos da moda" tais como a igualdade
de direitos (Braude 2001).
O
movimento também despertou a simpatia daqueles
que tinham um orientação materialista e
tinham rejeitado a religião. O influente socialista
e ateu Robert Owen abraçou a religião após
suas experiências em encontros espiritualistas.
Muitos homens de ciência que se preocuparam em investigar
os fenômenos também acabaram por se converter,
entre eles o químico William Crookes, o biologista
evolucionista Alfred Russel Wallace (1823-1913) e o médico
e escritor Arthur Conan Doyle (1859-1930)[3] (Doyle 1926).
Espalhado
mas Desorganizado
O
movimento espalhou-se rapidamente pelo mundo apesar de
somente no Reino Unido ter-se tornado tão espalhado
como nos Estados Unidos (Britten 1884). Na Grã-Bretanha,
por volta de 1853, convites para o chá entre os
prósperos e os da moda freqüentemente incluíam
as "mesas girantes", um tipo de sessão
no qual os espíritos se comunicavam com as pessoas
sentadas à volta de uma mesa balançando-a
ou girando-a (Carroll 1997; Braude 2001).
Os
espiritualistas norte-americanos se encontravam em casas
particulares para sessões de efeitos físicos),
em auditórios para palestras psicofônicas
e em acampamentos de veraneio onde milhares compareciam
para convenções estaduais ou nacionais.
O movimento era extremamente individualista, onde cada
espiritualista confiava em suas próprias experiências
e leituras para discernir a natureza do após-vida.
Portanto, a organização demorou a aparecer
e quando ocorreu foi resistida por médiuns (de
efeitos físicos) e palestrantes psicofônicos.
A maioria dos espiritualistas norte-americanos satisfaziam-se
em frequentar igrejas cirstãs e as igrejas Unitaristas
e Universalistas continham muitos espiritualistas. Quando
o movimento começou a desaparecer, em parte devido
às fraudes expostas e em parte devido ao apelo
de movimentos religiosos similares como a Christian Science
(Ciência Cristã), a Spiritualist Church (Igreja
Espiritualista) foi organizada e esta igreja pode alegar
ser o principal vestígio do movimento que ainda
existe hoje em solo norte-americano (Carroll 1997; Braude
2001).
O Espiritismo
O
acadêmico francês Hypolite Léon Denizard
Rivail, mais tarde conhecido pelo codinome de Allan Kardec
(1804-1869), fez a primeira tentativa de sistematizar
as práticas e idéias espiritualistas em
um sistema filosófico consistente. Os livros de
Kardec, escritos nos 15 últimos anos de sua vida,
tornaram-se a base teórica de um movimento chamado
de Espiritismo, espalhado, principalmente, pelos países
latinos. No Brasil, as idéias propostas nas obras
escritas por Kardec possuem hoje milhões de seguidores.
O Espiritsmo evoluiu de forma muito diversa do Espiritualismo
norte-americano e inglês. Sendo o Espiritismo uma
doutrina, originada no movimento Espiritualista mas tendo
obtido características e vida própria, a
suas crenças e a sua evolução histórica
não serão abordados neste artigo.
Outros
Médiuns e Crentes Proeminentes Anglofônicos
Amy
Post e Isaac Post eram Hicksite Quakers de Rochester,
Nova Iorque. Antigos conhecidos da família Fox,
eles levaram as Irmãs Fox para a sua casa no final
da primavera de 1848. Como Quakers radicais, fazendo camapanha
pela abolição e pelos direitos iguais para
as mulheres, eles ajudaram a colocar uma etiqueta de reforma
no movimento (Braude 2001).
Achsa
W. Sprague nasceu em 17 de novembro de 1827, em Plymouth
Notch, Vermont. Aos 20 anos ela ficou doente com febre
reumática e creditou sua recuperação
à intervenção dos espíritos.
Uma palestrante psicofônica muito popular, ela viajou
pelos Estados Unidos até a sua morte em 1861. Como
a maioria dos espiritualistas do seu tempo, Sprague era
abolicionista e defensora dos direitos das mulheres (Braude
2001).
Cora
L. V. Scott (1840-1923) foi a palestrante psicofônica
mais popular que houve antes da Guerra Civil Norte-americana.
Jovem e bonita, seu aparecimento no palco fascinava os
homens. A incongruência entre seu elevado discurso
e seu jeito de menina dava crédito à noção
de que os espíritos falavam por ela. Cora casou-se
quatro vezes e, a cada vez, adotou o sobrenome do marido.
Durante o seu período de maior atividade ela era
conhecida como Cora Hatch (Braude 2001).
Crenças
Características
Os
Espiritualistas acreditam na possibilidade de comunicação
com os espíritos. Uma crença secundária
é que os espíritos estão de certa
forma mais próximos de Deus que os humanos vivos
e que os espíritos são capazes de crescimento
e perfeição. A vida após a morte
não é, portanto, um lugar estático
mas um onde os espíritos continuam a evoluir. As
duas crenças, a de que o contato com espíritos
é possível e a de que os espíritos
são mais adiantados que os humanos, levam a uma
terceira, a de que os espíritos podem prover informação
útil sobre assuntos morais e éticos, assim
como sobre a natureza de Deus e a vida após a morte.
Assim, muitos espiritualistas falarão com seus
guias espirituais, espíritos específicos
freqüentemente contactados para orientação
mundana e espiritual.
Comparações
com Outras Crenças
O
Espiritualismo emergiu num ambiente cristão e tem
muitas caracterísitcas em comum com o Cristianismo:
um sistema moral essencialmente cristão, uma crença
percebida no Deus judaico-cristão, panenteísmo
místico e práticas litúrgicas como
serviços dominicais e canto de hinos. A razão
principal para essas semelhanças é que os
espiritualistas acreditam que alguns espíritos
são "atrasados" ou brincalhões
e se deliciam desviando os humanos do rumo. Assim sendo,
desde Swedenborg, os crentes são aconselhados a
hesitarem antes de seguir a orientação dos
espíritos e geralmente desenvolveram suas crenças
dentro de uma estrutura cristã..
No
entanto, em pontos significativos, o Cristianismo e o
Espiritualismo são bem diferentes. Os espiritualistas
não acreditam que as ações desta
vida levem ao destino eterno de cada alma seja no céu
ou no inferno. Em vez disso, eles vêm a vida após
a morte como contendo muitas esferas arranjadas hierarquicamente,
através das quais cada espírito pode ter
sucesso em progredir. Os espiritualistas também
divergem dos cristãos quanto ao fato de a bíblia
judaico-cristã não ser a fonte primária
de seu conhecimento sobre Deus e a vida após a
morte e sim os contatos pessoais que eles têm com
os espíritos.
Outras
religiões além do Cristianismo também
influenciaram o Espiritualismo. As crenças animistas,
com uma tradição de xamanismo, são
obviamente similares e, nas primeiras décadas do
Espiritualismo, muitos médiuns alegaram ter feito
contato com guias indígenas americanos em uma aparente
confirmação dessas semelhanças. Ao
contrário dos animistas, no entanto, os espiritualistas
tendem a falar apenas com os espíritos de humanos
mortos e não compartilham a crença nos espíritos
de árvores, fontes e outras caracterísiticas
da natureza.
O
Hinduismo, apesar de ser um sistema de crenças
extremamente heterogêneo, geralmente compartilha
com o Espiritualismo a crença na separação
da alma do corpo após a morte e na continuação
da sua existência. No entanto, os Hindus diferem
dos espiritualistas quanto ao fato de crerem geralmente
na reencarnação, geralmente sustentando
que todas as características da personalidade de
uma pessoa se extinguem com a morte. Os espiritualistas,
entretanto, sustentam que o espírito mantém
a personalidade que ele tinha durante a sua (única)
existência.
O
Espiritismo, ramo do Espiritualismo desenvolvido por Allan
Kardec e predominante na maioria dos países latinos,
sempre enfatizou a reencarnação. De acordo
com Arthur Conan Doyle, a maior parte dos espiritualistas
britânicos do começo do século vinte
eram indiferentes à doutrina de reencarnação,
com poucos a apoiando e uma minoria significativa lhe
sendo vêementemente contrária, alegando estes
que tal crença jamais tinha sido confirmada nos
contato com os espíritos. Assim, de acordo com
Conan Doyle, foi a tendência empírica do
Espiritualismo anglofônico —seu esforço
por desenvolver visões religiosas a partir da real
observação dos fenômenos— que
evitou que os espiritualistas daquele período adotassem
a reencarnação (Doyle 1926: volume 2, 171-181).
Segundo se pode concluir, no entanto, pela leitura das
obras básicas do Espiritismo —a chamada Codificação
Espírita— a afirmação de Conan
Doyle não encontra respaldo na realidade, posto
que toda a Doutrina Espírita foi escrita a partir
de informações obtidas com os espíritos
e como fruto da observação e do estudo dos
fenômenos espíritas. A propósito dos
motivos da não adoção do princípio
da reencarnação pelos espiritualistas americanos,
Kardec escreveu um artigo na edição de maio
de 1884 da sua Revista Espírita, intitulado "A
Escola Espírita Americana".
O
Espiritualismo também difere dos movimentos ocultistas,
como a Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética
do Amanhecer Dourado) ou dos wiccans contemporâneos,
quanto ao fato de os espíritos não serem
contactados para se obter poderes mágicos (com
a única excessão de obter-se o poder de
cura). Madame Blavatsky (1831-1891), da Sociedade Teosófica,
por exemplo, somente praticava mediunidade de modo a contactar
espíritos poderosos capazes de conferir conhecimento
esotérico. Aparentemente, Blavatski não
acreditava que tais espíritos fossem humanos mortos
e de fato tinha crenças na reencarnação
bastante diferentes das que tinha a maior parte dos espiritualistas
(Braude 2001).
Desenvolvimentos
após os anos de 1920
Já
pelo final do século dezenove o Espiritualismo
tinha-se tornado cada vez mais sincrético, um desenvolvimento
natural em um movimento sem autoridade ou dogma central
(Braude 2001). Na sua forma mais sincrética, o
Espiritualismo não é facilmente distinguível
do igualmente sincrético movimento da Nova Era
e, assim como o movimento da Nova Era, baseia-se fortemente
no xamanismo e adota a idéia da reencarnação.
No entanto, a forma da prática espiritualista permanece
quase a mesma que há 100 anos, centrada em um médium
e seus clientes, com o médium sentado a sós
ou em sessão. Talvez a maior diferença seja
a importância crescente da Igreja Espiritualista
como uma rede ligando médiuns e crentes. O Espiritualismo
organizado hoje parece-se muito mais com uma religião
tendo descartado o exibicionismo, particulamente os elementos
semelhantes aos da arte de prestigitação.
Existe assim muito mais ênfase à mediunidade
"mental" e evita-se quase completamente a mediunidade
miraculosa de "materialização"
que tanto fascinava os primeiros crentes como Arthur Conan
Doyle (Guthrie, Lucas, and Monroe 2000).
No
entanto, a orientação empírica do
Espiritualismo tem muitos adeptos hoje em dia que evitam
o rótulo de "Espiritualismo", preferindo
o termo "Survivalism" (Sobrevivencialismo).
Os "Survivalists" abstém-se de religião,
e baseiam sua crença na vida após a morte
em fenômenos susceptíveis a pelo menos uma
rudimentar investigação científica,
como mediunidade, experiências de quase-morte, experiências
fora-do-corpo, experiências de voz eletrônica
e pesquisas sobre reencarnação. Muitos "Survivalists"
vêm a si mesmos como os herdeiros intelectuais do
movimento espiritualista