As
religiões tendem igualmente a sacralizar determinados
locais. Os motivos para essa sacralização
são variados, podendo estar relacionados com determinado
evento na história da religião (por exemplo,
a importância do Muro das Lamentações
no judaísmo) ou porque a esses locais são
associados acontecimentos miraculosos (santuários
católicos de Fátima ou de Lourdes). Na antiga
religião grega, os templos não eram locais
para a prática religiosa, mas sim locais onde se
acreditava que habitava a divindade, sendo por isso sagrados.
As
religiões estabelecem que certos períodos
temporais são especiais e dedicados a uma interacção
com o divino. Esses períodos podem ser anuais, mensais,
semanais ou podem mesmo se desenrolar ao longo de um dia.
Algumas religiões consideram que certos dias da semana
são sagrados (Shabat no judaísmo ou o Domingo
no cristianismo). As religiões propõem festas
ou períodos de jejum e meditação que
se desenvolvem ao longo do ano.
O
estudo da religião
História
do estudo da religião
As
primeiras reflexões sobre a religião foram
feitas pelos antigos Gregos e Romanos. Xenofonte relativizou
o fenómeno religioso, argumentando que cada cultura
criava deuses à sua semelhança. O historiador
grego Heródoto descreveu nas suas Histórias
as várias práticas religiosas dos povos que
encontrou durante as viagens que efectou. Confrontado com
as diferenças existentes entre a religião
grega e a religião dos outros povos, tentou identificar
alguns deuses das culturas estrangeiras com os deuses gregos.
O sofista Protágoras declarou desconhecer se os deuses
existiam ou não, posição que teve como
consequências a sua expulsão de Atenas e o
queimar de toda a sua obra. Crítias defendeu que
a religião servia para disciplinar os seres humanos
e fazer com que estes aderissem aos ideiais da virtude e
da justiça. Júlio César e o historiador
Tácito descreveram nas suas obras as práticas
religiosas dos povos que encontraram durante as suas conquistas
militares.
Nos
primeiros séculos da era actual, os autores cristãos
produziram reflexões em torno da religião
fruto dos ataques que experimentaram por parte dos autores
pagãos. Estes criticavam o facto desta religião
ser recente quando comparada com a antiguidade dos cultos
pagãos. Como resposta a esta alegação,
Eusébio de Cesareia e Agostinho de Hipona mostraram
que o cristianismo se inseria na tradição
das escrituras hebraicas, que relatavam a origem do mundo.
Para os primeiros autores cristãos, a humanidade
era de início monoteísta, mas tinha sido corrompida
pelos cultos politeístas que identificavam como obra
de Satanás.
Durante
a Idade Média, os pensadores do mundo muçulmano
revelaram um conhecimento mais profundo das religiões
que os autores cristãos. Na Europa, as viagens de
Marco Polo permitiram conhecer alguns aspectos das religiões
da Ásia, porém a visão sobre as outras
religiões era limitada: o judaísmo era condenado
pelo facto dos judeus terem rejeitado Jesus como messias
e o islão era visto como uma heresia.
O
Renascimento foi um movimento cultural e artístico
que procurava reviver os moldes da Antiguidade. Assim sendo,
os antigos deuses dos gregos e dos romanos deixaram de ser
vistos pela elite intelectual e artística como demónios,
sendo representados e estudados pelos artistas que os representavam.
Nicolau de Cusa realizou um estudo comparado entre o cristianismo
e o islão em obras como De pace fidei e Cribatio
Alcorani. Em Marcílio Ficino encontra-se um interesse
em estudar as fontes das diferentes religiões; este
autor via também uma continuidade no pensamento religioso.
Giovanni Pico della Mirandola interessou-se pela tradição
mística do judaísmo, a Cabala.
As
descobertas e a expansão europeia pelos continentes
tiveram como consequência a exposição
dos europeus a culturas e religiões que eram muito
diferentes das suas. Os missionários cristãos
realizaram descrições das várias religiões,
entre as quais se encontram as de Roberto de Nobili e Matteo
Ricci, jesuítas que conheceram bem as culturas da
Índia e da China, onde viveram durante anos.
Em
1724 Joseph François Lafitau, um padre jesuíta,
publicou a obra Moeurs des sauvages amériquains comparées
aux moeurs des premiers temps na qual comparava as religiões
dos índios, a religião da Antiguidade Clássica
e o catolicismo, tendo chegado à conclusão
de que estas religiões derivavam de uma religião
primordial.
Nos
finais do século XVIII e no início do século
XIX parte importante do textos sagrados das religiões
tinham já sido traduzidos nas principais línguas
europeias. No século XIX ocorre também a estruturação
da antropologia como ciência, tendo vários
antropólogos se dedicado ao estudo das religiões
dos povos tribais. Nesta época os investigadores
reflectiram sobre as origens da religião, tendo alguns
defendido um esquema evolutivo, no qual o animismo era a
forma religiosa primordial, que depois evoluía para
o politeísmo e mais tarde para o monoteísmo.
Abordagens
disciplinares
|
Um
feiticeiro dos Camarões |
O
estudo científico da religião é actualmente
realizado por várias disciplinas das ciências
sociais e humanas. A História das Religiões,
nascida na segunda metade do século XIX, estuda a
religião recorrendo aos métodos da investigação
histórica. Ela estuda o contexto cultural e político
em que determinada tradição religiosa emergiu.
A
Sociologia da Religião analisa as religiões
como fenómenos sociais, procurando desvendar a influência
dela na vida do indivíduo e da comunidade. A Sociologia
da Religião tem como principais nomes Emile Durkheim,
Karl Marx, Ernst Troeltsch, Max Weber e Peter Berger.
A
Antropologia, tradicionalmente centrada no estudo dos povos
sem escrita (embora os seus campos de estudo possam ser
também as modernas sociedades capitalistas), desenvolveu
igualmente uma área de estudo da religião,
na qual se especulou sobre as origens e funções
da religião. John Lubbock, no livro The Origin of
Civilization and the Primitive Condition of Man apresentou
um esquema evolutivo da religião: do ateísmo
(entendido como ausência de ideias religiosas), passa-se
para o xamanismo, o antropomorfismo, o monoteísmo
e finalmente para o monoteísmo ético. Este
visão evolucionista foi colocada em questão
por outros investigadores, como E.B. Taylor que considerava
o animismo como a primitiva forma de religião.
A
Fenomenologia da Religião, que deriva da filosofia
fenomenológica de Edmund Husserl, tenta captar o
lado único da experiência religiosa. Utiliza
como principal método científico a observação,
explicando os mitos, os símbolos e os rituais. Ela
procura compreender a religião do ponto de vista
do crente, bem como o valor dessas crenças na vida
do mesmo. Por estas razões evita os juízos
de valores (conceito de epoje ou abandono de qualquer juízo
de valor). Os principais nomes ligados à Fenomenologia
da Religião são Nathan Soderblom, Garardus
van der Leeuw, Rudolf Otto, Friedrich Heiler e Mircea Eliade.
Classificação
das religiões
Classificação
geográfica
Esta
classificação procura agrupar as religiões
com base em critérios geográficos, como a
concentração numa determinada região
ou o facto de certas religiões terem nascido na mesma
região do mundo. As categorias mais empregues são
as seguintes:
* Religiões do Médio Oriente: judaísmo,
cristianismo, islão, zoroastrismo;
* Religiões do Extremo Oriente: confucionismo, taoísmo,
budismo mahayana e xintoísmo;
* Religiões da Índia: hinduísmo, jainismo,
budismo e siquismo;
* Religiões africanas: religiões dos povos
tribais da África Negra;
* Religiões da Oceania: religiões dos povos
das ilhas do Pacífico, da Austrália e da Nova
Zelândia;
* Religiões da Antiga Grécia e Roma.
Esta
classificação é problemática,
visto que algumas religiões não estão
limitadas a uma dada região (como por exemplo o islão)
e porque algumas religiões não são
actualmente relevantes na região geográfica
em que se originaram (exemplo do cristianismo, que embora
tivesse nascido no Médio Oriente é hoje minoritário
naquela região do mundo).
A
religião no mundo contemporâneo
|
Adeptos
do Cao Dai, uma religião sincrética
surgida no século XX |
Desde
os finais do século XIX, e em particular desde a
segunda metade do século XX, o papel da religião,
bem como seu número de aderentes, se tem alterado
profundamente.
Alguns
países cuja tradição religiosa esteve
historicamente ligada ao cristianismo, em concreto os países
da Europa, experimentaram um significativo declínio
da religião. Este declínio manifestou-se na
diminuição do número de pessoas que
frequenta serviços religiosos ou do número
de pessoas que desejam abraçar uma vida monástica
ou ligada ao sacerdócio.
Em
contraste, nos Estados Unidos, na América Latina
e na África subsariana, o cristianismo cresce significativamente;
para alguns estudiosos estes locais serão num futuro
próximo os novos centros desta religião. O
islão é actualmente a religião que
mais cresce em número de adeptos, que não
se circunscrevem ao mundo árabe, mas também
ao sudeste asiático, e a comunidades na Europa e
no continente americano. O hinduísmo, o budismo e
o xintoísmo tem a sua grande área de influência
no Extremo Oriente, embora as duas primeiras tradições
influenciem cada vez mais a espiritualidade dos habitantes
do mundo ocidental. A Índia, onde cerca de 80% da
população é hindu, é um dos
países mais religiosos do mundo, ficando em segundo
lugar após os Estados Unidos. As explicações
para o crescimento das religiões nestas regiões
incluem a desilusão com as grandes ideologias do
século XIX e XX, como o nacionalismo e o socialismo.
Por
outro lado, o mundo ocidental é marcado por práticas
religiosas sincréticas, ligadas a uma "religião
individual" de cada um faz para si e ao surgimento
dos chamados "novos movimentos religiosos". Embora
nem todos esses movimentos sejam assim tão recentes,
o termo é usado para se referir a movimentos neocristãos
(Movimento de Jesus), judaico-cristãos (Judeus por
Jesus), movimentos de inspiração oriental
(Movimento Hare Krishna) e a grupos que apelam ao desenvolvimento
do potencial humano através por exemplo de técnicas
de meditação (Meditação Transcendental).
Também
presente na Europa e nos Estados Unidos da América
é aquilo que os investigadores designam como uma
"nebulosa místico-esotérica", que
apela a práticas como o xamanismo, o tarot, a astrologia,
os mistérios e cuja actividades giram em torno da
organização de conferências, estágios,
revistas e livros. Algumas das características desta
nebulosa místico-esotérica são a centralidade
do indivíduo que deve percorrer um caminho pessoal
de aperfeiçoamento através da utilização
de práticas como o ioga, a meditação,
a ideia de que todas as religiões podem convergir
, o desejo de paz mundial e do surgimento de uma nova era
marcada por um nível superior de consciência. |